domingo, 25 de abril de 2021

MORTE: VIDA QUE SEGUE

 

PERIGO!

Este cronto é o sétimo de uma novena a pensar criticamente a Bíblia. Se isso te amedronta pare por aqui. Está avisade. Se continuar será por sua conta e risco. Não me responsabilizo pelo desconforto que sentirá, pois é difícil não ser misantropo quando se tem neurônios funcionais.

 

O Espírito de Deus desceu sobre Jefté e este prometeu a Deus: “Quando eu voltar vitorioso da guerra oferecerei em holocausto a primeira pessoa que sair de minha casa para me receber.” E Deus deu a vitória a Jefté.

(Juízes 11, 29-34)

 

Em português, na íntegra:

 

É dito “Quem cedo madruga Deus ajuda”. Mas talvez a verdade seja “Para quem cedo madruga Deus não existe”. Nietzesche disse “Deus está morto”. Não discuto se Nite (escrevi conforme se pronuncia; aportuguesei) negou a existência de Deus. Isso é assunto para outra hora.

Deus está morto! O padre Claudemir Serafim O matou ao dizer: covid não é católico porque odeia ao Senhor. Flordeliz O matou ao fazer orgia com seus cinquenta filhos, ao casar-se com um deles e assassiná-lo quando não queria atender aos seus desígnios. Malafaia O matou ao edificar o Templo de Salomão e – antes, durante e depois da construção – extorquir dinheiro dos incautos. Valdemiro Santigo O matou quando vendeu “feijão ungido” para curar covid. O líder espírita Divaldo Franco e os líderes religiosos já citados O mataram quando votaram no Boçalnato. E estes são apenas exemplos notórios da prática cristá.

Deus está morto! Cinquenta e sete milhões de brasileiros, com a cumplicidade dos que votaram branco ou nulo, mataram-nO ao escolheram um genocida como presidente. E não há chance de dizerem que foram enganados porque Boçalnato sempre afiançava o mal encarnado que era, é e será:

Só não te estupro porque você não merece. Minha filha foi uma fraquejada que dei. Ter filho gay é falta de porrada. Índio não terá um centímetro de terra. O negro mais magro pesava quinze arrobas; não serve nem pra procriar. Meus filhos foram bem-educados e não namorariam uma negra; não são promíscuos como os artistas pretos. Sonego todo imposto que posso.

Proudhon disse que a religião apregoa o que pode ser chamado de Teoria da Resignação para impedir o povo de rebelar-se. Como a religião faz isso? Ao consagrar-se como inviolável o seu poder e privilégio por vontade divina. Assim, a religião consola o povo declarando “Força! Você conseguirá alcançar o Céu aceitando sofrer. Não importa que outros tenham boa vida. Assim é pela Vontade inquestionável de Deus”. E com os olhos tapados o povo caminha tapado.

A deputada Paula Belmonte é autora do Projeto de Lei que torna a educação serviço essencial. – Muitos falam. – E na semana passada o deputado Ricardo Barros disse:

- Só professor não quer trabalhar na pandemia. É absurdo a forma como estamos permitindo que os professores causem tantos danos às nossas crianças na continuidade de sua formação. O professor não quer se modernizar, não quer se atualizar. Já passou no concurso, está esperando se aposentar, não quer aprender mais nada. Só professor não quer trabalhar.

Acompanhado por muitos, respondo:

A Educação só é serviço essencial quando o professor tem que ir à sala de aula durante a pandemia. Mas nunca para receber salário digno ou receberem vacina; nunca para melhor aparelharem as escolas; nunca para os alunos terem acesso de qualidade a internet. Estou desanimado, mas ainda dou murros. É uma lástima que só encontro alvo em ponta de faca.

O docente enfrenta o pior dos inimigos. Tudo que o educador ensina é anulado pelos padres e pastores ao ameaçarem o povo com o fogo do inferno se não descrerem do professor. A educação não consegue combater as mais horríveis adversárias: as religiões. Ah! Seria tão bom se os pais não permitissem que o cérebro de seus filhos se maculassem com as maledicências das igrejas. Mas essa não é realidade. Estou desanimado, mas ainda combato com a esperança que um dia deixe de ser em vão.

Entretanto o que essas coisas têm a ver com o tema do cronto? Talvez quem lê se pergunte. Vejamos o tema: Os versículos vinte e nove a trinta e quatro do capítulo onze de Juízes e nos versículos vinte e cinco a cinquenta e quatro do capítulo trinta e um de Números (Núm 11, 25-54) ensinam o sacrifício humano. Agora, como conseguir que o povo se sacrifique e como ter coragem para sacrificar o outro?

- Boçalnato cumpriu este versículo. – Respondo à hipotética pergunta. – Venceu as eleições de 2018 e ofereceu em sacrifício a população brasileira. Duas semanas atrás eu disse e repito:

Tenho certeza que não há álcool nem sabão capaz de limpar o sangue nas mãos e almas dos cúmplices dos já se aproximando a quatrocentos mil assassinados pelo presidente e seus conluiados através do covid-19. Estes criminosos vão sobreviver, pois Cristo disse: “este mundo é dos maus”. Os cúmplices do presidente – seus eleitores – continuarão a disseminar o mal porque só sabem dizer “Luladrão, Lulinha Friboi, petêêê” e “só detesta bandido de esquerda”; os de direita os senhores apoiam. Já eu continuarei a ser Dom Quixote; a cigarra a estourar-se de tanto gritar no deserto que é seus cérebros. E só me calarão quando as formigas devorarem esta cigarra.

