Mostrando postagens com marcador Fraternidade-Solidariedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fraternidade-Solidariedade. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de novembro de 2022

A-LUNOS SEM LUZ

Ou A VOZ DO PROFESSOR SEM VOZ


Alunos e seus

Olhos seletivos.

Conseguem ver no celular

Mas não os livros.


Jesus é outra coisa. Jesus é coisa séria.

As Igrejas de extrema direita clamam é por Zejus.


Metade de novembro e a turma encheu-se dos que ainda não alcançaram média.

_ Bom dia.

Começa a aula enfrentando, afônico, o ruído da sala.

_ O ser humano pertence a que reino? Animal, vegetal, mineral ou é uma espécie à parte?

Ninguém responde.

_ Vamos, gente! ... Somos da espécie animal...

_ Não sou animal não.

Protesta uma das faladeiras caladas para responder.

_ Então é o quê? Pedra!?! Planta!?!

_ Num sei. Mas num sô bicho.

_ A palavra animal vem de "anima" que significa energia que dá movimento a tudo que vive. Somos capazes de transformar energia em algo que nos permite continuar vivos, a reproduzir e a locomover.

_ Num importa. Num sô bicho. A Bíblia diz...

Preferindo não entrar numa discussão infrutífera continua sua aula. Mas se sente triste por um ambiente acadêmico estar infectado por "convicção, não por provas".

_ A diferença entre nossa espécie e demais seres vivos é o poder de raciocinar, filosofar e de expressar...

_ A gente num é animal não. - Teima no assunto.

_ Apesar do poder de refletir muitos preferem sequer pensar. - Calculando o rebate: CONTUDO, para nos comunicarmos foi necessário adaptar diversas partes do corpo com outras funções primárias, indo do diafragma, pouco acima do genital, até o topo do crânio. E...

_ E o que isso tem com Português?

Interrompe outro aluno e um terceiro acrescenta:

_ Não gosto quando fala contra Deus.

_ Português é comunicação e para comunicar é importante saber como produzimos palavras, ideias. Seja no nível biológico seja no nível filosófico.

Olhando a turma por dois, três segundos retoma a fala antes que no lugar de ouvirem para compreender, ouçam para responder:

_ Nunca falo contra Deus. Creio e respeito Deus. Não me importo como chamem a Grande Vida ou o Criador. Respeito sempre. O que sempre falei e falarei é contra o preconceito, contra a ignorância. Discuto sobre os religiosos cheios da presunção: "superioridade da minha crença". Critico os traficantes ou mercadores da fé. Nenhuma religião é superior a outra e todas devem ser respeitadas, mesmo se não praticadas.

E retoma, com sua afonia cada vez pior, a falar para ouvidos moucos sobre compreensão e transmissão dos discursos: o que estão me falando? como melhor expressarei minhas ideias.

_ Ah, professor! Para de falar e conte uma história como fazia antes.

Sem ter quem ouça fala para os que apenas escutam:

_ Em uma enchente, um devoto subiu no telhado de sua casa e pediu socorro a Deus. Apareceu uma canoa e o fiel a recusou dizendo "Deus vai me salvar". Veio um barco e não aceitou o socorro. "Deus vai me salvar". Surgiu uma lancha e outra vez recusou a ajuda. "Deus vai me salvar". Por fim, um helicóptero e... "Deus vai me salvar".

A enchente cobriu a casa e o homem se afogou. No Céu:

_ Por que não me salvou, Senhor?

_ Mandei quatro pessoas e você recusou todos os socorros que enviei.

Finalmente bate o sinal. Encaminha-se para a sala dos professores, mas para um instante na biblioteca escolar, escolhe um livro e observa o grafite de Rafa Mattos.

Depois, mais duas aulas antes de enfrentar o complicado, trabalhoso e ruim "diário on-line" adquirido pela prefeitura.


_____

Texto de Rubem Leite.

Foto do autor: biblioteca escolar Rubem Alves, E.M. Limoeiro, Timóteo MG.

GONTIJO, Bernardo. Por que nós somos animais. Disponível https://www.universidadedascriancas.fae.ufmg.br/perguntas/por-que-nos-somos-animais/ . 13 Nov 2022.

Pensado e escrito entre os dias 08 e 13 de novembro de 2022.

domingo, 23 de outubro de 2022

ENTÃO APENAS DIGO

_ ... Não fique preocupado, professor.

_ Não estou preocupado. Estou é estressado. Eu me incomodo muito mais com a mau que sou do que com o mau que os outros são.
Um segundo olhando-a nos olhos conta essa historinha¹:
- Jesus, você é bom.
- Sou não.
-É bom sim, Jesus.
- Só o Pai é bom.

Olha-me como se dissesse a mim: "você não pratica religião e fala de Deus". O que sei é "Deus e religião são totalmente diferentes". Nada iria dizer, mas ela acrescenta:
_ Ânimo! A gente pode mudar o mundo.
_ Queria dizer sobre o professorado: É uma missão mais que profissão, mas não nos veem nem como trabalhadores. Que temos o poder de mudar o mundo, mas somos impedidos de instruir a maioria dos estudantes. Que somos a elite intelectual da cidade, mas tem até quem vota no Boçalnato. Que somos respeitados e amados, mas só gostam de nós enquanto dizemos o que querem e não os fatos - seja comportamental ou acadêmico. - Pauso um, mas pouco efeito teve minha fala. Só digo então:
_ Peço licença.

Volto pra casa matutando:
Não compreendo o medo que se tem da morte. A vida divide as pessoas em classes ou grupos. "Viver é perigoso", segundo Riobaldo (Grande Sertão: Veredas) e já disseram Lau-Tse, Jorge L. Borges, Schopenhauer e...: A morte iguala a todos.
Em casa, sinto-me um pouco melhor, talvez em paz ao regar meu pequeno jardim, depois tomar banho, beber um drinque admirando a terra ainda molhada, o verde, o amarelo, o branco, o rosa e o vermelho das plantas. Botânico, biólogo, psi-cólogo/quiatra - algum cientista - explicaria a química. Poeta pode explicar o 'anima'. Todavia o meu sentir não explico. Sinto e partilho as sensações.
Cara gente que lê, encerro minhas palavras de hoje sentindo o que penso.
Sentado na cadeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos seguram a testa. A respiração está descompassada, o estômago a revirar e a cabeça dói. Ele é todo cansaço.
O barulho ao redor diminui e ele levanta a cabeça.
Olha para quem, na sala, ninguém mais vê. Sorrindo o compasso volta à respiração, com os braços faz um ninho para as mãos servirem de travesseiro à cabeça que não mais agoniza.
Ele segura a mão de quem sempre quis e se vão juntos.
Se fosse temer algo seria: Não temo a inexistência. Tenho medo da morte. Esta é a continuidade da tragédia da, aparente, existência. Aquela é o fim da comédia humana.


