domingo, 12 de julho de 2020

ESCUTE O CREPITAR DAS CHAMAS NO OLHAR



ou O ROSTO DE QUEM NÃO FALA NADA


Em português:

Deixei de trabalhar porque este corpo não vale nada. Não vale nada! Não tenho irmãos. A única morreu de câncer. – Fala pra si e de costas a quem quer que seja.
“Quem é ele e do que fala”. Talvez pergunte, no entanto te respondo apenas que tem a fisionomia daqueles que nada dizem. Contudo, em seus olhos há chamas cujo crepitar pode-se ouvir.
Mas ele não é visto nem ouvido e todavia lhe gritam: “Você é o lixo imundo da escória”.
Lixo por ser preto; imundo por ser gay; e escória por ser professor.
O que importa se em suas aulas ele diz que não há estabilidade na Literatura, pois há modismos que incentivam a ler, contudo não produz o amargo do pensar a fundo. Diz mais: São felizes os que não pensam a fundo. Possuem a tranquilidade dos gatos e as brincadeiras dos cães.
Proclama e se cala.
Mas o pensador – aquele que reflexiona e filosofa – é uma pitanga. Há quem rirá disso. E quem ri está preso ao desapreço à própria língua. Linda língua a portuguesa. Acharia elegante se fosse em inglês ou francês. Os que pensam a fundo, porém, sabem que a leitura – a verdadeira leitura – começa doce e termina amarga. Deleita-se com sua beleza e padece com os pensamentos que produz. Dois sabores em momentos distintos; como a pitanga.
Pensa e se cala. 

E sua fisionomia calada sai da sala de aula para a sala dos professores. Mas tão esgotado está que geme ainda no corredor; bem em frente ao ipê frondoso, mas não amarelamente florido.
- Meus livros são em vão em sala de aula. Meus planos de aula pesam. – Até pareço Fedra. – pensa e ri amargo enquanto sente sua força cair. Senta no corredor.
- Tá se sentido bem, professor? – Pergunta um idoso encarregado da limpeza.
- A luz do sol me cega. Mas estou bem. – Diz e se levanta com esforço. – Obrigado! – O senhor da limpeza se preocupa um pouco. – O senhor deveria estar em casa; aposentado. Mas esse governo... – O senhor da limpeza se entristece um pouco com o que ouve, mas volta ao trabalho.
O professor termina o trajeto sabendo ser observado...
E ainda assim caminha.


En español:

OIGA EL CREPITAR DE LAS LLAMAS EN EL MIRAR
o EL ROSTRO DE QUIEN NO HABLA NADA


No más trabajo porque este cuerpo no vale nada. No tiene ningún valor. No tengo hermanos. La única se murió de cáncer. – Platica para sí mismo y de espaldas a los demás.
¿Quién es él y de que habla?, tal vez pregunte. Y te contesto: él tiene la fisionomía de aquellos que nada dicen. Todavía, sus ojos llevan las llamas cuyo crepitar se puede oír.
Sin embargo, él no es visto ni oído, pero le gritan: “Sos la basura inmunda de la escoria”. Basura por ser indio; inmundo por ser maricón; y escoria por ser maestro.
Él dijo en sus clases: no hay estabilidad en la Literatura, pues hay una moda pasajera que incentiva a leer, pero no produce el amargo del reflexionar. Dijo más: Son felices los que no reflexionan. Tienen la tranquilidad de los gatos y los juegos de los perros.
Habla y se calla.
Sin embargo, el pensador que medita con detenimiento es una pitanga. Hay quien reirá de eso. Y quien reí esta desposado al desaprecio a propia lengua. Creería elegante se fuera francés o mismo inglés. Pero, quien filosofa sabe que la lectura – la verdadera lectura – empieza dulce y termina amarga. Se encanta con su belleza y padece con los pensamientos que produce. Dos sabores en momentos distintos; como la pitanga.
Piensa y se calla. 