No Rio de Janeiro o vereador boçalnariano Dr. Jairinho torturou e matou a chutes o enteado de quatro anos. Causando-lhe hemorragia interna e lacerando o fígado além de diversos outros ferimentos e hematomas. Isso com omissão ou participação da companheira, mãe da criança. Jairinho é um sujeito observador, calado e avesso a debates.

Dois apêndices a quem está lendo:

O que pensa quando conhece uma pessoa má está calada e é observadora?

O que pensa quando alguém ruim é calado e foge de debates? Gostaria que me respondesse.

Continuação do parágrafo anterior aos apêndices:

Como dizia, Jairinho é um sujeito observador, calado e avesso a debates. É um cidadão de bem; um homem religioso. E três dias após o assassinato assumiu um cargo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar na Casa para disciplinar os vereadores. O Coronel Jairo, pai do vereador assassino, está preso por corrupção e outros crimes; quase todos ligados ao Flagro Boçalnato, filho 01 do Vocessabequem.

- Senhor! Preciso ser reeleito. Se reeleito for oferecerei algo muito sagrado.

Assim Jairinho e Mônica, cúmplice no assassinato do próprio filho, rezaram diante do altar em sua casa. Mas do altar apenas o silêncio. Interessante é que só conseguiram acender a vela na terceira tentativa, quando irritada, Mônica falou baixinho “desgraça!”.

Jairinho foi reeleito. Passou-se o primeiro mês da posse; atravessou o segundo e nada de cumprirem a promessa. No primeiro tríduo de março o casal teve pesadelos cobrando a promessa. No quarto dia o padrasto teve um sonho revelador; e como dormira bem. Os três dias seguintes foram de planos e no oitavo a realização.

O sábado e o domingo o menino ficou com o pai. Na manhã de segunda este entregou o filho à mãe.

Antes de entrarem no carro o menino pedira para ficar, não queria ir. Mas o pai não teve escolha. 

A segunda-feira amanheceu tranquila. Mônica pegou na cozinha uma bacia de bronze, uma faca e uma colherinha de prata para ocasiões especiais. O casal foi ao banheiro para se purificarem para a oração matinal especial. Nus se ajoelharam diante do altar.

- Pai! Ao Senhor ofereço meu sangue. – Disse o vereador – e furou fundo o indicador direito.

- Filho! Ao Senhor ofereço meu sangue. – Disse Mônica – e furou fundo o indicador direito.

- Espírito Santo! Ao Senhor oferecemos nosso sangue. – Disse o casal – um encostou o anelar direito no mesmo anelar do outro e fizeram um leve corte.

Os sangues caíram na bacia. Ele misturou o sangue como se fosse um ato sexual. Sensualmente ela pegou a colher e colheu um pouco do sangue na bacia e o bebeu. Repetiu a ação, dando-o ao amante.

Puseram curativos nos dedos, vestiram-se e foram para a sala receber a criança que em instantes chegaria e, assim, encerrarem a consagração.

Assim que o hospital declarou a morte da criança, o vereador assassino disse ao Pai: “Vamos virar a página, vida que segue. Faz outro filho.”. E este o olha atônito.

Durante o sepultamento, enquanto o pai joga uma pá de terra sobre o caixão, Mônica se olha no espelho para retocar a maquiagem e fala baixinho para o amante:

- Veja que horror está meu cabelo. Acabando esse troço vou direto ao meu cabelereiro.

À noite, durante o culto, a convite do pastor, o vereador discursa comovido:

- Sou Evangélico com Deus no coração. Conservador, luto contra a ideologia de gênero. Médico, nunca trabalhei; sempre fui vereador e luto pela escola sem partido. Defensor das famílias estou unido a Boçalnato. Pois é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.

- Miiiito! – O povo gritou em adoração ao seu – ênfase no pronome possessivo – seu Messias.

 

 

En español, trozos sobresalientes del cruento – MUERTE: VIDA QUE SIGUE

Los nombres abajo son de personas reales; todos son líderes religiosos y unos son también políticos:

 

¡Dios está muerto! El cura Claudemir Serafim Lo mató al decir: covid no es católico porque odia al Señor, Flordeliz Lo mató al hacer orgía con sus cincuenta hijos, al casarse con uno de ellos y asesinarlo cuando no quería atender a sus ganas. Malafaia Lo mató al edificar el Templo de Salomón y – antes, durante y después de la construcción – obligar a los incautos a pagar bendiciones. Valdemiro Santiago Lo mató cuando vendió “frijol ungido” para curar covid. El líder espírita Divaldo Franco y los líderes cristiano ya dicho Lo mataron cuando votaron en el Bozalnato.

¡Dios está muerto! Cincuenta y siete millones de brasileños, con la complicidad de los que votaron blanco o nulo, Lo mataron al elegir un genocida como presidente. Y no hay posibilidad de hablaren que fueran engañados porque Bozalnato siempre hay declarado el mal encarnado que era, es y será.

Lunes amaneció tranquilo. Mónica agarró en cocina una cuenca de bronce, un cuchillo de plata y una cucharita también de plata para ocasiones especiales. La pareja fue al baño para purificarse para la oración matinal especial. Desnudos se arrodillaron delante al altar.

- ¡Padre! Al Señor ofrezco mi sangre. – Dijo el concejal – y se pinchó el indicador derecho.

- ¡Hijo! A Usted ofrezco mi sangre. – Dijo Mónica – y pinchó el indicador derecho.