_____
Rubem Leite.

Escrito entre os dias 18 a 23 de outubro de 2022.

¹ Marcos 10,18.

Foto do autor.

domingo, 2 de outubro de 2022

HÁ DE VINGAR

 

Durante a semana que hoje começou plantarei mudas de jabuticabas, romãs e limão galego. E o céu nublado não é tristeza. É serenidade para refletir. Hoje pode ser um lindo dia se soubermos eleger. Alegria, venha!

Muito falei entre julho de 2018 a junho de 2019 o estranho horror que foi o Nazismo ter como principais apoiadores, diretos ou não, os profissionais da advocacia e os da saúde. E exatamente o mesmo ter acontecido no Brasil no primeiro quarto do século XXI.

Em 2022 se constata que aproximadamente trinta por cento da população continua com ideias fascistas; e a maioria desses nem sabe o que é isso...

Mudando de política para educação.

Semana passada, atipicamente, a diretora, a vice-diretora e uma das duas pedagogas estiveram ausentes. Duas por enfermidade e uma para reunião na Secretaria de Educação.

Aproveitando a sobrecarga:

- O que estão fazendo aí?

- Ah... Nada não professora.

- Raspa fora. - A professora observando que três alunas do nono ano estavam perto do botão de sinal de saída às onze da manhã. - Aqui não é para entrarem sem permissão.

As três então foram de sala em sala:

- Professor, a pedagoga falou para mandar a turma pra quadra.

Foi um caos.

No dia seguinte um professor necessitou voltar para casa ainda na segunda aula por ter adoecido. Não aguentou o descaso dos alunos. E estamos todos - os professores - indo para o mesmo estado.

"Sem luz" é o significado da palavra "a (não, sem) luno (luz)"

Disse acima "mudar de política para educação", mas a verdade é que tudo é política. O que é o comportamento estudantil senão o resultado político de desmonte da educação?

Do ponto de ônibus no bairro Limoeiro, em Timóteo à rodoviária em Coronel Fabriciano e de lá para o ponto de ônibus em Ipatinga muitas pessoas misturavam roupas de diversas religiões e Boçalnato. E nas ruas santinhos separavam a imundície humana, destacando-a e a encobrir a beleza das flores.

Uma das coisas mais amadas por mim é a bandeira do Brasil. O boçalnarismo deixou-me a sequela de, ao vê-la: nos dias que a labirintite me ataca, ter ânsias de vômito e nos outros dias sentir asco. Por Deus, que eu me cure e sinta a paz de seu verde e estrelas; que seu amarelo e em sua "ordem e progresso" retorne o amor.

Um dia depois, segunda-feira:

Observei que ainda sou esperançoso. Achava absurdo um terço da população ser "adepta" à ignorância e ao ódio. Mas constato que, de fato, metade da população é "viciada" no mal.

_____

Autor: Rubem Leite

Imagens: fotos do autor.

02/9/22

domingo, 24 de julho de 2022

ESTOU NU E NINGUÉM VÊ

 

Desde sempre que existe a humanidade o número de violência (não importa a forma), a quantidade de violências é semelhante à quantidade de pessoas. E hoje é tão banal quanto antes.
A diferença é que não tínhamos acesso a internete para vê-las. E hoje as pessoas podem degustá-la.
Antônio Tabet* disse "Não existe ódio maior que o amor cristão".

**

- Agora tudo é homofobia! Só porque não concordo que duas mulheres se beijam sou homofóbica?
- Sim, é! Por um motivo muito simples. Você não tem que concordar nem discordar com nada que não seja assunto seu ou que não tenha a ver com você.
- Ora essa!
- Já temos problemas demais para ficarmos atentos aos outros.
- Mas acho nojento.
- Então não beije outra mulher, uai! Essa é a única coisa que tem que fazer: cuide-se de si.
- Vamos mudar de assunto. Fico vendo os pretos dizendo que não devemos chamá-los assim.
- É. E negro nem é cor...
- Um - aponto pra mim e continuo a contagem apontando os demais -, dois, três, quatro, cinco, seis. Nenhum negro, mas seis branquelos querendo decidir como os negros devem ser tratados. Continuamos com espírito de casa grande e senzala.

E o silêncio é ferino. E a verdade é:

Qual coisa fiz ou falei que melhorou alguém? Dialoguei, escrevi, encenei peças, dou aulas. Mas o mundo não muda. A sociedade não se sacia. Minhas falam foram, são sombras na escuridão. Estou na contramão.

Quero agradecimento? Para que servem agradecimentos?
"Somos empregados inúteis. Realizamos o que tínhamos que fazer".
Não há mérito, pois fiz o que tinha que fazer e somente isso.
Se quiserem fazer-me postumamente algo então que me plantem uma sibiruna ou árvore frutífera. Cada qual tem o que cuidar em sua vida. Nada de perder seu tempo com quem quer ficar a sós e em silêncio (eu).

_____
Rubem Leite
Pensado e escrito entre os dias 16 e 24 de julho de 2022.
* Antônio Tabet é humorista, roteirista e empresário brasileiro.
** Foto tirada da internete. Marcha pra Jesus no Espírito Santo, ano 2022.

domingo, 17 de julho de 2022

RATANABÁ


Iria-me embora para Ratanabá

Porque aqui sou inimigo do rei

- um boçal sem igual -

Lá teria quem eu quisesse

Na casa que escolhesse

Mas como não é Brasil

Quem escolheria

Tinha que escolher-me também.

A verdade, porém,

Lá e cá

Reciprocidade é rara.


Em Ratanabá

Teria a felicidade que aqui não há

A existência seria aventura

Mas desventura está nos dois lugares

Quem crê é inconsequente

Paz só tem os dementes.