Y su fisionomía callada sale de aula y camina a la sala de los maestros. Están tan agotado que gime aún en el pasillo; frente al lapacho frondoso, todavía no amarillamente florido.
- Mis libros son en vano en aulas. Mis planes de clases pesan. Hasta parezco Fedra. – Piensa e reí amargo mientras siente sus fuerzas cayeren. Se sienta en el pasillo.
- ¿Se sientes bien, maestro? – Pregunta un anciano encargado de limpiar la escuela.
- La luz del sol me ciega. Pero estoy bien. – Platica y se levanta con esfuerzo. – ¡Gracias! – El señor de la limpieza se preocupa por un rato. – Usted debería estar en su casa; jubilado. Pero ese gobierno… – Por un rato el señor de la limpieza se entristece con que oye, pero vuelve al trabajo.
El maestro termina el trayecto sabiendo ser observado…
Y aún así camina.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Cida Lima, Paulo G.C. Pimenta, Pablo Figueroa, Alex Pontes e Sarah Lombello.

Recomendo a leitura de:
“Fé para Encontrar Paz”, de Glaussim:
“Novos tempos e muitas vacilações” e “Dramas Escolhidos”, ambos de António MR Martins:

FAGUET, Émile. A Arte de Ler. [Trad. Adriana Lisboa]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 2009. P. 42 e 48.

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Escrito primeiro no dia 24 de fevereiro de 2019; acrescentado no dia 22 de abril; digitado no dia 20 de maio; e trabalhado entre os dias 08 e 12 de julho de 2020.

domingo, 5 de julho de 2020

A PALAVRA MAIS PESADA



Armas llevan a destrucción y muerte. ¡Libros, a reflexión y vida!
Cierro el libro y los ojos. Veo a persona del sueño. Oigo del sueño todo que ella nunca dijera en la realidad. Pero conocí mejores gentes y oí verdades en los libros.
Un atrueno me vuelve a realidad. El vecino de la derecha se arrodilla de ojos muy abiertos, ancha boca muda, corazón exponiéndose. Armas llevan a destrucción y muerte.

Diz Dona Maria Soares, aos 96 anos: “Armas levam à destruição e morte. Livros, à reflexão e vida!”. Isso em Ipatinga (MG) durante a manifestação nacional em protesto aos cortes orçamentais na Educação.
Armas levam à destruição e morte. Livros, à reflexão e vida! Com isso ecoando na cabeça caminhava de retorno a casa. Acabara de sair da praça dos três podres, digo, três poderes e mal tocara o pé na praça José Júlio da Costa quando uma voz me disse:
- Você consegue ver além das aparências?
- Não. No máximo consigo vislumbrar algum fragmento interno da pessoa. Mas nunca o todo. O véu da carne, ouvi de um espírita, é muito forte.
A voz quer continuar, mas eu não e volto a andar enquanto penso em um poema de Rubem Leite.
Vermelho sangue
Escorra
Verde madeira
Corte
Verdade justiça
Impeça
Ver o olho
Cegue
Errados Arrependidos¹
Exclamações:
Garçom preso
Pré-adolescente denuncia
Sexo
Carro destruído
População justiceira
Complexo
Garçom solto
Menina mentira
Desconexo
Interrogações:
Justiceiros arrependidos
Garçom absolvido
Descreio
Carro novo
Respeito de novo
Alguém veio
Menina arrependida
Namoradinho sem sentido
Devaneio
Já na minha rua vejo sentados na calçada, com cachimbos acesos, aqueles que se odeiam e são odiados.
A direita de minha casa, à porta, o vizinho me pede dois reais. Não fala o motivo. Mas por uma quantia dessas é pedra pra fumar.
- Nunca dou dinheiro.
- Mas outra coisa cê dá...
Há coisas mais importantes que a sexualidade. Por isso não lhe olho nem respondo. Abro o portão, subo a escada, atravesso a sala-cozinha, entro no meu quarto, fecho a porta, subo na cama, olho pela janela o telhado do vizinho da esquerda.
E o que vejo é o sonho que esta manhã me acordara. O sujeito com quem sonhei estava tão arrependido que sentia que nada lhe poderia redimir, mas sentia que a mais forte penitência seria a palavra mais pesada.
Peço perdão! Peço perdão não porque queira ser perdoado. Peço perdão não porque mereça ser perdoado. Peço perdão porque perdão é a palavra mais feia que conheço.