- ¡Espíritu Santo! A Usted ofrecemos nuestra sangre. – Dijo la pareja – Uno acostó el anular derecho al mismo anular del otro e hicieron un pequeño corte.

Las sangres cayeron en la cuenca. Él mescló la sangre como se fuera un acto sexual. Sensualmente ella agarró la cucharita y recogió un poco de la sangre en la cuenca y lo bebió. Repitió la acción, dándola al amante.

Pusieron curativos en los dedos, se vistieron y fueron a la sala recibir el niño que a un rato llegaría y, así, encerraren la consagración.

Así que el hospital declaró la muerte del niño, el concejal asesino dijo al padre: “Vamos a pasar página, vida que sigue. Hacé otro hijo.”. Y esto lo mira atónito.

Durante el funeral, mientras el padre echa un poco de tierra sobre el ataúd, la madre se mira en el espejo para retocar el maquillaje y charla en voz bajita al amante: “Mire como está horrible mi pelo. Acabando esa mierda me voy directo a mi peluquero.”.

Por la noche, en el culto, por invitación del pastor, el concejal discursa conmovido: “Soy cristiano con Dios en el corazón. Conservador, lucho contra la ideología de género. Médico, nunca trabajé: siempre he sido concejal y lucho para los maestros no hablaren mentiras sobre los gobiernos de derecha. Pues Jesús está a derecha de Su Padre. Entonces solo la derecha es buena. – Sin embargo, un cerebro en la iglesia piensa “Si Jesús está a la derecha entonces el Padre está a la izquierda…” – Mientras piensa el cerebro, el concejal asesino platica: Soy defensor de las familias y por eso estoy unido al Bozalnato. Pues es Brasil arriba de todo y Dios arriba del pueblo.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Erika Aviles, Felipe Martins, Wilder Alves, Maxi Cabral e Cibele Teixeira.

 

Recomendo a leitura de:

“A Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire;

“Colapso”, de António MR Martins:

http://poesia-avulsa.blogspot.com/2021/04/colapso.html

 

“La teoría de la resignación a servido a la sociedad impidiendo la rebelión de los pueblos. La religión, consagrando con el derecho divino la inviolabilidad del poder y del privilegio, ha dado a la humanidad fuerza para continuar su camino y apurar sus contradicciones. Sin esa venda, echada a los ojos del pueblo, la sociedad se habría disuelto mil veces. Era preciso que alguien sufriese para que ella curara; y la religión, consoladora de los afligidos, ha decidido al pueblo a sufrir. Este sufrimiento nos ha conducido a donde estamos: la civilización, que debe al trabajador todas sus maravillas, debe aún a su sacrificio voluntario su porvenir y su existencia.” (Pierre J. Proudhon).

 

Sobre a fala do deputado Barros:

https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/04/20/ricardo-barros-governo-critica-professores.htm?cmpid=copiaecola

 

Sobre o vereador Dr. Jairinho:

http://www.camara.rio/vereadores/dr-jairinho

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

As imagens são todas do autor.

 

Escrito entre 08 de fevereiro e 25 de abril de 2021.

domingo, 4 de abril de 2021

JÁ EU CONTINUAREI SENDO DOM QUIXOTE

  

PERIGO!

Este cronto é o sexto de uma novena a pensar criticamente a Bíblia. Se isso te amedronta pare por aqui. Está avisade. Se continuar será por sua conta e risco. Não me responsabilizo pelo desconforto que sentirá, pois é difícil não ser misantropo quando se tem neurônios funcionais.

 

Não poderá comparecer ao templo nem fazer oferendas a Deus alguém que seja coxo, atrofiado, deformado, com perna ou braço fraturado, corcunda, anão, defeito nos olhos ou catarata, eunuco...

(Levítico 21, 18-20)¹

 

ATOS OFICIAIS – Prefeitura Municipal de Ipatinga

Decreto nº 9572, de 22 de janeiro de 2021.

DECRETA:

Art. 1º Fica o Município de Ipatinga desvinculado do Plano Minas Consciente – aprovado pela Deliberação do Comitê Extraordinário COVID-19 n.º 39, de 29 de abril de 2020, do Estado de Minas Gerais – em razão da necessidade de adoção de medidas de restrição sanitárias e ações de enfrentamento da pandemia, segundo as peculiaridades do Município.

Art. 2º As atividades de natureza econômica e de prestação de serviços constantes no Anexo I deste Decreto, poderão funcionar até 30 de abril de 2021, em estrita observância às medidas de proteção e restrição sanitárias estabelecidas no Anexo II.

Art. 3º Fica autorizado o retorno das aulas presenciais nos estabelecimentos de ensino da rede pública e privada, inclusive creches e berçários, nos termos do Anexo III deste Decreto.

Art. 4º Revogam-se as disposições em contrário, em especial o Decreto Municipal n.º 9.419, de 1º de setembro de 2020, e o Decreto Municipal n.º 9.533, de 10 de dezembro de 2020.

Art. 5º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Ipatinga, aos 22 de janeiro de 2021.

GUSTAVO MORAIS NUNES

Prefeito Municipal.

 

- Ao ler o decreto expedido pelo prefeito da cidade, achei bastante interessante a importância que ele dá ao ambiente escolar, veja o PROTOCOLO DE MEDIDAS DE PROTEÇÃO E RESTRIÇÃO SANITÁRIAS: XIV- Não utilizar/disponibilizar bebedouros coletivos, não oferecer degustações, não compartilhar alimentos e evitar consumo destes fora de casa. – Diz uma professora. – Porém, esse dispositivo não se refere à escola, mas a outros ambientes de trabalho. Lembra de como você era na escola? Como tomava a agua no bebedouro?