Em Ratanabá teria tudo

Seria outra civilização

Menos antiga que a Terra

Mais antiga que a humanidade


E quando eu estivesse mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite tivesse

Vontade de me matar

Não me esqueceria

Sou inimigo do rei

- o boçal sem igual -

Tal qual aqui não teria

Quem eu queira

Quem me queira


Ratanabá não existe

Como não existe

Cérebro funcional

Na cabeça do rei:

Messias sem milagre

A zombar de quem não respira

A comemorar CPF cancelado

Principalmente dos bem mais velhos

E cujo filhos

- Todos zero

01, 02, 03, 04

E, para o rei boçal,

A menos que zero

A 05 -

Todos educados

A não se casarem

Com negros

A tirar até o último centímetro

Dos povos originários

A surrar

Os meios 'gayzinhos'


Ratanabá não existe

Tal qual Brasil pra toda gente.



Só me consola

Ter aos meus

Olhos, ouvidos, narinas, língua e pele

A fauna, os livros e a flora.

E não preciso fugir pra Ratanabá.


_____

Rubem Leite

O que sinto e penso não sei a quanto tempo escrevi na manhã de 17/7/2022.

Foto do autor.

sábado, 18 de junho de 2022

Inspirado no conto Uma Vela para Dario, de Dalton Trevisan

Por que é que quem te escravizou te deu uma Bíblia. Pensa, pensa.


Em Ipatinga, um elegante e maduro senhor começa a tossir, põe a mão direita sobre o coração, com a esquerda se apoia na parede de uma das lojas na avenida 28 de Abril e lentamente vai escorrendo-se até o chão.

Um jovem com dread nos cabelos o socorre, grita por ajuda. Como ninguém aparece o rapaz vai embora com o coração apertado e a pensar no corte no cabelo que será obrigado a fazer ao entrar pra polícia. O homem não percebe a ausência do celular.

Uma garota se aproxima para ajudar, abre-lhe a camisa para ele poder respirar enquanto os transeuntes passam. E a jovem se junta condoída à massa, pois tem que levar os documentos para registrar seu nome como candidata a vereadora. O homem não percebe a ausência do cordão de ouro.

Uma velhinha de Bíblia na mão vai até ele. Em seu desespero abre a carteira para ver o nome do homem e grita: "u hômi sichama Girvany. Alguém u cunhéci?" E atravessa a avenida a perguntar as pessoas se conhecem o caído. "Ó glória" exclama a cada negativa. O homem não percebe a ausência dos R$500,00 que estava na carteira.

- Gente! A mulher gritou "Girvany"? Eu o conheço. É meu amigo; um irmão.

O amigo se aproxima. "Girvany do céu. Que te aconteceu? Pega seu celular e chama o samu. Quando este chega acompanha o irmão até o UPA. Lá os médicos socorrem o homem, mas chegam tarde. Ninguém percebe o amigo indo embora com a bolsa cheia de livros do falecido. Só se ouve o choro de quem se vai: ooorrorrorrorrórróóó.


_____

Rubem Leite.

domingo, 5 de junho de 2022

ABÓBODA FLORAL

 Foi por aqui que passou para chegar.


Antes de sair via o que vivia.

O governo federal incapacitado, o judiciário submisso. O governo mineiro entrando na justiça para não pagar os professores e o judiciário, submisso. Os municípios de Ipatinga e  Timóteo negando aumentar o salário dos educadores. E este último eliminando dos ônibus os cobradores para dar aos motoristas múltiplas funções: conduzir, guiar quem entra, cobrar a passagem, ver quem sai...

O que a gente é diante do capital?

O que é gente diante do capital?

Em nossas intimidades, pelejas, muitas pelejas.

- Boa tarde, professor!

No supermercado do Limoeiro lhe diz um imenso sorriso que muito o prejudicou. Pego de surpresa não soube reagir e só devolveu o cumprimento.

Nas salas de aula, alunos, mas não estudantes.

- "A, e, o" sempre são vogais, mas "i, u" podem ser vogais ou semivogais. Semivogal é quando sua pronúncia é mais fraca. E duas vogais nunca podem estar na mesma sílaba. Para estarem na mesma sílaba tem que ser vogal e semivogal ou o contrário; formando assim ditongo. Hiato é quando "u, i" tem a força de vogais mesmo estando ao lado de outra vogal, mas em sílabas diferentes.

- Como assim, professor?

- Vejamos os exemplos: "saí e sai", "saúde e saudade". Leiam pausadamente essas palavras, prestando atenção nas pronúncias.

- Sa-í / sai /|\ sa-ú-de / sau-da-de".

- Viram que em "saí e saúde" tanto "a" quanto "í" assim como "a" e "ú" foram pronunciadas separadamente?

- Siiim.

- Pois é. Ocorreram hiatos. Quer dizer, todas elas têm força de vogais. Mas em "sai e saudade" foram pronunciadas juntas, mas o dois "a" foram ditas com bem mais força que "i, u"; isso significa que se tornaram semivogais. Ocorrendo, assim, ditongos. Consegui explicar?

- Siiiim, professor.

Passou os próximos dias fazendo perguntas e dando exercícios sobre os encontros vocálicos e eles quase sempre acertando para errarem na prova que, diga-se de passagem, foi muito fácil. Erraram mais por terem pouco ânimo de interpretar os enunciados.

Em casa, ouve as brigas dos vizinhos da frente e as dos vizinhos de trás.

Em casa, pelejas. Seu filho sempre recusando tomar seus medicamentos, bebendo bastante e até a cheirar Paracetamol desfeito a pó.

Em casa, gritos na frente, dentro e atrás. Gritos, gritos e gritos.

E foi assim que atravessou:

Abriu a válvula do botijão, girou o botão da trempe, disfarçou o cheiro espalhando inseticida no ar e saiu deixando o pai professor deitado no sofá, bem perto da cozinha.


_____

Rubem Leite

Foto do autor.

Escrito entre 01 e 05 de junho de 2022.

domingo, 29 de maio de 2022

UM AO LADO DOS DEMAIS

 

  

Solo soy una mariposa en el capullo pero solo ven el capullo.

O vento toca árvores e sua melodia é como o beira-mar ou a chuva. Nesse embalo leio duas preces e de cada uma fica uma oração que me poetiza.

