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domingo, 13 de novembro de 2022

A-LUNOS SEM LUZ

Ou A VOZ DO PROFESSOR SEM VOZ


Alunos e seus

Olhos seletivos.

Conseguem ver no celular

Mas não os livros.


Jesus é outra coisa. Jesus é coisa séria.

As Igrejas de extrema direita clamam é por Zejus.


Metade de novembro e a turma encheu-se dos que ainda não alcançaram média.

_ Bom dia.

Começa a aula enfrentando, afônico, o ruído da sala.

_ O ser humano pertence a que reino? Animal, vegetal, mineral ou é uma espécie à parte?

Ninguém responde.

_ Vamos, gente! ... Somos da espécie animal...

_ Não sou animal não.

Protesta uma das faladeiras caladas para responder.

_ Então é o quê? Pedra!?! Planta!?!

_ Num sei. Mas num sô bicho.

_ A palavra animal vem de "anima" que significa energia que dá movimento a tudo que vive. Somos capazes de transformar energia em algo que nos permite continuar vivos, a reproduzir e a locomover.

_ Num importa. Num sô bicho. A Bíblia diz...

Preferindo não entrar numa discussão infrutífera continua sua aula. Mas se sente triste por um ambiente acadêmico estar infectado por "convicção, não por provas".

_ A diferença entre nossa espécie e demais seres vivos é o poder de raciocinar, filosofar e de expressar...

_ A gente num é animal não. - Teima no assunto.

_ Apesar do poder de refletir muitos preferem sequer pensar. - Calculando o rebate: CONTUDO, para nos comunicarmos foi necessário adaptar diversas partes do corpo com outras funções primárias, indo do diafragma, pouco acima do genital, até o topo do crânio. E...

_ E o que isso tem com Português?

Interrompe outro aluno e um terceiro acrescenta:

_ Não gosto quando fala contra Deus.

_ Português é comunicação e para comunicar é importante saber como produzimos palavras, ideias. Seja no nível biológico seja no nível filosófico.

Olhando a turma por dois, três segundos retoma a fala antes que no lugar de ouvirem para compreender, ouçam para responder:

_ Nunca falo contra Deus. Creio e respeito Deus. Não me importo como chamem a Grande Vida ou o Criador. Respeito sempre. O que sempre falei e falarei é contra o preconceito, contra a ignorância. Discuto sobre os religiosos cheios da presunção: "superioridade da minha crença". Critico os traficantes ou mercadores da fé. Nenhuma religião é superior a outra e todas devem ser respeitadas, mesmo se não praticadas.

E retoma, com sua afonia cada vez pior, a falar para ouvidos moucos sobre compreensão e transmissão dos discursos: o que estão me falando? como melhor expressarei minhas ideias.

_ Ah, professor! Para de falar e conte uma história como fazia antes.

Sem ter quem ouça fala para os que apenas escutam:

_ Em uma enchente, um devoto subiu no telhado de sua casa e pediu socorro a Deus. Apareceu uma canoa e o fiel a recusou dizendo "Deus vai me salvar". Veio um barco e não aceitou o socorro. "Deus vai me salvar". Surgiu uma lancha e outra vez recusou a ajuda. "Deus vai me salvar". Por fim, um helicóptero e... "Deus vai me salvar".

A enchente cobriu a casa e o homem se afogou. No Céu:

_ Por que não me salvou, Senhor?

_ Mandei quatro pessoas e você recusou todos os socorros que enviei.

Finalmente bate o sinal. Encaminha-se para a sala dos professores, mas para um instante na biblioteca escolar, escolhe um livro e observa o grafite de Rafa Mattos.

Depois, mais duas aulas antes de enfrentar o complicado, trabalhoso e ruim "diário on-line" adquirido pela prefeitura.


_____

Texto de Rubem Leite.

Foto do autor: biblioteca escolar Rubem Alves, E.M. Limoeiro, Timóteo MG.

GONTIJO, Bernardo. Por que nós somos animais. Disponível https://www.universidadedascriancas.fae.ufmg.br/perguntas/por-que-nos-somos-animais/ . 13 Nov 2022.

Pensado e escrito entre os dias 08 e 13 de novembro de 2022.

sábado, 18 de junho de 2022

Inspirado no conto Uma Vela para Dario, de Dalton Trevisan

Por que é que quem te escravizou te deu uma Bíblia. Pensa, pensa.


Em Ipatinga, um elegante e maduro senhor começa a tossir, põe a mão direita sobre o coração, com a esquerda se apoia na parede de uma das lojas na avenida 28 de Abril e lentamente vai escorrendo-se até o chão.

Um jovem com dread nos cabelos o socorre, grita por ajuda. Como ninguém aparece o rapaz vai embora com o coração apertado e a pensar no corte no cabelo que será obrigado a fazer ao entrar pra polícia. O homem não percebe a ausência do celular.

Uma garota se aproxima para ajudar, abre-lhe a camisa para ele poder respirar enquanto os transeuntes passam. E a jovem se junta condoída à massa, pois tem que levar os documentos para registrar seu nome como candidata a vereadora. O homem não percebe a ausência do cordão de ouro.

Uma velhinha de Bíblia na mão vai até ele. Em seu desespero abre a carteira para ver o nome do homem e grita: "u hômi sichama Girvany. Alguém u cunhéci?" E atravessa a avenida a perguntar as pessoas se conhecem o caído. "Ó glória" exclama a cada negativa. O homem não percebe a ausência dos R$500,00 que estava na carteira.