Ela ri ironicamente e retoma a palavra:

- Eu sim! Será que as crianças vão estar com o álcool gel a todo momento na mão para higienizar após manusear? Será que haverá funcionárias da cantina suficiente para limpar toda hora que uma criança usar e após o recreio, nossa deve ser bastante tranquilo o controle... Bom, acho que o prefeito se esqueceu de tratar da escola como um ambiente de potencial risco, como qualquer outra empresa. O protocolo da escola diz: Intensificar a higienização dos bebedouros ao longo do dia. Bom, por que não proibir o uso do bebedouro? Por que ele não comprou garrafinha para cada criança e distribuiu? Por que não protocolou que as garrafas devem ser enchidas no momento oportuno ou por um funcionário da escola? Ah é, porque a escola é um ambiente controlado e seguro e essas ações seriam impossíveis...

Mais um riso irônico e continua:

- Pense e reflita comigo, ele está pensando no bem-estar de seu filho e de sua família? Ou apenas seguindo a cartilha daqueles que o elegeram. Porque você arriscaria a vida, se a vacina está tão perto?

O silêncio é geral. Estamos numa reunião “onláine” com quase trezentas pessoas: pais, professores, sindicalistas, políticos de direita, de centro, de esquerda, artistas e outros profissionais. Em Ipatinga quase todos votaram no Gugudadá; em Coronel Fabriciano, no Narco Vícios Bizzarro; em Timóteo, no Dorlá Vocequis. Mas alguém se levanta:

- Ano passado meu fi mais veio formô sem ter aula.

Todos os professores pensaram nas manhãs e tardes que se mantiveram em suas casas planejando os blocos de estudos para os alunos. Em quantos e quantos outros professores fizeram algo semelhante. Pensaram nos três dias ou mais que gastavam para corrigir cem ou cento e cinquentas blocos de dez a vinte páginas cada. Nas aulas que gravaram e disponibilizaram no youtube explicando as matérias e/ou os conteúdos dos blocos. Em todas as manhãs e/ou tardes que não podiam sair de casa para estar à disposição dos alunos que nos questionassem algo por watzap. Chamadas que recebiam não apenas três ou quatro vezes aos domingos ou às onze da noite... Mas uma pessoa como essa não nos dá ouvidos então apenas disse:

- Parabéns para seu filho.

O homem sorri como se houvesse algum mérito exclusivo de seu filho.

- Ninguém na sua casa vai vacinar, certo? – Diz Benito. – Isso seria trair o presidente e o ministro da saúde? A vacina deve ser para os esquerdistas, terrarredondistas, crentes na ciência e na vacina, assim como os leitores daquelas coisas com amontoados de coisas escritas.

- A gente vâmu sim. O mito que se lasque. Num sô torcedô de político... Só destesto us bandídu disquerda. Sinum tomá vacina vou ficá duente e duente nun é digno diir a ingreja. Dizu Sinhô.

Um advogado repete:

- Em minha casa vamos todos vacinar, pois detesto apenas os bandidos de esquerda.

Sorrio triste e:

- Bem que os senhores se expressaram adequadamente. Odeiam a esquerda, mas amam os bandidos de direita.

Simultâneo aos murmurinhos irritados outro pobre de direta, uma enfermeira, se levanta e proclama:

- O pastor Davi Góes, de Fortaleza, ensinou que a vacina contra o covid-19, o CoronaVac causa câncer, altera o dna e tem hiv dentro dela. Ele aprendeu com Trump e líderes evangélicos dos Estados Unidos, principalmente com o pastor Tony Spell.

- No período de calor dos Estados Unidos o coronavírus se espalhou fortemente por lá. E o principal motivo, veja só, não foi o calor, mas pelas campanhas de desinformação promovidas pelo presidente e por pastores conservadores. – Diz uma professora de Ciências. – Spell promoveu reuniões quando Louisiana proibiu aglomerações e declarava nos salões cheios de gente e vírus: Somos contra as máscaras, contra o distanciamento social e contra a vacina.

Alguém fala na Sexta-Feira da Paixão e na Páscoa que começará amanhã. Os pobres de direita dizem coisas como “aleluia; glória a Deus; Sangue de Jesus...”. A esquerda se mantém calada. Enquanto isso outro advogado mostra uma foto com renomados petistas segurando um cartaz vermelho onde se diz quererem a saída do Boçalnato porque já tem dois anos que não roubamos os cofres públicos.

Como alguém com uma cabeça dessas vai à igreja? Em Levítico diz que são indignos... Mas respondo não expondo o ridículo dessa ironia:

- Gosto de dados, de verdades, fatos. Meu pai era advogado e me ensinou que se alguém é culpado tem que pagar. Se é inocente tem que ser libertado. Porém nunca usar mentiras para inocentar nem para culpar. Esse cartaz até o senhor deveria saber que é falso.

- Por isso que o ladrão de nove dedos foi condenado até no STJ. Provas!

- Ladrão de nove dedos... Isso não deveria condizer com a fala de um advogado.

- Sendo ele um aleijado é indigno de ir à igreja. O que o torna incapacitado de ir pro céu. Quem não irá pro céu jamais falará a verdade.