 

“Deus abrange o meu ser”*

Olho pro Sol, pra Lua, Flores

Sinto-me a mim tecer

Vejo gente, tantos indecentes

E tantos socioindigentes

Chego a esmorecer

Todavia ainda há livros

 

“Tenho alma destemida”*

Mesmo sendo gente

Minh’alma não é empedernida

Apesar dos seres humanos

Difícil manter cabeça erguida

Força tenho nos livros e bichos

 

Tento sorrir; compartir meus pensamentos. Ainda não sei ser silêncio onde não querem diálogo. Conversam para ouvirresponder, não para compreender.

- E tem um livro muito interessante e importante para ler: a Bíblia. Experimente; você não vai se arrepender. É um manual de vida.

- Li a Bíblia por vinte anos; algo em torno de sete estudos: três anos para completar cada estudo...

- É ler ao longo da vida, tentar implementar em nossas vidas, refletir a Bíblia. E, acima de tudo, ler, orar e esperar a resposta de Deus todos os dias. Volto a repetir: é nosso manual de vida.

Não respondo. Melhor conversar com os bichos e livros, mas penso: A diferença entre religião e ciência: Esta reconhece quando erra e por isso aprende. Enquanto a religião apenas aprende a dar desculpas melhores. Ciência não é crença. Ciência é o conhecimento adquirido através de pesquisa metodológica. Crença não vem de pesquisa nem de método.

Melhor calar.

Não sei se é uma fase ou se será permanente; talvez só um período, não sei. Mas estou fazendo as coisas; o que posso, o que aguento e quase o que quero. Faço para o nós.

Se me agradecem ou retribuem fico próximo a contente; não supervaloro. Se não me agradecem ou, digamos, me incomodam fico próximo a triste; não supervaloro.

Aprendi tempos atrás que os que nos elogiam hoje quase sempre, quase todos são os que nos abandonam ou jogam pedras.

Solo soy un colibrí apagando fuego. Una mariposa en el capullo.

 

 

Rubem leite.

* Sutra em Trinta Capítulos para Leitura Diário; Seicho-No-Ie.

Imagem do autor.

Escrito entre 16 e 29 de maio de 2022.

domingo, 15 de maio de 2022

FORA DO CAMPO DE FLORES AMARELAS

Van Gogh e seu campo de girassóis

Eu e meu morro de flores amarelas

Não vejo coisas invisíveis

Vejo a realidade que corrói

Com livros combato as esparrelas. 

O quanto e quanto já foi dito "amanhece, entardece e anoitece; janeiro, fevereiro ... novembro e dezembro; tempo de chuva com calor e tempo de seca com frio; tudo que é vivo morre".

Tudo repetindo.

Nada, surgimento, vida, morte, ressurgimento, vida, morte, ressurreição...

O rio corre entre a terra até chegar a outro rio ou ao mar. A terra se move entre os oceanos.

- E o que tem isso, meu Deus?!?

- Tem que numa mesa cinco discutem se o correto é dizer negro, preto ou moreninho. E todos os cinco são bem branquinhos. É outra vez o eurobrasileiro querendo definir a sorte do afrobrasileiro.

Silêncio para olhar nos olhos.

- Tem que outra vida é corrompida pelo desafeto familiar, pelo desinteresse político-social até ser interrompida pelo traficante ou policial.

Olhos nos olhos silenciosos.

- Tem que ao dizer "Umbanda, Candomblé, Macumba, orixás" ainda se ouve "credo; tá queimado, sangue de Jesus tem poder... são do diabo, são demônios". E quando perguntados se já assistiram alguma cerimônia ou leram suas doutrinas negam. Alguns afirmam que sim, conhecem ou viram. E quando se questiona como são as cerimônias e o que dizem suas doutrinas se calam ou respondem mentiras. Tal qual boçalnarianos "e o Lula, hem?!?".

- Ééé. A Terra não é plana, mas o mundo é chato.

- Enquanto gira o planeta e circula o cotidiano a gente lê, bebe, escreve, dorme, trepa, trabalha, canta, dança, encena, pinta.

- Desses, muitos tecnisam e vegetam.

- E desses, poucos artistam em protestos:

Uma boca morta abre centímetro a centímetro.

É o globalismo capitalista investindo.

Diverte-se o pobre com sua tranqueira nova.

Ignorante ignorado caminha centímetro a centímetro para sua cova.


_____

Rubem Leite

Foto do autor: vista da janela da cozinha.

Escrito entre 12 e 15 de maio de 2022.

domingo, 8 de maio de 2022

OBSERVÂNCIAS

 "Última flor do lácio, inculta e bela [...] Amo-te, ó rude e doloroso idioma [...] Em que da voz materna ouvi: Meu filho".

(Língua Portuguesa, de Olavo Bilac).


Aos onze anos, na antevéspera do Dia das Mães, uma das estudantes chora. Não tem para quem escrever um cartão.

Sem saber o que fazer, em separado, improvisa uma conversa:

- Você acredita que a pessoa continua viva após a morte do corpo? Como alma...

- Não.

- Penso parecido. Tem hora que acredito, mas duvido em outra. Então decidi esperar o dia de minha morte para saber... Mas enquanto isso, no Dia das Mães e no Dia dos Pais falo para eles, lá no meu quarto o que gostaria de dizer-lhes. O pior que pode acontecer é nada acontecer. Mas se tiverem "vivos" falei com eles.

- O que devo fazer?

- Que tal fazer um lindo cartão; escrever tudo o que sente e domingo, assim que acordar, ler o cartão para sua mãe!?!

E o cartão foi feito com esmero.

Em casa no sábado um amigo diz:

- Tive vontade de ir na casa de minha mãe. Mas me machucou muito... É. Ela já me ajudou muito, mas também me agrediu demais. E como ela não me aceita como sou... Não vou não.

- Também não irei até minha mãe...

- Claro. Ela já morreu.

E riram. O professor com tristeza e o amigo parecendo refletir.

- Na próxima semana terei que ir perto da casa dela então passarei lá.

Domingo, na casa em frente.

- Vai tomar no cu, peste. Faz tudo errado.

Grita a mãe pra filha de quatro anos.





Em sua varanda o professor fica de cócoras, toma café com leite e observa seu jardim. Junto-me a ele e admiramos a folhagem, as flores, as aranhas em suas teias, as borboletas e beija-flores.

É no silêncio que a gente ouve. É no parar que pensamos.

Olhamos a outrora flor branca caída no chão; avançou seu processo de arrosear-se. Isso em seu de fenecer antecipado. Quem sabe se seu filosófico significado um dia, imóvel e calado, talvez possamos ver.