- Gente! A mulher gritou "Girvany"? Eu o conheço. É meu amigo; um irmão.

O amigo se aproxima. "Girvany do céu. Que te aconteceu? Pega seu celular e chama o samu. Quando este chega acompanha o irmão até o UPA. Lá os médicos socorrem o homem, mas chegam tarde. Ninguém percebe o amigo indo embora com a bolsa cheia de livros do falecido. Só se ouve o choro de quem se vai: ooorrorrorrorrórróóó.


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Rubem Leite.

domingo, 2 de janeiro de 2022

POR UM FIO

 


Sono.

Fecho os olhos.

Vejo um lugar em penumbra. Teias de aranha em muitos cantos.

Em cada uma há alguém.

Um rapaz está trêmulo de ansiedade, de pavor, de desejo.

Uma grande aranha, muito maior que o jovem, com seu modo assustador anda pelo lugar, sobe na teia.

Ele teme, mas o desejo é maior.

A aranha pica o moço.

Este sorri e se agita. Desprende-se da teia, exceto por um fio.

Vê o universo e outras maravilhas.

Tempos depois – apavorado, desesperado, ansiando, desejando – volta para seu lugar na teia e se prende à espera da próxima aranha a picá-lo.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagem: Aranha – foto do autor de um artesanato ganho alguns anos atrás de um mochileiro.


Não registrei a data de escrita.

domingo, 19 de dezembro de 2021

A CHAVE DA PORTA DOS MALES

  

Você luta

tenta ser coerente,

briga com o sistema,

tenta fazer o melhor...

 

e, no final, por um mínimo de esforço

de um (3 perguntas) com um único

ser, se aprova a atitude de desleixo, de irresponsabilidade, de negligência.

 

Aí, fica a pergunta

Adianta?

Fiz papel de 🤡

Preciso me esforçar para ser melhor

nesse sistema?


Assim, caminha a educação.

(Emílio Ferreira)

 

Delícia

Chuva batucando

No telhado de minha

Casa

Vento flauteando

Nas

Portas e janelas

Cortinas e árvores

Bailando

 

Um girino se transforma num sapo e crê que o mundo é a poça d’água. Não busca mais nada.

O menino cresceu e crê que o mundo é a fábrica. Não buscou mais nada. Trinta anos depois o RH agradeceu pelos serviços prestados e o deixou sem mundo.

 

Eu, Benito, quando mais jovem, tinha horror a palavra “senhor”. Não pela associação com a idade que ingenuamente muita gente faz. Meu desconforto era porque via nela superioridade de uns sobre outros; não fraternidade.

Hoje vejo que “você” leva as pessoas a confundirem amizade com desrespeito. Enquanto “senhor” não implica perda de amizade nem de intimidade, mas induz o respeito solidário e fraternal.

Segundo o dicionário eletrônico (aplicativo para celular) Dicio: Significado da palavra senhor:

Substantivo masculino. 1. Pessoa de alta consideração. 2. [Figurado] Quem domina algo, alguém ou a si mesmo. 3. Pessoa distinta. Adjetivo. 4. Sugere a ideia de grande, perfeito, admirável.

 

Meu pai

[15/12/1925]

Se foram noventa e seis

Surgido na Terra

Ventos nos galhos arbóreos

 

 

Acima, algumas coisas que, na semana passada, pensei e postei no Caralivro.

Abaixo, a história de hoje. 

 

 

Quase dois meses enfermo. Depressão, ansiedade, labirintite, sequelas de covid.

Da chave da porta destes e outros males não direi o nome. Tenho palavras mais bonitas, mais úteis para dizer.

Uma semana após o retorno.

Quarta-feira:

- Professor Benito, o senhor não pode dizer a nota dos alunos em voz alta.

- Uai! Não pode? Obrigado, chave, pela orientação.

A criatura deu um passo atrás como estivesse sido empurrado; encurvou as costas também para trás como se tivesse levado um soco; fez uma careta como se tivesse levado um susto. O professor lhe deus as costas e voltou ao que fazia, mas chamado um por um e falando individualmente a nota.

Sexta-feira:

Ao fim das aulas, indo para a sala dos professores, a chave o para:

- Professor Benito! Alguns alunos me perguntaram se professor pode vir de chapéus já que eles não podem vir de bonés. É o que está no estatuto da escola.

- Uai! Depois de dois anos e meio vindo muitas e muitas vezes de chapéu, boina ou gorro alguém se incomoda com isso? E faltando uma semana para o fim do ano letivo? Tudo bem, obrigado pela orientação. Daqui uns dias não virei mais aqui mesmo...

E entrou na sala sem olhar para a chave nem para sua reação.

Segunda-feira:

Com meio metro de distância a chave conversa com um sujeito. Ambos sem máscaras. Vendo Benito entrar na escola lhe diz:

- Professor, a máscara! O senhor está sem ela...

- Estou!

E entra na sala dos professores. Pega alguns materiais e só então põe a máscara para ir para as aulas.

No recreio, conversam os professores Benito, Teteu, Esmaiz e Sirena.

- Por que você não perguntou onde está no estatuto? – Sugeriu Teteu.

- Falei para todo mundo as notas em voz alta e a chave não falou nada. – Disse Sirena.

- E a coisa estava sem máscara?!? – Comenta Esmaiz. – Por que não disse isso para ele?