- Sobre isso não discutirei mais que o necessário. – O cronto todo já discute isso. – Lula foi condenado sem provas. Dilma foi retirada da presidência em plena infração à Constituição. Ontem revisaram os crimes contra eles, pois sabem que não há embasamento. Hoje foram anuladas as sentenças.

- Você é um petralha. – Fala um médico da Secretaria de Saúde de Fabriciano.

Aborrecimento é meu sentimento.

- Nunca pertenci, não pertenço e descreio que algum dia pertencerei a qualquer partido, apesar de ser de esquerda e não um pobre de direita.

Para um pouco para olhar os olhos de todos através da vídeoconferência.

- Há dois assuntos sendo discutidos. – Fala Benito. – Aulas na pandemia e dignidade dos enfermos. E há quem discuta assuntos paralelos, como religião e Semana Santa; nada condizentes com o momento. Para estes digo uma quadra:

Amanhã Ele não ressuscitará.

O coração cristão é sepultura, prisão.

De soltura não terá alvará.

D’Ele só feminista, bicha, preto têm visão.

Observo que pelo menos meia dúzia de pobres de direita saíram da reunião. 

Benito continua:

- Estes criminosos vão sobreviver, pois Cristo disse que este mundo é dos maus. Os senhores e seus comparsas continuarão a disseminar o mal porque não apresentam argumentos e só sabem dizer “Luladrão, Lulinha Friboi, petêêê” além de “só detestarem bandido de esquerda”; mesmo que não haja provas, o que os torna inocentes. Bandidos comprovados, os de direita, os senhores apoiam. Tenho certeza que não há álcool nem sabão capaz de limpar o sangue nas mãos e almas dos cúmplices, e esclareço que me refiro aos eleitores, dos quase trezentos mil assassinados pelo presidente através do covid-19.

Acima falou outra professora de Ciências. Abaixo outro professor de Português comenta meu poema. Nós três da mesma escola.

- Essa quadra é forte, mas ela é ainda mais pesada do que forte. Percebe-se que o autor está muito pessimista, amargo, deprimido, ansioso, desesperançado. Em suma, misantropo. Penso como ele. As pessoas não querem uma sociedade melhor. Almejam superiores e inferiores; uns com mais e muitos com menos. Elas querem que as coisas boas lhe aconteçam, mas que alguém faça isso por elas. Querem direitos trabalhistas, mas não querem lutar por isso. Desejam que alguém lhes dê de graça ou que alguém lute por elas. E com isso essas pessoas não têm nenhum compromisso. Talvez o Petê seja tão odiad...

- Aí! Tá falando um petralha.

- Não, não sou petista. Nunca fui petista. Já votei no PT assim como – envergonho-me disso, mas faz parte de meus erros, de minha história – já votei em PMDB e outro partido de direita. Hoje me defino como um sujeito de esquerda. Mas esse ódio exacerbado ao PT é porque as mudanças feitas não foram devidamente mostradas ao povo que isso é teve a participação popular. Viram que ganharam direitos sem entender que tal partido os conquistara com o apoio popular.

Mais dez pobres de direita saíram, mas o outro professor de Português retoma a palavra:

- As pessoas têm que lutar pelos seus direitos. E me entristece a gente ter que lutar por aquilo que deveria ser nosso; redizendo, é triste lutar por aquilo que deveria ser de todos. Oscar Wilde escreveu uma história chamada O Príncipe Feliz e em determinado momento a estátua do príncipe fala para a cotovia:

Você me fala de coisas incríveis. Mas o mais incrível de tudo é o sofrimento humano. Não há mistério maior que a miséria. 

Átila, um ator de teatro, diz:

- Também me sinto cansado, sem forças e sinto que a cada dia, em relação à política, estou entregando os pontos. Por outro lado, não sinto necessidade nenhuma de ter que me adaptar ou conformar com essa afirmação nojenta que o país vive.

Saiu o pai satisfeito com o filho que crê que tenha passado sozinho de ano, mas ainda restam uma dúzia mais ou menos de pobres de direita. Um terceiro professor de Português diz:

- Não sou PT, PSOL, PCB – PCB não, este virou partido boçalnariano –, PCdoB. Não sou de nenhum partido. Apesar de apartidário sou um sujeito de esquerda. Estou numa situação contraditória. Sinto-me completamente descrente do ser humano.

A segunda professora de Ciências continua com suas ideias e logo após ela Benito volta a falar:

- Até já fiz uma piada que em 2020 achávamos que a sociedade evoluiria com a pandemia, porém em 2021 concluímos que a única coisa que evoluiu foi o vírus. As pessoas, se não continuam com as mesmas ideias, regrediram.

Metade das pessoas dos pobres de direita que ainda restavam saíram.

- Eu escrevo! Dou aula e escrevo com o primeiro objetivo de não me tornar um deles. Tenho uma esperança que uma faísca atinja alguém e essa pessoa consiga fazer aquilo que não demos contar de realizar. – Os pobres de direita que ainda estavam se foram. – Mas o principal motivo de ainda lutar é para eu continuar diferente deles. – Uma pausa olhando para os, mais ou menos, cento e cinquenta que ainda continuam na discussão. – Mas a sociedade não mudou.

O Benito se cala e durante as próximas meia-hora os que ficaram falam coisas pertinentes. Mais importante, discutem as pautas a serem levadas nas reuniões com as Secretarias de Educação das três cidades. Benito apenas acrescenta que não adianta os alunos terem aulas remotas em casa enquanto os professores sejam obrigados a irem às escolas. Muitos vão de ônibus; ocorrendo assim aglomerações em plena zona roxa.