_____

Rubem Leite.

Fotos do autor.


Vivido e pensado nos dias 05 a 07 de maio de 2022 e trabalhado na manhã do dia seguinte.

domingo, 17 de abril de 2022

LECIONAR E ESCREVER ATÉ RESSUSCITAR

O muito mais novo dos irmãos era o mais velho em desânimo. Descia a rua para comprar frutas; passos lentos.

Num cruzamento percebeu indistinto um homem empurrando uma bicicleta e acompanhado de perto por um menino.

Ouviu, do outro lado do cruzamento, a voz de uma mãe:

- Pare na esquina, olha bem pros dois lados e só atravesse se não vier carro.

O pai falou baixo, só pro filho, mas alcançou o caminhante:

- Num para não e nem olhe. Cê tá comigo e tôti cuidano.

O zelo da mulher não confiou no marido. O orgulho do marido desensinou o garotinho.

O dramático dessa história não é que tenha acontecido algum acidente à criança (que bom).

O drama é as picuinhas que mantemos a todo custo, a deformação do filho e o peso no caminhante de mais uma descrença na humanidade.

Ainda caminhando até o mercado paro um instante na rua Peroba em frente a uma casa de lindas flores visível acima do muro.

- Vou te contar umas coisas...

- Huuum. --- Minha bela visão é interrompida por algum amigo.

- Vejo muita gente rindo de você, falando mal de você, aproveitando de você.

- Sei...

- E... Não faz nada?!?

- Alguma dessas pessoas me importa? Gosta de mim? Obrigado! Não gosta? Que bom; não terei que me relacionar com elas.

- Mas... Você está sendo trouxa, bobo.

- Não me incomodando, deixando-me em paz... Está bom para mim.

- Isso não te incomoda?

- O que me incomoda é não está olhando meu jardim, lendo um livro e tomando um vinho com meus cachorrinhos e gatinhos por perto. É isto que está ótimo para mim.

- É que...

- Desculpa. Mas quero comprar umas frutas para poder voltar a minha casa para brincar com meus bichinhos, ler, ver as flores e tomar um vinhozinho. Com licença.

Na minha lentidão, tão doce lentidão a permitir-me ver o que só olhava, continuo tão pequena jornada a mostrar-me grandes coisas. Mesmo não sendo todas boas.

- Oi, professor!

Três de meus estudantes me param e sorrio tranquilo para cada um deles.

- Vai ganhar muitos ovos amanhã?

Fala o do meio e o a sua direita diz:

- Ontem foi um dia triste.

- Mais triste foi o Domingo de Ramos... --- Replico.

- Por quê? --- Pergunta o da esquerda.

- Numa mesma semana a imaturidade humana é mostrada em toda sua ingratidão e servidão aos poderosos. Domingo passado conclamaram "Bendito o que vem em Nome do Senhor"; repetindo o que foi bradado dois mil anos atrás e ontem gritaram "morra, Jesus".

- Mas professor... Ninguém fez isso.

- Fazem isso várias vezes ao dia. Com negros, mulheres, LGBTQI+, pobres, doentes, presos, gordos, magros...

- Mas... Não é a mesma coisa.

- Sim, é. Ele disse que fazer isso aos pequenos é agressão a Ele, pois cada pessoa é seu templo.

O da direita nos diz:

Li que Jesus não morreu por nossos pecados, para nossa santificação. Ele não veio para nos separar do mundo. Cristo veio para ensinar que o mundo (a natureza) e a humanidade são um.

Concordo. Contente por ele está abrindo sua cabeça. O do meio continua:

- Jesus morreu porque lutou contra a direita, contra política, religião, economia que sufoca o povo; onde poucos ficam com muitos e muitos ficam com poucos.

Outro aprendiz de pensante. Gosto disso. E o terceiro acrescenta:

- Domingo será uma festa falsa, pois ainda hoje Jesus é caluniado, blasfemado, preso, torturado e morto. Não por "nossos pecados", mas porque ainda preferimos louvar os poderes no lugar de lutar com Cristo.

Não sorrio porque a Verdade não é disso. É a ilusão a nossa embriaguez. Mas me sinto bem pelos três cérebros funcionais.

A gente se despede e em silêncio cada qual caminha. Eu me aproximo do mercado, compro e volto para casa. Leio um pouco, bebo vinho e preparo um simples almoço pascal sem deixar de ver:

No centro, o morto político (Jesus); de um lado, a ciência (perguntas, dúvidas, pesquisas, estudos, conhecimento); do outro lado, vinho para comemorar cada vitória de quem luta ou sangue dos que morrem por culpa de quem cruza os braços à espera das benesses que os milhões de Cristo conquistaram para todos.

Cérebros não têm paz. Chega do nada a mãe de um dos garotos. E sua voz ébria de ilusão:

- Está escrito na Palavra, a Bíblia. Jesus morreu por nós, nossos pecados e para dar pra gente a vida eterna. Pois o que conta é nossa alma. Sarar, salvar, santificar.

Dos gritos e ofensas que me disse não há necessidade de mostrar. Já sabem ou imaginam. Respondo à mãe:

- Não há discórdia entre nossas ideias. Falei da razão histórica, não teológica. Teologia deixo para os sábios dos templos, uns são cristãos realmente; e até para seus mercantes largo-lhes as palavras. Quando luto é com meu cérebro escudado por livros e empunhando caneta.

Paro a conversa para tomarmos um café com bolo e só depois continuo:

- O Jesus histórico morreu por lutar pelo Povo; pela igualdade, dignidade, verdade e esta é ciência, não mito. E até hoje todos os verdadeiros seguidores d'Ele são mortos.

A mãe se vai. Leio um pouco mais e durmo.

Amanheceu um lindo dia nublado. Permitindo-me ver as flores em suas cores naturais, resis.

É o primeiro Domingo de Páscoa. Dia de pensar nas ações a realizar enquanto professor e escritor.

Cristo há de ressuscitar.


_____

Rubem Leite

Fotos do autor.