Livros levam a reflexão e vida. Finalmente deixo a janela e me deito. Ney me diz: “Naquela época, um padre me perguntou se eu ‘fazia saliências’ com meninas. Uma criança, incrédulo com a situação, respondi que não. Ele perguntou, então, se eu ‘fazia saliências’ com os meninos. Aquele episódio me marcou profundamente. Foi assim, através da Igreja, que descobri que os meninos também eram uma possibilidade para exercitar a sexualidade.”².
Fecho o livro e os olhos. Vejo a pessoa do sonho. Ouço do sonho o que ela nunca dissera na realidade. Mas conheci melhores gentes e ouvi verdades nos livros.
Um estrondo me volta à realidade. O vizinho da direita se ajoelha de olhos esbugalhados, aberta a boca muda, coração expondo-se. Armas levam à destruição e morte.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Edgar Soares, Rita Eneida M. Rocha, Neide R. Azevedo e ao Circo Massa.

Recomendo a leitura de:
Sem título, poema de Victor Hiroshi:
https://cafesegredo.blogspot.com/2020/07/tempo-vem-tempo-vai.html
“Dois minutos para a meia-noite”, de Glaussim:
https://www.recantodasletras.com.br/contosdesuspense/6986901
“Invisíveis Dores Profundas”, de António MR Martins:

¹ Caso real que recordei ao pensar em nossa sociedade tão doente.
² MATOGROSSO, Ney. Sangue Latino. Vira-lata de raça. Ramon Nunes Mello (pesquisa, interlocução e organização). São Paulo: Tordesilhas, 2018. P. 23.

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Texto iniciado no dia 16 de maio de 2019; acrescido quatro dias depois; e trabalhado entre 30 de junho e 05 de julho de 2020.

domingo, 28 de junho de 2020

PACIÊNCIA E RESISTÊNCIA



No Parque Ipanema o cata-vento está parado baixo nuvens cinza. O clima hoje está pesado no tempo escuro.
Caminho entre pessoas. Há quem anda; há quem se exercita; há quem dança. Caminho olhando o cata-vento. Há vento e ele não se move.
O urucum está frutificado. A árvore está de pé. E “a uma pessoa que está de pé falamos mais de perto, mais diretamente, mais intensamente se estamos de pé nós também.”. A árvore está de pé; mais em pé que tantos. 

De pé falo ao urucum que me responde em suas cores: um pouco de rosa esbranquiçado; um muito de verde; e um muito mais de vermelho quase vinho.
 