- Não discuti com a chave porque não me incomoda essas bobagens. Vir de chapéu ou não é algo completamente sem importância para mim. Falar em voz alta ou em voz baixa é menos importante que passar as notas; quem passou ficou livre e quem não passou soube que ainda tem que entregar a última tarefa. É o roto falando do esfarrapado. Rerrê. O troço estava conversando sem máscara com alguém enquanto eu estava sozinho... Vou lá da importância para o torto roto? E o mais importante. Acho que ele está esforçando muito para me ver gritar para ter algo a dizer contra mim à Secretaria Municipal de Educação. Não vou dar o que a chave quer, pois não tem poder sobre mim. E só quero terminar o período letivo e pronto.

Quarta-feira:

Os formandos da escola fizeram uma comemoração na sala de aula e convidaram seus professores e demais funcionários, mas não a direção escolar. A chave ficou com tanto ódio que decidiu escolher quem poderia participar da festa de formatura que, sem nenhuma ajuda da escola, os próprios alunos se esforçaram para conseguir o dinheiro.

- Chave! O dinheiro é nosso e você não está convidado. Não apareça por lá.

Boa resposta, acho.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Meu pai em sua carteira de sócio do clube do time; foto do autor.

Retrato do autor feito pela estudante Karla V.A. Paiva.

domingo, 31 de outubro de 2021

AS QUATRO MÃOS DO AUSPICIOSO


Em sua mão superior direita, Shiva segura um tambor de onde sai o som primordial da criação. Ele fez, faz e refaz o mundo, as pessoas e tudo que há.

De manhã vi o sol atravessando vermelho, amarelo e branco as nuvens cinzas. Como será o resto do dia?

Um cachorro de tamanho médio, focinho e patas caramelo e o resto é preto, espera na rua, em frente ao posto de saúde, seu dono sair do consultório. Como lhe será esse dia?

Em sua superior mão esquerda, Shiva carrega o fogo que destrói, mas também ilumina, aquece, coze.

Olho outra vez o céu. O sol continua a atravessar amarelo e branco as nuvens em posições e formas diferentes.

O bailar das duas mãos equilibra o dinamismo, harmonizando a vida. Fazer, desfazer, refazer sempre a evolução. E sua face calma elimina a confusão ao mostrar-nos o transcender da fusão entre esses polos.

O homem sai da médica e o cão o segue sem lamentar a falta de atenção do dono. Ele cuida sem se preocupar com o não retorno frequente de afeto.

Como um bobo – não com um tolo, um imbecil – mas sem buscar vencer com úlcera (no dizer de Clarice Lispector) ele faz. Será que sou bobo como o cachorro ou manipulável e tolo?

Em casa o homem toma seus remédios para continuar a vida, venha como for.

A segunda mão de Shiva diz em seu gesto: não tema, tenha coragem. De sua mão e seus gestos compreendo: Vá e Vença! A divina mão expõe: mantenha-te! Protejo e dou paz.

Do homem passo a uma mulher. Ela se sujeita ao pai de sua filha. Ele, casado com outra, não paga pensão, mas dá dinheiro depois de algumas horas na cama.

Mulher! Não é obrigada, mas não sabe disso e tem medo. Tem o ensinamento entranhado “esse é o papel da mulher”.

Ela se consola na manhã seguinte ao comprar um pouco mais de comida. Seu salário de doméstica da madame do Timirim paga o aluguel e contas, mas não dá conta de uma comida saudável e farta.

E a última mão, a esquerda? Essa aponta o pé erguido. Ah, esse pé e essa mão... Em verdade: ah, esse gesto! É o que nos liberta da ignorância e do apego.

Shiva baila sobre a Ignorância, o verdadeiro demônio.

Música, fogo, coragem e conhecimento é a Dança das partículas atômicas sempre a interagir emitindo e reabsorvendo tais partículas no orgânico e no inorgânico que no dizer de Lavoisier “nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma”.

A mulher vê na casa da patroa o livro Quarto de Despejo no quarto de despejo da madame. Essa “coincidência” desperta sua curiosidade.

A curiosidade vira a música do conhecimento que se faz luz e coragem. Assim se movimenta para dançar a vida.

Hoje encerra o outubro rosa e amanhã começa o novembro azul. Ah! Se tivéssemos governos. Setembro amarelo, outubro rosa, novembro azul. Preciso de psiquiatra e no CAPS não há vaga para esse ano nem devo esperar para o ano que vem. E consulta com psicóloga só daqui a três semanas após o dia da procura. Triste! Nossos governos não ajudam.

Difícil e fácil viver.

 

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens – fotos do autor.

 

Manuscrito e trabalhado entre 04 de outubro e 31 de outubro de 2021. Iniciado no dia de São Francisco de Assis, falando de Shiva e encerrando no dia do Saci.

domingo, 24 de outubro de 2021

SÃO FRANCISCO DE ASSIS, OS ANIMAIS, A ECOLOGIA E A IRMÃ MORTE

 

“Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final”.

“Todas as coisas da criação são filho do Pai e irmãos do homem... Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito de ser protegida”.

“Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

(Três pequenos ensinamentos de São Francisco de Assis).

 

Como sempre a manhã é bela. Se fossem só as manhãs, a fauna, a flora... Enfim a natureza seria uma dádiva, mas ninguém tem noção e não perceberem seus atributos; mas há muitas consciências ativas?

Sou o inverso de Francisco; ele é doce. Sou mais próximo de Antônio; ele é severo. E gosto de ser assim. Creio que a trindade franciscana conseguia ter essa ciência.

 

- O Sangue de Jesus tem poder! – Segundos de silêncio. – Vai morrer!... – Mais outros segundos. – Vem pra fora, diabo! – Grita na porta do posto de saúde do bairro Limoeiro, Timóteo.