Com o que foi dito os Sindicatos dos Professores ou dos Servidores Públicos das três cidades montaram suas pautas para os diálogos com as Secretarias de Educação. Sem mais assuntos a reunião se dissolve. Aproveito para olhar pela janela de meu quarto e vejo apenas a noite sobre o telhado da casa vizinha. Mas entre o telhado e eu há meus pezinhos de antúrios com suas seis pseudoflores vermelhas e mais três folhas quase prontas para se abrirem.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Jeane Lindenberg, Carlos S. Passos, Nívea Paula e Bella Ramalho.


¹ Portadores de necessidades especiais são rejeitados por Deus; eis o ensinamento em Levítico 21,18ss.

 

Recomendo a leitura de:

O decreto, o Protocolo de Medidas de Proteção e Restrição Sanitárias, a história do Príncipe Feliz que antecedem ou apararem no cronto mais as fontes de pesquisas que aparecem abaixo.

 

 G1. Pastor que disse que CoronaVac ‘tem hiv dentro dela’ é intimado a depor pelo MPCE. Disponível https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2020/12/22/pastor-que-disse-que-coronavac-tem-hiv-dentro-dela-e-intimado-a-depor-pelo-mpce.ghtml . Acesso 25 Jan 2021.

TERRA. Por que evangélicos americanos resistem à vacina contra covid-19. Disponível https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/por-que-evangelicos-americanos-resistem-a-vacina-contra-covid-19,9e035eb70414ec2322dd520add785cd9r5hjysdf.html . Acesso 25 Jan 2021.

 


Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Boçalnato nazista: publicada no fb em 31/3/21 por Reginaldo Silveira.

Imagem com texto: enviada por watzap pelo ator Átila.

Foto do autor pelo autor.

 

Escrito entre os dias 24 de janeiro e 04 de abril de 2021.

domingo, 28 de março de 2021

CARTA AOS QUERIDOS


 Ipatinga, dd de mm de 2021


J.G.,

 

Sem nenhuma brincadeira. Eu te acho lindo, iluminante como o sol. Realmente! Sua presença é muito afável. Tenho uma imensa satisfação toda vez que você está aqui.

Apesar de meu marasmo, do meu querer ficar quieto; não querer sair, ficar quietinho... Sinto-me satisfeito com sua presença. Quando você está aqui é tão agradável. Tão agradável quanto ter um livro.

Uma pessoa que conhecemos e gostamos postou no Caralivro um meme, acho, de dois coelhos. Um diz “Eu me apaixono fácil” e o outro responde “Você é carente”. No início compreendi carente como insatisfeito e a pessoa insatisfeita é a única que nunca pode ser ajudada, pois nada nem ninguém lhe satisfaz. Depois entendi carente como carente mesmo. Rerrê. E escrevi na postagem:

O carente é difícil para alguém poder satisfazer. Se conseguir sentir-se bem consigo mesmo é o melhor caminho. Ser misantropo é outro caminho, mas não é bom.

O que não disse é que sou ou estou misantropo. Não foi totalmente uma escolha direta, mas uma série de pequenas observações sobre o mundo e uma série de pequenas escolhas de como reagir somada a outra série de pequenas contrarreações me conduziram à aversão à sociedade. E consequentemente à melancolia. Pois a misantropismo é isso: melancolia e querer distância do ser humano. Ou será melancolia por querer distância das outras pessoas? Não sei. Não sei. Mas estou desanimado com a civilização.

Emília e Visconde de Sabugosa têm uma discussão sobre a redução no tamanho das pessoas no capítulo Revelações do livro A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato.

A “Humanidade clássica”, como disse Visconde, construiu a civilização. Ou seja, “casas, máquinas, estradas, veículos, ideias” e tudo isso se perde com a redução no tamanho dos humanos. Na guerra na Rússia muitos soldados morreram congelados, mas Emília não se horrorizou com essas mortes, pois já estavam matando-se. “Os homens não viam outra solução além da guerra – isto é, matar, matar, matar, destruir todas as coisas criadas pela própria civilização. [...] Essa tal civilização havia falhado. Havia enveredado por um beco sem saída – e a saída que achava qual era? Suicidar-se a tiros de canhão.”.

Sabe, um livro, pra mim, é uma das coisas mais maravilhosas. Mesmo que ele esteja fechado, ao meu lado. A presença do livro me dá uma tranquilidade. Produz-me percepções e sensações sobre a vida. Como esse poema de Fernando Pessoa:

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo.

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis

As paixões violentas por coisa nenhuma

Os amores intensos por o suposto em alguém.

Essas coisas todas –

Essas e o que falta nelas eternamente –.

Tudo isso faz um cansaço.

Este cansaço.

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada –

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles.

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser.

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço.

Não me sinto cansado. Sinto desânimo. Disse alguns dias atrás o que venho pensando há meses. Para me sentir cansado deveria ter feito muito mais. Tenho desânimo porque minhas façanhas não podem ser chamadas de muitas; e são tão infecundas quanto a satisfação pelo cansaço de Pessoa. E neste momento que estou tratando-me de depressão, de ansiedade e de covid às vezes não consigo ler; não tenho energia para ler. Mas ele, o livro, está ali; dá-me um relaxamento.

Ou quando olho para eles na prateleira sinto-me renovado. Não sei explicar. É algo semelhante aos cachorrinhos, à gatinha e aos antúrios que tenho em casa. Eles dão um ânimo novo pra gente... Uma força!