Olho atrás e o cata-vento... Parado. Mexo-me entre tantas árvores a bailar com o vento. Paro para conversar com o cajueiro que me pede para comunicar: “A você que me feriu: por amor não me agrida! Você com sua faca arrancou minha casca, que é a minha pele. Preciso dela para não morrer. Te dou oxigênio, flores e frutos. Embelezo sua paisagem. Por amor, não me agrida!”.
Fecho os olhos e oro. Em guarani, Calamantã sussurra com sua doce voz de vento nas folhas das árvores: “E ha'arõ kua’ante che mba’e porã.”.
- Por favor, Calamantã, diga-me em português o que falou para o cajueiro.
- Eu disse: “Paciência, minha linda. Paciência.”. Paciência você também, Benito.
Poder ouvir a voz de Calamantã é uma benção.
Olho o cata-vento imóvel e mexo-me entre tantas árvores de pé e ao deitado monumento EU ♥ IPATINGA.
O bem estar popular está no Pq. Ipanema.
Na cidade há o preço da passagem de ônibus, o preço do feijão, do tomate, do gás.
Mas isso foi no ano passado. Neste ano...
O Parque Ipanema está vedado para o povo. O que continua aberto são as grandes lojas, os salões de beleza, as academias de ginástica e as mais rendosas de todas as empresas: as igrejas.
Sento, abro o livro “Riscando Fósforos: contando para manter viva”, de Robinson A. Pimenta e na página quinze me deparo: “... inalienável Direito de Resistência a qualquer forma de opressão. [...] ‘Vivemos tempos em que não temos tempo para cuidar de nós!’.” Fecho os olhos não sei se por segundos ou minutos. Mas ainda percebo Calamantã.
Infelizmente meu celular me chama. Olho o que ele diz em suas muitas falsas notícias, mas a verdade é que vejo os fatos:
Por subnotificação, dia 26 de junho havia no Brasil, pelo covid-19, um milhão e duzentos e setenta e quatro mil e novecentos e setenta quatro (1.274.974) casos confirmados de infectados; e cinquenta e cinco mil e novecentos e sessenta e um (55.961) mortos. Contudo, para tristeza do Boçalnato, a vacina testada no Brasil é a mais avançada contra o covid-19, diz a OMS. Porém, não é criação nossa. Junto com África do Sul somos apenas as cobaias.
Em Ipatinga (MG) no boletim epidemiológico do dia 25 de junho o número de casos confirmados era mil e quinhentos e sessenta e sete (1.567). No dia 27 de junho consta: três mil e oitocentos e oitenta e sete (3.887) casos suspeito mais mil e setecentos e quarenta e nove (1.749) casos confirmados. Em dois dias houve um aumento de cento e oitenta e duas novas infecções. Dessas, trinta casos são crianças de zero a nove anos. A maioria dos casos – quinhentos e vinte e quatro – são de pessoas entre trinta e um a quarenta anos. E pessoas com mais de sessenta anos o número de casos é de duzentos e duas. Pouco mais de mil casos foram tratados, considerados curados e voltaram para suas casas. Já o número de mortos sequer está subnotificado...
- Benito, não diga que as igrejas são empresas. – Tentando desviar-me dos fatos Naná Pedregulho, o prefeito, me fala. – Isso é blasfêmia.
- A Bíblia diz: Um pai pode vender suas filhas. O amor entre dois homens não pode; agora, se duas mulheres se amam isso não é relevante, pois na Bíblia mulher não tem importância. Pode-se assassinar, guerrear e escravizar os demais povos. O racismo está certo e é legalizado. O que não pode é pensar, refletir, protestar.
- Benito, isso é só no Antigo Testamento. – Dizem em uníssono os vereadores Adelson, Ademir, Adiel, Avelino, Cassinha, Fábio, Chiquinho, Gustavo, Rominalda, Márcia, Toninho e os ainda mais calhordas: Ley do Trânsito e Nilsin Transnil. – O Novo Testamento é só sabedoria, amor e vida. Não é capitalismo.
- Jesus se recusou a curar uma mulher por não ser do povo e raça dele. Jesus disse que os que pensam, questionam e protestam não irão ao céu, mas quem aceita tudo passivamente receberá a sua salvação.
Os dois calhordas mor contestam-me: “Mas ele se arrependeu e curou a mulher”.
- Sim, isso é certo. Parabéns, Jesus. Louvo-te por isso. Contudo, será que ele nunca encontrara outros estrangeiros nem pessoas de outras religiões antes dessa mulher? Quantas e quantas gentes ele deixou no sofrimento...
- O passado não importa. Só vale o presente.
- É do pretérito com o presente que nascerá o futuro. Nenhum mal feito jamais será desfeito. E se um dos pais é bom, mas o outro é mau como será o fruto? 

O amor está no Pq. Ipanema, diz o monumento deitado. A vida está nas árvores; mas não é o que dizem os medidores de poluição de ar por toda cidade. Não é o que mostra o comportamento do povo. Não é como agem os políticos, os soldados e os religiosos.
Mas eu escrevo e ensino. E você? Pego o livro "Epifanias", de Gabriel Miguel e caminho lendo:
... o que de fato vemos no externo,
o céu, as estrelas, o vento frio, as galáxias e os mistérios do cosmos...
é o reflexo do que o homem carrega em sem interno.