- Tem ninguém aí não.

- Por que está aberta então?

- É a faxineira.

Ele volta para onde veio gritando as mesmas coisas, mas começando pela última exclamação e terminando com a primeira.

Eis o início de mais um dia.

Não um dia qualquer, é o de São Francisco de Assis e do meio ambiente. Ouço canto dos pássaros, um louco gritando incoerências e doentes lamentando enquanto esperam e esperam. Esperamos! Como será esse dia? Por enquanto fico ou tento segurar, manter, com o canto dos pássaros e a imagem do sol atravessando amarelo e branco as nuvens cinzas. 


No dia seguinte, enquanto digito o manuscrito, penso: faxineiras não são alguém ou a mulher que avisou ao louco queria dizer apenas que não havia outros funcionários para marcar as consultas: enfermeira e médica? Vai saber! Mas tenho minhas suspeitas...

De minha casa ao posto de saúde vejo cachorros famintos, dormindo na rua, não em suas casas.

Lembrei do vizinho que queria quebrar a mandíbula de minha cachorrinha que entrara em sua casa, não parando mesmo diante de meus rogos. Parou quando peguei uma telha e atirei para além dele. O machão entrou correndo na casa, trancando a porta e deixando a mulher que dormira com ele na parte de fora.

No livro antológico Identidades, da editora Venas Abiertas, uma dedicação de Karine Oliveira, ouço, no momento, Samuel Medina e Pablo Figueroa e eles bailam com Renato Russo e Chico Buarque:

O homem passou por sobre o pombo e conferiu a imagem que revelava vagamente a figura de um trecho de um vitral que vira na infância: parecia o Arcanjo Gabriel no momento da Anunciação. O pombo esmagado, as asas abertas e o que antes fora seu corpo feriam a mente do homem. Era como ele soubera que não houvesse como escapar. Foi com essa forte determinação que ele subiu os 18 andares de um dos principais edifícios da cidade. Sentindo toda a liberdade de um ser alado, ele deixou seu corpo dançar no vazio até alcançar o chão.

(Medina).

Subiu a construção como se fosse solido. Seus olhos embotados de cimento e lágrimas. Dançou e gargalhou como se ouvisse música. E tropeçou no céu como se fosse um bêbado e flutuou no ar como se fosse um pássaro e se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no passeio público. Morreu na contramão atrapalhando o público.

(Buarque).

Ninguém sabe o que aconteceu. Ela se jogou da janela do quinto andar. Nada é fácil de entender: Explica a grande fúria do mundo.

(Russo).

Meus iguais jazem enterrados lá no fundo, e vocês são as larvas.

(Figueroa).

 

Queria ter pensamentos bonitos, mas não estou conseguindo. Ou será que não posso? Será covardia, preguiça? Será algo mais forte que eu?

Médicos dizem algumas coisas. Religiosos dizem outras. O povo fala o que lhe sai pelo cotovelo. E, vedando minha vista e meus ouvidos, olho o sol ainda crescendo e ouço os pássaros ultrapassando o alboroto humano. Comigo apenas meus livros.

- Sr. Benito! A médica vai atendê-lo.

Entro. Explico minha situação. O surto da semana passada, as crises de depressão e ansiedade que me assolam. Que não posso ir trabalhar. Que tenho uma consulta marcada com um psiquiatra para o próximo sábado.

- O senhor quer atestado para cinco dias?

- Não, não quero. Preciso! Não tenho condições de trabalhar. Acordo a noite chorando e sem respirar. Durante o dia choro, perco o ar e não aguento andar de tanto cansaço. Uma fome que nunca passa e me produz duas coisas: ou só não me entupo de comida porque sei que não é apetite ou então tento comer e não ultrapassa a garganta. E a fome! Fome, não apetite... Fome ininterrupta. E o atestado não é para fugir do trabalho e para poder aguentar até sábado onde tenho uma consulta com um médico especializado para dizer-me como proceder.

Sem vontade minha sai-me lágrimas. A médica me observa pensativa.

- Tem mesmo uma consulta marcada para sábado?

Não tenho mais força para falar e só afirmo com a cabeça. Ela me dá o atestado. Volto para casa. Passo a semana pouco me alimentando de comida, mas me alimentando de consolo, de força, de conselhos: livros!

Mesmo afastado, durante vinte e um dias enfrentei as pessoas no trabalho, nas clínicas e onde mais tive que ir. Consumo os remédios prescritos. Mas me repouso e fortaleço na natureza ao redor de minha casa e com a literatura.

 

 


Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens – fotos do autor.

 

Manuscrito no dia 04 e trabalhado entre o dia seguinte e 24. Tudo em outubro de 2021.

domingo, 20 de junho de 2021

DANAÇÃO DA NAÇÃO


Uma névoa... Não! Muito pequena para ser névoa. É gás. O vento cada vez mais forte não dispersou o gás que tinha, reparei, uma forma... Uns dois metros de altura, uns cinquenta ou sessenta centímetros no seu meio, seu alto quase tem um separação... como se fosse uma quase esfera pequena acima da parte ovalada... No ar, indo de uns dez a cinquenta centímetros, subindo, descendo, o gás. Uma parte à sua esquerda se destaca sem se desprender erguendo como se fosse um braço. O corpo gasoso, sim, só pode ser um corpo, e vivo, deslizou pelos vários metros que nos separava. Percebi uma forma levemente humana e quanto mais se aproximava, mais sólida parecia se tornar. Um corpo de homem. Parou com os pés no chão tão próximo de mim que se erguesse outra vez seu braço me tocaria. O medo que me silenciou começou a se esvair abrindo a minha boca e ele me disse

- Não se assuste. Está perdido?