A pessoa está tão desgastada e olha para um livro e ele te energiza. Se fechado o livro já faz assim, imagine aberto... Lendo!

 

Abraços!

 

RL

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Julian A. Cabral, Girvany de Morais e João F. Alcino.

 

Recomendo a leitura do livro e do poema indicado no texto.

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

 

Escrito no início da linda manhã de sábado do dia 30 de janeiro de 2021. Trabalhado entre os dias 20 e 28 de março do mesmo ano.

domingo, 21 de março de 2021

A ARTE PODE DAR PAZ


ou O QUE SABE UMA ÁRVORE

 

 

A primeira parte dessa história pode ser lida em:

http://artedoartista.blogspot.com/2021/03/ha-o-que-vale-mais-do-que-as-pessoas.html

 

Esta história se passa em Ipatinga. Após um sábado adormecido e nublado, mas num domingo amanhecido e quase ensolarado. Aproveitando o silêncio do domingo coloquei algo para comer e duas cervejas numa bolsa térmica, peguei uns livros, meu celular e fui de bicicleta ao Centro de Oncologia e Radioisótopos. Se tinha que ir seria hoje ou continuaria enrolando. Sim, senti-me muito fatigado ao chegar, mas queria fazer um exercício. Entrei e, claro, não consegui consulta para aquele dia. Só fui porque me sentia corajoso o suficiente. Marquei para duas semanas depois.

Em frente há muitas árvores. Uma delas me chamou a atenção. Parece comigo. Sou uma árvore. Sentei-me na grama, de frente para ela, li umas páginas de A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato, e fiquei a pensar no que Emília disse sobre os animais saberem arrumar-se num mundo tão grande:

Também saberemos. Sabem porque foram aprendendo. Nós também aprenderemos, por que não? A professora é uma velha feroz, que não perdoa aos lerdos e preguiçosos. Chama-se Dona Seleção.

Comparei essa fala com a esperança de muitos em 2020: A sociedade vai aprender muito com essa pandemia. Mas em 2021 o que aprendemos foi: o vírus evolui e a sociedade não. E o que mais me dói é não me surpreender. Um ano de covid matou quase mil pessoas a mais que trinta e sete anos de aids. E há mais pessoas temendo o HIV do que o SARS-CoV-2. Dona Seleção, não demore a entrar em ação, por favor.

Olho para a árvore e ouço o que muitos pensam de mim: É um bobo, um tolo coberto de lodo. Sou uma árvore; posso ter musgo, não lodo. Você está cansado! Dizem. Mas não. Cansaço seria se tivesse feito muita coisa pela humanidade. E o que faço não posso dizer que é tanto assim. Eu faço, mas... é improdutivo porque as pessoas não mudam. Não mudam. Pode até ser que alguém mude; realmente aprenda. Isso acho até possível, mas são casos extremamente raros. Um exemplo: um delegado aterrorizou por muitos anos, bem mais de uma década, os usuários de maconha. No pejorativo: “os maconheiro”. – Dou uma risadinha para mim mesmo. – Porém a filha dele ficou enferma e o tratamento precisava de THC. Aí ele mudou... Ai, que romântico. Ele mudou. Parou de perseguir os usuários de maconha. Mudou por...caria nenhuma! É interesse, egoísmo! Porque teria mudado se antes tivesse estudado para que serve a maconha; para que serve o THC. Mas ele não teve interesse. Preferia continuar com sua ignorância e seus preconceitos. Só depois, por ser mercantilista e calculista, passou a agir ao contrário. Então o delegado não mudou. É apenas mais um interesseiro que vai transferir seus ódios e ignorâncias para outros grupos de pessoas. 

Olho outra vez para mim na árvore e faço pelo watzap uma vídeo-chamada para meu filho.

- Oi, Quide! Ontem sua mãe me contou algo que me deixou orgulhoso de você. Quer que eu te conte o que pensei sobre o assunto ou acha que estarei intrometendo-me em sua vida? – Depois que falei pensei “estou sendo indiscreto”.

- Conte!

- Se achar que é intromissão eu me calo...

- Sei lá. – Diz e ri da dúvida do pai.

Um esclarecimento. Sou Ôldi, pai adotivo de Quide. Alguns meses atrás saiu de viagem pelo Sul da América e não me disse o porquê. Um longo tempo depois fiquei sabendo a razão. Ele fora em busca dos pais verdadeiros dele. Achei muito bom ele fazer isso; muito bom mesmo. O que me dói é ele me ver como um pai falso.

Mas voltemos à história:

- A coisa mais importante que ela falou fortaleceu minha concepção de que você fará a diferença na cidade onde viver. Posso continuar? Creio que será curto o que vou dizer daqui pra frente.

- Fale logo!

Desconfortável por chamar o outro de pai como se ele fosse o verdadeiro:

- Você falou para seu – engoli em seco – pai algo assim: “Tenho dinheiro, mas não sei o que fazer com ele, pois não me dá paz.”. Realmente, de você só posso esperar pensamentos inteligentes, dignos. Dinheiro não dá paz. Mas não dá para viver sem trabalhar. Então o que fazer? Trabalhar nesse serviço chato e com a grana que entrar comprar livros, pagar uns estudos, consumir as artes cinematográficas, teatrais, musicais etc. Mas o mais importante: A arte pode dar paz. – Meu filho é malabarista, artista de rua. – Que tal tirar meia hora por semana ou um dia sim e outro não para ir ao faro, ou praça ou ao parque e malabarear apenas para fazer as pessoas sorrirem, aliviarem de seus pesos.