Ofereço como presente aos aniversariantes da semana:
Daniel Cristiano, Edgar Soares e a Língua Portuguesa (27/6/1214 – documento mais antigo em português).

Recomendo a leitura de:
“Ressuscita-me”, de Javier Villanueva:

CHOMSKY, Noam. Quem Manda no Mundo?. [Trad. Renato Marques]. São Paulo: Planeta, 2017.
FAGUET, Émile. A Arte de Ler. [Trad. Adriana Lisboa]. Rio de Janeiro, 2009. P. 49.
SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

Fontes dos dados do covid-19:
Brasil => Carta Capital:
Vacina no Brasil => Carta Capital:
Ipatinga => Prefeitura M. Ipatinga:

Juli Cabral traduziu para o guarani a fala de Calamantã.

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Manuscrito na manhã de 09 de maio e trabalhado em setembro de 2019 e depois entre os dias 18 e 28 de junho de 2020.

domingo, 21 de junho de 2020

DESENCAIXA


ou LUTAR, NÃO CALAR


“Es grave lo que vive nuestra tierra
y es con la cultura que entendemos su crisis”.
Arline Salazar, de Lima, Perú.

I
“Existirmos: A que se destina?”¹
Fazer da Terra uma obra-prima
Saborear arte e literatura
Fazer a vida menos dura.

Mas, criança, imaginar o Brasil altaneiro
Se nossa mente é atoleiro
O que somos é hospedeiros
De monstros verdadeiros.

II
O presidente evil
Em sua vocal flatulência
Não verá, não vê nem viu
Dos bancos, a injusta opulência.

Como o mais vil dos vampiros
Dente de alho no fiofó
– Para proteger do coronavírus –
Agora manda o presidente evil.

III
Ser
Ser branco é legal
Ser negro é ilegal
Desser

Por fim digo aos mais irritados
Quando a poeira abaixa
Algumas vezes os males antes agitados
Não mais se encaixa.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Faire (Amnon K. Oliveira), Jaydson Sousa, Salomão A. Costa, Vilma Zeferino e Feliciana Saldanha.

Recomendo a leitura de:
“Pobre, o cãozinho amarelo” e “Apagão na Estação de Metrô Calafate”, ambos de Glaussim:
O livro “Riscando Fósforo: contando para manter viva”, de Robinson Ayres Pimenta. Para adquirir seu exemplar:
“Escrita em tempos de pandemia”, de Caio Riter:

¹ VELOSO, Caetano. Cajuína. Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=nmd7Nw9KqaE . Acesso 21 Jun 2020.

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Iniciado no princípio da manhã de 09 de maio de 2019. Em seguida trabalhado de seis dias depois até 21 de junho de 2020.

domingo, 14 de junho de 2020

QUEM SOMOS NÓS



Em uma das estantes na sala Santo Antônio me olha sem que o veja.