Respondo para uma coisa dessa? Você responderia?

- Não se assuste. Posso te ajudar a encontrar o caminho para onde quer ir.

- Muito obrigado! Mas não precisa se incomodar.

- Não é incômodo. Vem! Vem!

Não saio do lugar então ele vem até mim. Dou um passo para trás. Ele não para.

- Não precisa ter medo. O caminho é por aqui.

Fala passando por mim. A luz da lanterna quase não o pegando mais sigo-o.

- Meu nome é Guino. O seu?

Guino é bem mais alto que eu. E adulto. Branco, cabelos pretos. Rosto comprido. Calça preta, camisa branca. Não é feio. A única coisa que assusta é um gás se solidificar...

- Ah! Meu nome é Breno.

Enquanto andamos, Guino não parou de falar sobre a noite, a floresta, livros (acho que viu o que estava comigo), mulheres, animais. Comida. Não sei porque resolvi olhar para ele através do meu espelho que peguei no meu farnel. Na mesma hora ele se virou pela primeira vez para me olhar e se vê. Seus olhos se avermelham de ódio, seu rosto estava horrível, suas mãos... duas garras e seus dentes enormes. No espelho, sob sua forma transparente ele me abraça. Beija meu pescoço. Meu pênis erige-se enquanto meu corpo amolece. Foi a melhor coisa do mundo. É a melhor coisa do mundo.

 

Em português:

 

Na Argentina e no Uruguai os casais trocam doces e juras de amor, pois é o Día de San Valentín; o dia dos namorados destes e outros países. Mas esta história não se passa fora, mas dentro do Brasil.

Aqui o dia amanheceu nublado e neblinado; algo meio avermelhado, meio cinza. Isso em todos os estados e municípios do país. Em todos!

Guino é do poder econômico e todos do poder econômico, são como Guino. Com mais de quatro anos de planejamentos e estratégias, Guino e seus semelhantes, assumem o poder político.

Com a venda das águas brasileiras; desgaste do saneamento básico; tomada das reservas indígenas; extermínio da população do MST; uso indiscriminado de agrotóxico da Bayer, Monsanto, BASF, Dow AgroSciences, Du Pont, Syngenta e a mais popular e perigosa: Roundup; queimadas no Pantanal mais as queimadas e desmatamentos na Amazônia. Não se pode esquecer dos desenvolvimentos de empresas de ônibus e, principalmente, de caminhões; com o desvio de dinheiro para maquinários ecológicos ou menos poluentes compraram os mais baratos, mais nocivos e com tecnologia ultrapassada; o descuido com a FIOCRUZ, com o Butantã, com as Universidades Federais; a recusa em comprar vacinas contra covid-19. O não gasto em desenvolvimento foi contabilizado, mas ficaram nos bolsos dos empresários.

Guino e seus pares somados aos quase cinquenta e oito milhões de Párias criaram o clima nublado, neblinado e vermelho acinzentado fazendo a danação da nação. Disse antes que isso aconteceu em todos os municípios do Brasil; mas aqui cabe uma correção. Nuvens e neblinas não obedecem às fronteiras. Para os padrões humanos elas têm organização aleatória. Há partes do Oceano Atlântico cobertas e partes costeiras descobertas. Há cidades antes das fronteiras com países Sul Americanos e há cidades nessas nações cobertas pelo mal.

Sim, pelo mal. Explico-me se ainda não entendeu (o que acho pouco provável).

Na epígrafe já foi muito bem explicitado que Guino é um vampiro. Já falei dele em outras histórias. E agora ele tomou posse do Brasil.

Durante os anos de preparação os alimentos para os humanos foram garantindo pelas indústrias de agrotóxicos; cuja renda maior passou a ser a venda de sementes geneticamente modificadas. Nada saudáveis, mas tornam o sangue mais saboroso.

E agora a luz que chega ao território nacional é ineficiente para controlar os vampiros. Uns poucos mil vampiros, cinquenta e oito milhões de semivampiros (estes são os Párias); e no Planalto Central o Escatológico assinando documento e não dizendo coisa com coisa desviando a atenção.

O ataque começou assim:

No correr do dia treze de fevereiro de 2021 o céu formou um pálio cobrindo parte da Terra do Sol.

Às 3:33 da madrugada do dia quatorze, Guino deu seu grito de guerra ecoado pelos outros vampiros.

Os Párias despertaram. Saíram de sua zona de falsa consciência para sua natureza de inconsequente inconsciência.

Atacaram, destroçaram seus pais, avós, seus filhos, netos, seus maridos ou esposas. Depois foram aos vizinhos.

Em pouco tempo duzentos mil mortos. Quatro meses depois já eram meio milhão; e o número a crescer exponencialmente.

Um exemplo:

O advogado Sá Teixeira ainda dormia quando o eco vampírico despertou o gene ruim. Suas pupilas avermelharam, sua íris ficou amarela e a esclerótica, arroxeada. Os caninos dobraram de tamanho, arquearam como dentes de serpentes e afinaram como agulhas com um sulco por onde escorre os venenos.

O primeiro veneno é paralisante, anestesiante e contrastando com eficiência sensibiliza os genitais excitando-os mesmo sem toques. Assim, o vampiro suga o sangue, come a carne da presa sem este reagir.