Escrito no correr da semana passada e hoje (17/4/22) trabalhado.

domingo, 13 de março de 2022

SORRIR PELA PARTIDA DE UM FRÁGIL A MIM FERE

Mais uma manhã. Um domingo a mais. Acocorado olho os dois que estão perto, mas vejo o jardim. O que eu queria é estar só comigo, meus bichos, jardim e livros. Fala algo sem importância e como não ouço, digo:

- Dos dias eu gosto e também das aves e árvores. É fora do natural que me machuco fácil e nem sempre em minha pele. Por isso temo não aguentar as tempestades. Mas se Lula e Dilma aguentam, se Robinson Ayres e Maura Gerbi aguentam...
- O que tem isso?
- Tem muitas coisas. Uma pequena importante é a discussão que não acaba nunca...
- A aluna veste bermuda de homem. Vem toda masculinizada pra escola.
- Uai! O que você tem com isso? A pessoa veste a roupa que quer.
- Não concordo!
- E você tem concordar com alguma coisa? Só tem que cuidar de sua vida.
- Tem crianças na escola. Elas não têm que ver isso.
- Tem que ver sim. As diferenças existem e têm que ser respeitadas.
- Não podem ver duas garotas se beijando.
- Não tem que ver nem garoto e garota se beijando.
- Pois é, Benito. Não pode ter namoro na escola.
Não pode. Não pode. Não pode... - Ecoa.
- Isso é a ação de quem não tem razão. Estávamos falando de roupa; como não tem argumento, do nada muda de assunto. Numa tentativa de invalidar o argumento do outro.


Olhando a luz do Sol atravessando o compacto de nuvens audivelmente meditei:
Queremos ser amados por quem amamos. Ninguém quer ser amado por quem não ama. Acredito ser um bem-aventurado, pois muitos que amo igualmente me amam.
Amorosamente me pica:
- Sinceramente não me preocupo mais com isso. Preocupo em ser uma pessoa ética. Ser, na medida do possível, bom e generoso. Não passando dos limites e indo até onde não me prejudique ser solidário.
- É, ética é importante.
- É importante que gostem de verdade.
- Não existe gostar de acordo com as ocasiões.
Levanto-me e entro na casa. Amanhã terei trabalho, mas até lá vou ficar com meus pensamentos.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

FESTIVAL DA CARNE MAIS BARATA DO MERCADO

 

 

Não inspiro ninguém a nada.

As que me olham

As que me ouvem

Não me veem, não me escutam

Não existo, não insisto.

 

Carnaval está aí

Um dia só não basta

Tem que ser quatro ou quarenta.

E disse o presidente:

Preto é besta

Útil pra carga

Tudo aguenta

E tá ok isso aí.

 

Preto é pobre

Branco é nobre

Bicha é porre

Hétero é cobre

Hétero branco é prata

Hétero branco rico é ouro.

Quem pensa

Essa triste verdade descobre.

 

Enquanto isso

Os últimos raios de sol no céu foram um obséquio prateado e cinza.

Num plácido doce dia

O som de algo pesado batendo nas telhas conduziu meus olhos ao telhado.

Nada vi além do esperado teto.

– Por alguns segundos. –

Um macuco pousara no telhado

E do seu pescoço preto um par de pele vermelha

Balançava.

Ao me ver observando-o, retrocedeu

Afastou-se a esconder-se de meus olhos.

Isso umas quatro vezes.

Para o sossego do pássaro disfarcei meus olhares.

Vigiou-me um tempo e não sentido perigo voou para a mangueira em frente.

Talvez para dormir em seu ninho.

Talvez a esperar seu par.

O céu e o sol, a ave e a árvore formaram a visão de minha vida.

 

Cada um dá o que tem.

Quem não tem nada

Não vale nem centavo nem vintém.

E você nada vale

Destrutivo como a Vale

Gasta mil reais em livros

Se passa por santarrão

Fingindo-se nosso irmão.

– Diz-me quem me busca

Para pedir ou agredir.

Nada respondo

Tudo penso –

Mil reais em livros

Ou quinhentos em crack.

Nos primeiros invisto

Ao contrário de ti

Que no segundo gasta.

 

Que importa.

Quem se importa.

 

Sou bobo.

Descobri faz tempo e empiricamente o quanto sou tolo.

O que não sei ainda é se o bobo descrito por Leon Tolstói e Clarice Lispector.

Ou se sou apenas um vulgar tolo.

 

Chega! Cansei de falar.

Ouça-me

Quem quiser

Se quiser.

Pense

Quem quiser

Quem puder.

 

 


 

Gin, amêndoas, uva passas, pimenta Jamaica e água tônica

Bebo

E o que vejo?

Na escola nenhum professor negro.

Não tem problema

É carnaval.

Depois tem mais futebol.

Por fim adeus,

Livraria Ouvidor.

 

 

De Rubem Leite

 

Dia 26 de fevereiro de 22 a Livraria Ouvidor, em BH, abriu suas portas pela última vez em cinquenta e dois anos.

 

Começado a escrever em 30 de dezembro de 2021 e encerrado em 27 de fevereiro de 2022.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A IGNORÂNCIA É BEM HUMORADA

 

 

Pedro atirava borracha escolar nos cabelos de Máximo porque achava engraçado o quique da borracha nos cabelos do negro.

Pedro ria sem ver sua maldade. O negro ria escondendo sua dor no mundo onde são, na melhor da “hipotecrisias” piadas.

Mariano ajudava na missa e depois ia à casa do padre estudar. Este bem sorria na chegada e na saída do coroinha.

Religiões são boas para nos levar ao bom caminho... Não há mais o que saber.

Rodolfo era o filho malquisto, o aluno malquisto, o colega malquisto. Todos riam de sua “inocente burrice”.

A professora Helen Keller via mal o garoto; a princípio. Mas mudou a estratégia. Não mais via nem ouvia os malfeitos.

Rodolfo desenhava e representava em imagens o conteúdo aprendido em Português. Ó! Tão banal... pior, clichê dizer isso. Mas com auxílio das pedagogas os demais professores aceitaram as ilustrações como demonstrativo de conhecimento.

 

Com o tempo, já adultos.

Pedro, de “família boa” se tornou advogado e preto Máximo, “Puliça”.

Mariano se tornou neurótico e o padre aposentou-se tranquilo.

Sem a pressão escolar – mesmo que ainda a familiar – Rodolfo logrou a ler, escrever, expressar e compreender. É artista; não rico, mas vive bem de seu trabalho.

 

Pedro e sua família, a família de Mariano e o padre não eram ignorantes; eram imbecis; eram maus. Assim como era má a família de Rodolfo.