Escrevo um sonho que tivera durante a madrugada.
Eu estava sentado na areia da praia com minha família esperando meu filho chegar. Quando ele se aproxima:
- Por que demorou tanto?
- Encontrei um coleguinha, filho do seu chefe, e ficamos brincando.
Eu falara pro meu chefe que estava com dificuldade de respirar. Ele, com medo do covid-19, mandou-me ficar em casa.
Assustado com a possível reação no escritório chamei a família e voltamos para casa pensando nas desculpas que poderia usar para os possíveis perguntar e afirmações do chefe.
Concluo que o melhor pretexto seria dizer que fora enganado por um conhecido com pouco e estudo e por não ter educação escolar adequada é automaticamente um marginal.
No dia seguinte, no escritório, o chefe o interpela.
- Tenho um conhecido que não concluiu nem o ensino médio e...
- É mesmo? Também tenho pouco estudo. Só terminei o Ensino Médio, mas não fiz curso superior. Mas o que você ia dizer?
Engulo em seco. Não mais poderia dizer que baixa escolaridade não é simetria para marginalidade. Calei-me com um sorriso amarelo ao descobrir quem eu era.
Foi nesse instante que me despertara do sonho, mas devo dizer que não fora tão coordenado assim. Ao escrevê-lo é que o coloquei os fatos em ordem lógica e compreensível. Dou uma olhada na campainha do Caralivro e vejo que há novas notificações. Vou pra uma charge ironizando o “arrebatamento”.
Ferdinando diz: “Vai brincando, depois a coisa fica pior pra quem fica, vai ler apocalipse, vai!”.
- Ferdinando, pode ter certeza de uma coisa, para onde o cristão for faço questão de ir para o outro lado. Ninguém odeia a Cristo mais do que os cristãos. Cristo é Sabedoria, Amor, Vida. Mas todo ódio e estupidez desse mundo vem dos religiosos; de toda e qualquer crença. Se não em Nome de Deus, é por aqueles que O dizem seguir. Não é por acaso que a maioria dos eleitores do Boçalnato é frequentador de fábrica de coxinha; sinônimo de igreja. É dentro dela que a ignorância é orgulhosa, o ódio é plantado, a morte – ou seja, o fim da liberdade, da individualidade, da diversidade – é praticada. Outra coisa, não sendo eu cristão não temo a Deus. Não tenho nenhuma dúvida do que João diz em sua primeira Carta. “Quem teme a Deus não é perfeito no amor, pois o temor pressupõe castigo”. Cristão odeia a Deus, mas tem medo não do apocalipse. Ah, essa palavra significa revelação; não “o fim”. O cristão tem medo é do inferno. Então fica bajulando a Cristo pensando que vão enganá-lO. Eu não temo a Deus, não temo castigo. Esforço-me o quanto posso para agradá-lO, não para bajulá-lO. Já faz tempo que não vou a uma fábrica de coxinha. Pois a ignorância me envergonha. O ódio me incomoda e a morte não me atrai.
- Eita, que nem li o testão. Rerrirrerrirrirrê. Mas li sua opção em ir para outro lado oposto do cristão isto chama livre arbítrio dado por Deus. Mas saiba que a misericórdia triunfará do Juízo. Até por que hoje, “eles não sabem o que fazem”.
- Se respondeu sem conhecimento do que Benito fala... – Girvani entra na conversa. – É justamente o que ele disse no que não leu.
- A bíblia já me disse o que preciso saber sobre arrebatamento. Leia a bíblia com o coração aberto, é assim que funciona, meus Brother.
Santo Antônio olha de soslaio para o internauta.
- Com o coração aberto e os olhos fechados? – Vinícius também entra na conversa. – O maior herói da Bíblia, Davi, era torturador, mutilador, estuprador e falso amigo. Quem é da luz não mostra sua religião, mais sim o seu amor.
- Já estudei a Bíblia a fundo e as cada leitura eu me escandalizava cada vez mais; de tanta ignorância e ódio contida na Bíblia. Como disse Vinícius, o maior herói bíblico era um lixo de pessoas. E esse é o maior exemplo bíblico.
- Mas Jesu...
- Antes que me venha falar de Jesus; ele não mero exemplo e sim a Verdade que os cristãos ignoram.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Mª Silva Bueno e Alexis Senshi.

Recomendo a leitura de:
“Quiosque do Lilau”, de António MR Martins:
“Pra que me tragas um bouquet & uma cachaça & Erodisseia”, de Vinícius Siman:

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Escrito em 04 de maio de 2019. Trabalhado em 2020, entre os dias 28 de maio e 14 de junho.

domingo, 31 de maio de 2020

BRASILEIROS PATRIOTAS DOS ESTADOS UNIDOS




Estou certa de que a senhora Bice intuiu no primeiro olhar que o que me faltava não era comida. Nos anos que passamos juntas, entretanto, ela não se ofereceu como substituta, limitou-se a me nutrir com afeto, a apreciar meu empenho nos estudos, a inventar o ritual do chá de camomila depois do jantar para me reconciliar com o sono, sempre difícil de pegar. E já era muito mais do que lhe fora pedido.