Após algumas vítimas o Pária consegue controlar-se o suficiente para imobilizar a presa, alimentar-se sem destroçá-la e inocular o segundo veneno.

Para produzir o segundo veneno o Pária necessita de sangue e carne para suas glândulas digestivas produzirem uma espécie de vômito que vai para a boca e diluindo-se forma a saliva. As gengivas absorvem o veneno e através dos dentes modificados transforma a vítima em outro Pária. Uma vez lançado o veneno transformador a fome retorna para destroçar novas presas. Assim é formado o ciclo.

O advogado Sá Teixeira e sua mulher, uma médica, passaram pelo mesmo processo. Ainda dormindo os olhos, os dentes, os órgãos digestivos, as mãos e unhas se modificaram nas poucas horas antes do que seria o nascer do sol.

Abriram os olhos juntos, olharam-se e não se reconheceram. Rosnaram um para o outro, mas não servindo de comida saíram da cama.

A mulher foi para o quarto ao lado e o marido para a cozinha.

No quarto, duas crianças e na cozinha a sogra preparava o café.

A velha deu um leve grito de surto, mas empurrada para a parede recebeu a mordida. Ficou vendo o genro acabar com seu sangue e arrancar partes de seu pescoço, seios flácidos e braços. Foi gostoso como orgasmos múltiplos.

A criança mais perto da porta não gritou; paralisada antes de assustar-se. Sem conseguir abrir os olhos sentiu seu sangue molhar a cama enquanto sentia um prazer desconhecido.

O som da carne destroçando-se acordou a criança da outra cama ao mesmo tempo que o pai ia para o quarto do filho adolescente.

O grito da criança acordou o irmão no outro aposento e chamou a atenção da mãe.

A criança tentou correr e o adolescente quis avançar para o pai sem saber o que lhe esperava.

A criança quebrou a janela ao ser jogada contra ela e o sangue jorrou pelos cortes; atiçando a Pária.

O adolescente sentiu seu pau e se assustou com o tesão sem sentido pelo pai. Morreu sem entender porque seu pai o devorava e porque ejaculava.

Sem mais ninguém na casa o casal saíra desvairado à rua. Em algumas casas acontecia o mesmo e outras casas eram invadidas.

O céu cinza e o ar nublado não eram percebidos pelos Párias e as presas não tinham tempo de observá-las.

No Brasil e no mundo há outros grupos não humanos. A maioria não é parasita; como os bruxos, sacis, curupiras...

Saci.

Vampiros não ousam enfrentá-los. Se estes não indestrutíveis também não são presas fáceis. Os Párias não dispõem de razão, mas não atacam os não humanos por instinto.

Os não humanos não se envolvem nos negócios dos vampiros. Porém desta vez o clima intervém no seu habitat.

A primeira medida que tomaram foi a criação de redomas com consistência de bolhas. E mesmo nos centros urbanos o ar é bom, a neblina não é tóxica e quando o céu se nubla é a natureza em um de seus momentos.

A segunda medida tomada foi não entrar em guerra. O planeta se cuida mesmo sem gente humana ou não humana. Em verdade, o planeta não necessita de gente. Os não humanos sabem disso e deixam a natureza fluir. Enquanto ela se equilibra os não humanos criam campos urbanos ou silvestres para eles, para os animais, plantas e humanos que os encontrar.

Meses depois do Valentim da Morte em um acampamento, humanos e não humanos festejam a lua no céu limpo.

Lima e Barreto se beijam debaixo de um caramanchão. Uma mulher passa perto deles e bate a cabeça num enfeite. Rindo, Barreto diz “só mesmo humano para não diferenciar lata de flor”.

O tempo não para e não sobra mais humanos fora dos acampamentos mágicos. Do Brasil não resta muita coisa então Guino vai de país em país da América Latina e depois para a parte Norte do continente. Os Párias vão se inanindo à extinção. Após o fim da América quais serão os próximos países? O que sei é que o mundo não precisa de gente...

O planeta continua se cuidando (é por isso que o mundo permitiu os parasitas, para limpar-se). Um dia a vida como foi até o século XXI não mais subsistirá. Parasitas se extinguem com a morte do hospedeiro. O que será dos vampiros? Dos Párias já sabemos, mas dos conscientes? De qualquer modo a Terra está tranquila.

Os não humanos estão igualmente tranquilos. Se a natureza os selecionar continuarão no que disse Antoine Laurent Lavoisier.

 

 

Principales partes en español:

CONDENACIÓN DE LA NACIÓN

 

Guino es del poder económico y todos del poder económico son vampiros. Tras años de planes y estrategias Guino y sus pares asumen el poder político.

Con la venda de las aguas brasileñas; desgaste del saneamiento básico; tomada de las reservas indígenas; exterminio de la población de las reformas agrarias; uso indiscriminado de pesticidas de la Bayer, Monsanto, Basf, Dow AgroSciences, Du Pont, Syngemta y la más popular y peligrosa: Roundup; quemadas en el Pantanal más las quemadas y derribada de Floresta Amazónica. No se puede olvidar del desarrollo de empresas de autobús y camiones; del desvío de dinero para la ecología; ni del descuido con la FIOCRUZ, con el Butantan, con las Universidades públicas; la recusa en comprar vacunas contra el covid-19…

Guino y sus iguales más los casi cincuenta y ocho millones de Parias crearon el clima nublado, brumoso y rojo grisáceo haciendo la condenación de la nación.

En los años de preparación los alimentos para los humanos fueron garantizados por las industrias agrícolas; cuya renta principal era la venda de semillas genéticamente modificadas. Nada saludables, pero tornan la sangra más rica.