Máximo, Mariano e Rodolfo não tinham liberdade de escolhas assim como ninguém – bom ou mau, intelectual ou analfabeto – possui real livre arbítrio; essa linda fantasia que amansa a insatisfação de ter que aceitar a religião que lhe impuseram, a educação do lar em que caiu, a variação linguística de sua comunidade, a comida que lhe dão, as roupas que lhe deixam vestir, os cabelos, o estudo, o trabalho que conseguir e raramente quis.

Ignorância tem cura. Ignorar é desconhecer. Basta estudar, ler, dialogar para saber.

Rodolfo se curou.

E Pedro, Máximo, Mariano, o padre, famílias... Há cura?

Imbecilidade e maldades não têm cura. Há tratamento: tirar-lhe a voz. Liberdade de expressão não é dizer o que quer, fira a quem for.

Minha liberdade termina quando começa a do outro. - Mais um tão conhecido dito a me fazer pensar que se desconhece o que (acha) conhecer.

 

 

Pensado detalhadamente nas últimas duas semanas e escrito em 13 de fevereiro de 2022.

Imagem: https://luizmuller.com/2019/08/14/charges-em-jornais-pelo-mundo-mostram-imagem-do-brasil-se-deteriorando-rapidamente/

domingo, 6 de fevereiro de 2022

ESTA NÃO É A ÚLTIMA CARTA


Queria que fosse a derradeira, mas estou preso.

Não a você, mas a outro e a única escapatória seria abandoná-lo a uma "casa de repouso"; ou à minha minha irmã já muito mais cansada que eu, apesar de sua força; ou ao outro irmão que o empurraria a uma casa de repouso.

Mas ele não merece tal fim. Não ele.


É tudo tão tedioso como se vê em trechos do capítulo 01 de Eclesiastes.

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.

Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.

O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode calcular.

Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor.


Ah, como queria escrever a minha última carta porque:

É morto um congolês por cobrar seu "salário" (R$200,00) atrasado.

Pastor/ministro diz que as "causas" de existirem gays são famílias desajustadas e por não terem "experimentado" mulher. Então cálculo que se é hétero por ter experimentado homem.

Mulher é agredida e crer que isso é normal.


Nasce o sol. As vezes a manhã é colorida, outras são prateadas (e prefiro prata ao ouro), outras são chuvosas e em algumas manhãs de chuvas nos enriquecemos com "Corpos: poemas":



"O que foi isso é o que há de ser". "Quem aumenta em sabedoria aumenta em dor".


As cartas que escrevi, quantos leram? Quantos a analisaram? Quantos a reenviaram a outros?

Aos que leram, obrigado. Aos que refletiram, muito obrigado.

Aos que reenviaram nada digo porque não o fizeram.


Escola:

Religião a ensinar: é verdade uma mulher conversava com cobra.

esquizofrenia.

Um super-herói com seus poderes no cabelo. Cortaram suas melenas e venceram os vilões. Como se o contrário acontecesse fora dos filmes.

Fantasia.

Uma virgem teve um caso com um velho Deus, uma pomba e um homem. Quem é o pai da criança?

BLASFÊMIA, me gritam.

Muçulmanos são terroristas, mas esqueçam as desgraceiras que fizemos a eles, na América, África e onde mais puseram seus podres pés

Judeus mataram o menino, já crescido, filho de muitos pais.

Ainda na escola:

Português, Matemática, História, Geografia, Ciência...

Tantas preparações, tantos esforços, tanta dedicação.

E vacina não é eficaz, a Terra é plana, a escravatura é culpa dos africanos, 7x7=77, verbos são pracinhas, quase, um...


Queria que fosse minha última carta.

Mas Boçalnato está aí e quem assumir a próxima gestão não sei se encontrará solução.



Tenho outras cartas a escrever.

Para quê? Para não ser mais um morto-vivo.

Para quê? Por ainda estar vivo buscando um porquê.


Enquanto ainda vivo:

Germino na lama, cresço à sombra que me impõem quem denuncio, ofereço minhas poucas folhas, dou minhas frutas sem doce com a esperança quem alguém plante suas sementes para germinar boa árvore de bons atributos.


Sou uma árvore.

Tem momentos que sou ipê, há instantes que sou sibiruna.

Hoje sou uma goiabeira.

Tronco rude, folhas não delicadas, doces frutos - sei que haverá quem dirá "frutas bichentas" e algumas vezes será verdade.

Hoje sou um pé de goiaba, ainda pequeno, mas já preparando frutas para quem quiser.


Muitos me atirarão pedras ou darão pauladas e despreocupados com minhas feridas comerão deliciosamente meus frutos ou jogarão toda a parte boa por causa de um bicho.

Mas goiabeira, ipê, sibiruna sou árvore e escrevo não a minha última carta.


_____

Rubem Leite

Imagens:

Livro e poema de Gorette de Freitas;

Goiabeira: foto do autor.

domingo, 16 de janeiro de 2022

PERSONAGENS E PESSOAS

Li, não me recordo de qual autor, algo como "pessoas que escreveram livros: Napoleão Bonaparte, Carlos Drummond de Andrade, Darwin e outros. Pessoas que não escreveram livros: os soldados de Napoleão, a cozinheira de Drummond, os acompanhantes de Darwin e tantos outros". Não foi exatamente isso que disse, mas essa é a ideia.

Pelo meio de janeiro do ano passado, mais ou menos nessa ocasião, comprei dois pés de antúrio e os coloquei num só vaso. Isso para "plantar" o umbigo de uma criança que estava para chegar.

"Plantar o umbigo" junto a raiz de uma planta dá boa sorte na vida do recém-nascido diz a crença, ou a superstição ou a sabedoria popular; como queira pensar.

Sete meses depois do nascimento me mudei de Ipatinga para Timóteo. E antúrios não gostam de mudança; preferem o sossego; o que os abalou. E poucas semanas depois, pra piorar, o vaso caiu.

Quase morreram as plantas. As folhas ficaram muito lastimadas e se quebraram quase todas. Uma até acho que morreu mesmo. Pelo menos até agora não deu sinal de vida... Mas a outra, assim como a irmã, ficou com duas ou três folhas. Porém esta vigorou. Pouco a pouco; numa convalescença de meses.

Uma folha morreu, outra também e a terceira está até hoje. Com cicatrizes, mas deu força para que nascessem outras folhas. Mais bonitas que a ferida.