(PIETRANTONIO, 2019).

Registro aqui meu repúdio à Câmara Municipal de Ipatinga por ter aprovado uma moção de aplausos ao presidente Boçalnato. 
Registro aqui meu repúdio aos vereadores que votaram a favor desse agravo ao povo ipatinguense:
Adelson Fernandes, Ademir Cláudio, Adiel Oliveira, Avelino Cruz, Cassinha Carvalho, Fábio Pereira, Chiquinho, Gustavo Nunes, Rominalda Paula, Nilsin Transnil (autor da moção), Márcia Perozini, Toninho Felipe e Ley do Trânsito.

!Repudio, repudio, repudio! Tanto quién propone ese entuerto al pueblo de Ipatinga cuanto a los que lo aprueban se muestran las formas más bajas de vida. Se ustedes aplauden alguien tan bajo es porque se igualan… No, ¡peor! De sus puntos de vista consiguen ver como elevado un ser tan bajo.

É quarta-feira.
A sala é pequena, quadrada, quase sem divisória com a cozinha ainda menor. A primeira parede, onde fica a porta de entrada do apartamento, um estreita e comprida mesinha bagunçada. Na segunda parede, a porta para um quarto e duas estantes repletas de livros. A terceira parede tem um beliche para hospedar artistas de rua de passagem a Ipatinga. Quase não existe a quarta parede; é basicamente duas colunas separando da cozinha onde ficam dois armários baixos e coisas pertinentes a preparação de alimento e limpeza de vasilhas.
Sai de sua habitação para ir à Câmara Municipal de Ipatinga. Lá terá reunião ordinária a discutir a obrigatoriedade de informes diários sobre o covid-19; mais precisamente sobre o número de leitos clínicos e UTI’s disponíveis no município. Recebeu aprovação geral; assim o projeto terá na próxima semana a segunda sessão.
Além disso a CMI aprovou que seja destinado à APAE R$18.000,00; que o Centro Municipal Infantil entre os bairros Ideal e Esperança passe a ser chamado CEI Padre Efraim Solano Rocha, em homenagem póstuma; e também algumas moções de aplausos. Entre esses, aquele que não deve ser nomeado, o atual presidente da república, foi especialmente indicado.
- Boçalnato merece nossos aplausos pela “forma competente como o presidente tem governado o país neste momento de combate ao coronavírus e crise econômica”. – Diz o vereador do MDB, Newyes Transnew. – Nada justifica tanto essa reunião ordinária que essa moção. Moção, aliás, que converte uma reunião ordinária em a reunião extraordinária.
- Isso é um absurdo! O mundo inteiro denuncia o governo federal brasileiro pelo genocídio contra o povo e pela destruição de nossa economia. Não a essa moção. – Disseram os vereadores Sebastião Guedes e Francklin Meireles. E a vereadora Lene Teixeira completa: Meu voto é “não!” porque defendo a democracia. Meu voto é “não!” porque todas as ações do presidente tendem a matar muito mais do que promover a vida. Se a ações dele fossem o inverso do que são votaria “sim!” por essa moção; isso é democracia. Mas as ações e atitudes do presidente matam mais que a própria a doença, o covid.
- Repúdio, repúdio, repúdio. – indigna-se o protagonista deste cronto. – Tanto quem propõe esse agravo aos ipatinguenses quanto os que aprovam se mostram as formas mais baixa de vida. Se os senhores aplaudem alguém tão baixo é porque se iguala... Não, pior! De seus pontos de vista consegue ver como elevado alguém tão baixo.
À flor da pele vai para a rua. E a caminhada arrefece, mas não acaba com a ira. Depois da ira, ele já sabe, virá vontade de chorar e sono. Mas no momento ele só caminha. Em sua marcha, quase sem sua participação, as pessoas ficam sabendo da afronta de treze vereadores ipatinguense às vítimas do coronavírus em todo o Brasil e aos seus familiares. À medida que a população fica sabendo desse acintoso agravo, o povo escandaliza-se.
Cansado de perambular retorna ao lar.
Dois interlocutores estão de pé. Um em diagonal com a porta de entrada e o outro em frente à porta do quarto.
- O problema não é se suas consciências vão pesar. Mas sim a mortandade que estão espalhando. Mas tudo bem. Sei que você acredita em qualquer um, menos em mim. Tudo que falo é exagero e os demais são os expertos. Então me calo.
- Você é velho. Cada um cuida da própria vida.
- Sair de casa é destruir a vida alheia, não é cuidar da própria vida.
- Faça a sua história e esquece a dos outros.
- Não se a história dos outros afeta a minha. Destrói a dos demais. Mas vou calar-me. Sei que minhas palavras são sempre tolas ou exageradas para você.
- Nem todas. Somos dois seres com mentes diferentes.
- Sair de casa neste momento é destruir a vida alheia, não é cuidar da própria. Mas paro de falar.
- Olha! Estamos evitando te abraçar, pegar na sua mão etc. Assim com os demais, com minha irmã etc. Mas precisamos sair um pouco também. Nem que seja uma vez na semana. Se põe no meu lugar, por exemplo.
Não há resposta.
- Sei que você adora fazer caridade. E não precisa nos cobrar por isso.
Silêncio. Mas há resposta em pensamento. Caridade?!? Se falasse fraternidade poderia ser, mas caridade?!? Caridade é vaidade assim creio. Por que qualquer comentário é visto como uma cobrança? – O pensamento continua por trás da cara sem expressão.
- Mas enfim, essa discussão acaba aqui. A ignorância e o ego são seus maiores defeitos; destroem toda sua intelectualidade.