Con la luz que ahora llega al territorio nacional es ineficiente para controlar a los vampiros unos mil vampiros, cincuenta y ocho millones de semivampiros (eses son los Parias); y Brasilia el Escatológico firmando documentos y nunca dando pie con bola descarrilla la atención.

El ataque empezó así:

En el correr del día trece de febrero de 2021 el cielo fue cubierto por una pabellón a empanar el Sol.

A las 3:33 de la madrugada del día catorce, Guino hizo el grito de guerra que despertó a los Parias. Ellos salieron de su zona de falsa consciencia para su naturaleza de inconsecuente inconsciencia.

Atacaron, destrozaron sus padres, abuelos, hijos, nietos, maridos, esposas… Después a los vecinos. En un rato, doscientos mil muertos. Cuatro meses después ya eran quinientos mil muertos y el número a crecer exponencialmente.

El eco del grito vampírico despertó el gene malo; enrojeció la pupilas, las iris amarillaron y la esclerótica se quedaron moradas. Los colmillos doblaron de tamaño, arquearon como dientes de serpientes y afilaron como agujas de donde salían los venenos.

El primer veneno es paralizante, anestésico y provoca sensibilización y excitación de los genitales. Así el Paria chupa la sangre y come la carne sin la presa reaccionar.

Tras un par de víctimas el Paria consigue controlarse el suficiente para inmovilizar la presa, alimentarse sin destrozarla e inocular el segundo veneno.

Para producir el según veneno el Paria necesita de sangre y carne para sus glándulas digestivas produjeren una especie de vómito que va para la boca y diluyéndose se forma la saliva. Las encías absorben el veneno y a través de los dientes modificados convierte a la víctima en otro Paria. Una vez lanzado el veneno cambiante el hambre retorna para destrozar nuevas presas. Así es formado el ciclo.

No Brasil hay otros grupo no humanos. La mayoría nos es de parásitos; como los brujos, los sacís, los curupiras…

Curupira.

Porque son inteligentes los vampiros no los enfrentan. Y por instinto los Parias también no los enfrentan. Y los demás no humanos no se involucran en los asuntos de los vampiros. Sin embargo, ahora el clima interviene en sus reinos.

La primera medida que tomaron fue la creación de redomas con consistencia de burbujas con la capacidad de limpiar la polución y virus.

La segunda medida tomada fue no entrar en guerra. El planeta se cuida mismo sin gente humana o no humana. En verdad, el planeta no necesita de personas. Los no humanos saben de eso y dejan la naturaleza fluir. Mientras ella se equilibra los no humanos crean campos urbanos y silvestres para ellos, para los animales, plantas y, si los encuentran, para los humanos.

Meses después del Valentín de la Muerte en un acampamento, humanos y no humanos, festejan la luna en el cielo limpio.

El tiempo no para y no hay más humanos fueran de los acampamentos mágicos. De Brasil no hay mucha cosa más y por eso Guino se traslada de un país a otro en toda Latinoamérica hasta ocupar todo el continente, de Sur a Norte. Los Parias se van muriendo de inanición. Después de América, ¿cuáles países y continentes se han de morir? No sé, pero el mundo no necesita de personas…

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Faire (Amnon K. Oliveira), Jaydson Sousa, Salomão A. Costa, Vilma Zeferino e Feliciana Saldanha.

 

BORGES, Helena (o Globo). Estudo mapeia as dez empresas que dominam o mercado de agrotóxicos no mundo. Disponível: https://actbr.org.br/post/estudo-mapeia-as-dez-empresas-que-dominam-o-mercado-de-agrotoxicos-no-mundo/17568/ . Acesso 22 Fev 2021.

 


Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Saci: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/trick-ou-treat-dizia-o-saci-polarizacao-do-dia-das-bruxas.phtml

Curupira: https://dana.com.br/social/nossos-projetos/lendas-brasileiras/curupira/

Autor: Vinícius Siman.

 

Na madrugada de 14 de fevereiro de 2021 tive o sonho ruim que deu origem a este cronto. No hospital Municipal de Ipatinga, acompanhando minha mãe, escrevi o manuscrito enquanto ela descansava. Dia 16 de fevereiro ela falece por parada cardíaca súbita motivada pelo convid-19. O cronto foi digitado e trabalhado entre os dias 22 de fevereiro e 20 de junho do mesmo ano.

domingo, 6 de junho de 2021

MORREU POR IMPUNIDADE

 

Pai meu que está no Céu, santificado é só o meu nome. Venha a mim o meu reino (e para de enrolar, seu va-ga-bun-do). Seja feita a minha vontade assim na terra plana como no Céu. O pão meu de cada dia (pão nada, que isso é coisa de pobre; só comida cara) me dá agora (que não sou obrigado a esperar). Nada tenho que ser perdoado, mas perdoo Jesus, o comunista. E não perdoo quem me ofende. Não me deixeis cair na tentação de amar meu próximo e empurrai aos demais pros infernos.

Armem.

 

Os dias são domingo e depois segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda terça, quarta, quinta, sexta, sábado...

O dia e a noite, o dia e a noite, o dia e a noite... Se fazem madrugada, manhã, tarde, noite, madrugada, manhã, tarde, noite, madrugada, manhã, tarde, noite...

Estamos em junho que se seguirá por julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro...

Milênios antes da Via-Láctea, milênios com Via-Láctea, milênios depois da Via-Láctea... Milênio de formação da Terra, milênios antes dos sapiens, milênios com os sapiens e milênios após.