Folhas bonitas e personagens históricos, literários.

Folhas machucadas e pessoas anônimas.

Livros, músicas contam histórias, mas não valem a vida de qualquer pessoa. Canta Elis Regina.

Mas sem arte a vida nada ou pouco vale.

A folha ferida não escreveu nem cantou. E foi ela que às outras desencantou para que servissem de registro. Inspirar para não expirar.

Quem a olha o que vê? Se é que a vê.

Ah, personagem, o destino te leva pra cima e fica a espera assistindo a queda que te deixará - igual as demais pessoas - na horizontal e com terra por cima. Canta Dolores Duram.

Será que a gente um dia aprenderá que ninguém é especial?

Somos tudo coisa em outra coisa rotando e trasladando ao redor de outra coisa num cantinho lá nos fundos de outra coisa a rodar com milhares ou milhões de outras iguais numa coisa que talvez seja apenas uma entre outras coisas...



Rubem Leite

Por semanas, a pensar nisso,  a ler livros, a conversar com inteligentes, reparou no antúrio e dois, três dias depois - 16/01/2022 - escreveu o que, por enquanto e só por agora, concluiu. Ainda não estou pronto. Só não sei quando vou acabar. Mas até lá continue lendo o que publico, indique a outros. E não parem depois.

domingo, 2 de janeiro de 2022

POR UM FIO

 


Sono.

Fecho os olhos.

Vejo um lugar em penumbra. Teias de aranha em muitos cantos.

Em cada uma há alguém.

Um rapaz está trêmulo de ansiedade, de pavor, de desejo.

Uma grande aranha, muito maior que o jovem, com seu modo assustador anda pelo lugar, sobe na teia.

Ele teme, mas o desejo é maior.

A aranha pica o moço.

Este sorri e se agita. Desprende-se da teia, exceto por um fio.

Vê o universo e outras maravilhas.

Tempos depois – apavorado, desesperado, ansiando, desejando – volta para seu lugar na teia e se prende à espera da próxima aranha a picá-lo.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagem: Aranha – foto do autor de um artesanato ganho alguns anos atrás de um mochileiro.


Não registrei a data de escrita.

domingo, 3 de outubro de 2021

O HINO É INOCENTE, MAS NÃO A GENTE

  

Árvores choram flores!

Abrigamos pássaros

É quando estes voam

Que nos florescemos.

 


- Gosto de entoar o Hino Nacional. Creio poder ser bom nas escolas, nas empresas, nos lares.

- Quanta bobagem. Cantei o Hino quando criança, meus pais cantaram e meus avós também. E essas três gerações, assim como a atual, não deixaram de ser corruptas.

- Creio que ele – o Hino Nacional –, quase como os livros, podem mudar as pessoas para mudarmos o mundo.

- É?!? Estas quatro gerações pouco tiveram de bom. Ignorantes, corruptas, preconceituosas...

- Mas a Arte, a Literatura, o Hino Nacional não podem obrigar a pessoa a ser sábia, amorosa, vívida, vivificante, harmoniosa, solidária, forte, corajosa. Não podem! O que podem é mostrar o bom caminho. Cabe a pessoa seguir; ou não...

- Veja o veio da Havan. Diz ele que a esposa lhe encorajou: “Vão atacar sua honra, mas a verdade está com você, pois só fez bem ao Brasil e aos brasileiros” e o dito cujo repetiu com toda tranquilidade. Realmente não consigo entender a ‘cara de pau’ e falta de decoro dessas e outras pessoas.

- Não há como discordar de sua indignação. Igualmente sofro. O que faço é

Tapete de sibipiruna

Alimenta o dia

Não, espero, para disputa

Mas para coragem e, desejo,

                                   Alegria.


 

Minha casa é lar

Lar é lugar

Não de alugar

Vitória espezinhando

É vitória a si

E solidarizando.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens: fotos do autor – A primeira é vista da janela do meu quarto e a segunda é em uma das ruas do bairro Primavera. Todas em Timóteo MG.

 

Escrito entre 29 de setembro e 03 de outubro de 2021.

domingo, 19 de setembro de 2021

TERCEIRO DOMINGO DO SETEMBRO AMARELO

 

“Deus está cansado de ouvir. Quem te ouviu foi o diabo e te abençoou lá no inferno”.

(Mia Couto, em Padre Novo. Do livro O Fio das Missangas). 


Na semana do segundo domingo do setembro amarelo observei e senti muitas coisas e transcrevo algumas no terceiro domingo.

 

Uma é como diz minha sobrinha Thaís: “Pra que vou melhorar, se Jesus pode e DEVE pagar por mim?”. Também vi outra vez a perseguição a ciência e a educação.

Ainda senti a doce saudade. Sonhei com um cachorrinho que morreu ano passado. E num ponto de ônibus me lembrei das vezes que minha mãe e eu pegamos esperávamos o meio de voltar para casa.

De tudo isso registrei:

- Que Cristo tome para si nossas enfermidade e doença. Amém!

- Por que manda coisas ruins para Cristo? Que Ele faça funcionar o cérebro do povo e dos governantes. Não sei se é possível... Se esses cérebros têm cura... Mas podendo ou não, Cara, muita saúde pro Senhor e que a gente te deixe em paz.

 

Só consigo sentir-me triste. E nem tudo pelo que me atinge.

Queria ser pedra, mas sou, como disse Mário Quintana, Grilo: alma dos poetas mortos.

A Consul no shopping do Vale fechou. Quantas e quantos “desempregades”. O desespero avança no Brasil.

 

“Em Terra de Cegos”, de H.G. Wells

Quem tem um olho é louco.

Este se acha rei dos céus

E aqueles o cegam ou ele morre...

 

Sonhei com Florbela, Pessoa, Iemanjá e, o já falecido, Vitório – meus cachorrinhos –. Disse: “Oi, Vitório! Você está aqui?” E o sonho termina comigo fazendo-lhe carinho e ele abanando o rabo.

Será que me visitou? Não importa. Foi bom enquanto durou e o que ficou não é resto; é memória.

Eu, mesmo sendo apenas um ponto no universo, ainda estou aqui. A registrar, denunciar e atuar. É bem possível que meu esforço seja o de um ponto num parágrafo, mas não há de ser, ainda, o final do parágrafo.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens – fotos do autor.

 

Escrito entre 12 e 19 de setembro de 2021.