À flor da pele vê pela porta a copa redonda de um oiti e telhados e parte dos pequenos prédios das ruas Sabará, Uberlândia e Diamantina. O sol se põe e ainda não está noite. Depois da irritação surge vontade de chorar e em seguida, sono. A ambos reage indo ao quarto. Às lágrimas não se entrega, pois não chegou ao seu limite. Mal se acosta e o chamam pelo celular para discutirem sobre os treze vereadores sem noção; ou simplesmente maus.
- Por mais que doa, o momento é deles. – Afirma o microcontista Girvany de Morais. – Outra questão é até onde isso afetou o povo ipatinguense? Até que ponto o povo é vítima?
- Denuncio sempre: Esses estão vereadores por culpa do povo. Vai ter gente a dizer “mas essa moção não representa a vontade do povo” e desde já os respondo: “Primeiro, se isso fosse verdade eles não estariam lá. Segundo, eles não se sentiriam tão à vontade de serem acintosamente corruptos”.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Márcio Castro, Eder Rodrigues, Valdiene Gomes, Marcelo S. Marinho, Alcides Ramos, Robinson Farah e Adinagruber C. Lima.

Recomendo a leitura de:
“Epifanias”, de Gabriel Miguel; o exemplar pode ser adquirido:

PIETRANTONIO, Donatella di. A Retornada. [Trad. Mario Bresighello]. São Paulo: Faro Editorial, 2019. P. 136.
CÂMARA MUNICIPAL DE IPATINGA. COVID-19: Câmara aprova projeto de lei que exige informação diária sobre o número de leitos disponíveis. Disponível https://camaraipatinga.mg.gov.br/news/6202/covid-19-camara-aprova-projeto-de-lei-que-exige-informacao-diaria-sobre-o-numero-de-leitos-disponiveis.html?fbclid=IwAR0LVh0CDZMC4SmzI5MCq2lW6y1TYkPGw-skp4TzuDmZDoW9i2dSVLv1y7c . Acesso 29 Mai 2020.


Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.
É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes.
É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”.
Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”.
Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens: fotos do autor.

Escrito e trabalhado entre 28 de março e 31 de maio de 2020.