 

 

Ouvi num vídeo da atriz Denise Fraga que me tirou lágrima. Ela se encontrara com uma amiga de baixa instrução que chorava a morte do irmão morto pelo covid. Essa pessoa comentou com a atriz:

- Meu irmão morreu de covid porque estava com a impunidade baixa.

A atriz, naquele momento de dor da amiga, decidiu não corrigir o erro: não é impunidade; é imunidade. Mas ela teve vontade de dizer:

- O seu irmão não morreu de impunidade baixa. Ele morreu de covid por causa da impunidade alta.

O Pazuello foi castigado com uma pensão vitalícia. – Dou uma triste risada. – E todas essas pessoas que cometem os mais bárbaros crimes contra os mais fracos nada lhes acontecerá porque sua impunidade é altíssima. Nada vai lhes acontecer. Denise Fraga fala da ironia que o problema não foi a baixa imunidade do rapaz e sim a alta impunidade... – não da elite porque isso exigiria elevado teor intelectual entre outras coisas. – Alta impunidade de quem está no poder.

 

Um gemido ou arfar desalentado escapa de meu peito.

 

Não deveríamos permitir que pessoas como os prefeitos de Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo, policiais, militares, empresários, vereadores, deputados, senadores, governadores, presidentes saiam impunes.

- A ética tinha que ser uma realidade. – Diz um inteligente amigo. – Não importa quem deveria ser julgado segundo as leis e comprovado o crime, condenado. O essencial é a educação. Educação é a chave de tudo.

- Não há como dizer que educação... – Não consigo completar a relevância da educação. Há muita amargura em meu corpo para a lógica sair com facilidade. – Temos que educar as crianças, educar os pais, educar os políticos, educar os policiais, educar os sacerdotes de todos os credos, educar os médicos, os advogados, quem varre rua, quem caminha pelas ruas, quem está vendendo, quem está comprando. Sem educação nada funciona. Mas quem educará? Quarta-feira fui a um advogado e vi pela tela de seu computador a página de watzap. Um dos grupos que ele segue é “somos todos Boçalnato”. Precisamos educar sobretudo aos professores. Mas quem seria os educadores? Faz tempos e tempos que digo que os professores deveriam ser a elite intelectual dos municípios. E só a escola onde trabalho grande parte foi eleitora do Boçalnato. Vê-se que eles não têm nenhum intelecto. O que estão ensinando? Se só conseguem dizer “petêêê, Luladrão! Miiiito!”. Mas eu concordo com o senhor, educação é... O que não consigo ver é quem educará.

- Essa CPI – Diz uma amiga igualmente inteligente – só desperta angústia, ódio... Na Praça Primeiro de Maio, no Centro de Ipatinga tem uma barraca buscando filiação para o partido do Boçalnato. Parece que eles existem para despertar empatia. Mas como ter empatia com gente assim? Se eles exterminam os índios; fizeram dois homens perderem um de seus olhos; ameaçaram estuprar uma criança de cinco anos por ser filha de uma importante política da esquerda. Gostaria poder confrontar essa gente, mas me sinto com medo. Não sei o que dizer-lhes.

- Confrontar, comentar como? Dizer o que para eles? Boçalnato, antes de ser eleito, já se declarava corrupto, que sonegava impostos; que ia tirar até o último centímetro de terra dos indígenas; que negro se pesa em arroba. E aí vai... Não há como confrontar uma pessoa que não se importa com nada disso. Não há como discutir. Ouvi uma história:

Um burro e um tigre discutiam sobre a cor da mata. O burro zurrava que era azul e o tigre bramia que era verde. Depois de tanto discutirem decidiram conversar com o rei leão.

O burro azurrou enfaticamente que a mata era azul e que o tigre deveria ser punido por espalhar “fêiqui nius”.

O rei leão declarou:

- Tudo bem, senhor burro. O tigre terá como punição a obrigação de ficar calado por quatro anos.

O burro saiu todo contente a ornejar sua sapiência e o merecido castigo do tigre mentiroso.

- Rei leão, por que vossa majestade concordou com o burro e me castigou se sabe que a mata é verde?

- Puni a vossa alteza porque nunca se discute com burros. Eles são incapazes de compreender a verdade. Espero que o senhor nunca mais perca seu tempo com os imbecis.

E a verdade é que estamos indo para quatro anos sofrendo os males causados pela récua nacional. Eu mesmo discuti com esses imbecis, mas foi em vão. Já foi dito, não me lembro por quem, que os idiotas vencerão o mundo não pela capacidade, mas pela quantidade.

E por que não me calo? Porque sou cigarra a gritar até estourar-me... Esta é minha natureza. Ou talvez até ser devorado pelas formigas milicianas. Essa é a natureza humana.

- Precisamos da Luz de Buda, de Cristo, de Olorum. Precisamos de Luz divina para trilhar sem nos perdemos.

- Precisamos de luz sim. Mas me lembro daquela música:

Diz que Deus dará, diz que Deus dará, mas se Deus não der, ó nega, como é que vai ficar?

- Realmente não podemos transferir a conta para Deus. O problema é nosso. – Uma pausa. – Mas minha esperança é que essas cobras se engulam.

 

Os dias são domingo e depois segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado...

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Adinagruber C. Lima, Éder Rodrigues, Neusa Silva, Luciano A. Maciel, Edney Costa e Claudiane Dias. 



Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens: fotos do autor.

 

Escrito entre os dias 04 e 06 de junho de 2021.