- Minha mãe é bem intrometida.

- Tem gente que fará cara de nojo. – Ignoro a fala dele e continuo: Outros irão parar por alguns segundos para ver. Outros vão continuar andando enquanto olham sua arte. Se for de manhã dará energia para enfrentar o dia. Se for no final da tarde dará alívio. No caso “dos cara de nojo”, aí é problema dele não se sentir melhor. Nos dois casos seguintes você lhes terá dado paz.

- Mas fazer o quê? – Agora é ele que ignora o que eu disse. – Minha mãe não mudará mais.

- Nós, os velhos, somos intrometidos...

Uma pausa para bebermos um gole de cerveja e responde aos meus comentários:

- Sim, falei isso pro meu pai. Mas meu peso é outro. A minha cruz é outra.

- Por isso pedi sua autorização para ingerir. – Mais um gole de cerveja. – Qual é sua cruz?

- Não acho que preciso falar para você.

- Tranquilo.

- Não falo isso pra ninguém. Não me leve a mal.

- Como disse, não me quero imiscuir. – Mas me senti mal por não confiar em mim. – Apenar dizer que te quero bem, muchacho. Não me ofendo.

- Eu sei e te amo por isso, amigo. – Amigo!?! Como isso me magoa.

- Cada qual tem seus segredos. Coisas que prefere guardar para ti.

- Isso!

- Acha que tem coisas que conto para os outros? Nem para a psicóloga conto tudo...

Ôldi muda de assunto:

- Vou trabalhar agora. Estou fazendo a revisão em português de um livro que se chama Magnânima, de Flávia Frazão... Quando puder a gente conversa. Abraço! – Uma pausa e acrescento: Só não fica chateado com sua mãe. Pois ela me fez feliz ao dizer-me sua visão do dinheiro. Tenha um bom trabalho.

- Gracias!

- Só me conte o que se sentir confortável ou precisar. Vou indo, pois amanhã também vou trabalhar. Será sábado letivo e darei aula remota.

- Está bom assim. – Sua voz parece levemente irritada, mas continuo:

- Só recomendo uma coisa: Não se cale se precisar falar. Agora peço licença porque vou para casa me dedicar a revisar o livro e depois gravar um vídeo aula para amanhã passar para meus alunos e não poderei mais conversar no momento. Abraços!

Mas o que faço depois de desligar a vídeo-chamada é olhar para a árvore, tomar um gole da cerveja e soluçar. Paro um pouco meu soluço e acesso ao youtube. O primeiro que aparece é As Vantagens de Ser Bobo, de Clarice Lispector. Do bastante que é dito ouço e reflito apenas:

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. Mas não estou tocando nem o coração do meu filho, por mais que o veja e ouça dentro de mim. O bobo é capaz de ficar sentando, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando”. Realmente, já se passou uma hora que a conversa terminou, mas confesso que estou mais sentindo do que pensando. Sou um bobo e como tal confio na palavra das pessoas e por isso sou apunhalado tantas vezes por aqueles que menos espero. Realmente reclamo pouco, mas muito exclamo. E quando reclamo sobeja exclamações, interjeições e se não pergunto é porque desvalorizo as respostas que me darão. Lispector fala que os bobos provocam amor. Não sei. Não sei. Mas como bobo amo em excesso. E só o amor faz o bobo. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Se venci ou vencerei nunca saberei assim como esta árvore.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Aléxia Silva, Maria Cloenes, Manoela S. Bicalho, Ana L. Pena, Diony Stefano e Girvany A. Morais.

 

Recomendo a leitura dos livros e áudios citados no cronto.

 


Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Árvore com musgo: foto de Marcelo Soares Marinho.

Foto do autor pelo autor.

 

Escrito entre os dias 12 de dezembro de 2020 e 21 de março de 2021.

domingo, 14 de março de 2021

FOI COMPRADO A DINHEIRO

 

PERIGO!

Este cronto é o quinto de uma novena a pensar criticamente a Bíblia. Se isso te amedronta pare por aqui. Está avisade. Se continuar será por sua conta e risco. Não me responsabilizo pelo desconforto que sentirá, pois é difícil não ser misantropo quando se tem neurônios funcionais.

 

Se alguém ferir seu escravo ou escrava a pauladas, e o ferido lhe morrer nas mãos, aquele será punido. Se sobreviver um dia ou dois, não será punido, porque foi comprado a dinheiro.

(Êxodo 21, 20-21)¹.

 

Pais e professores de Ipatinga, Fabriciano e Timóteo mais alguns membros do Sindicato dos Servidores Públicos de Timóteo discutem numa reunião onlaine pelo “gúlgu míti”. Os temas são ensino presencial ou ensino remoto e desajuste salarial. Os participantes variam de cinquenta a setenta. Após meia hora de discussão com muitos “Só Jesus na causa”, “Deus tenha piedade”, “Deus nos proteja”, “O pastor disse”, “Deus te conforte”, “Deus tudo pode”, “Só Jesus pra nos salvar” e outras tantas interjeições religiosas e poucas pontuações relevantes, tomo a fala:

- Sob meu telhado o tamborilar da chuva me consola. Sob o alheio telhado a chuva desola. Cada um por si e Deus por todos?

Paro um instante para pensarem “O que isso tem a ver com a reunião” e continuo:

- Na calçada do outro lado da rua, não em frente aonde moro, mas uns quinze ou vinte metros, talvez trinta à esquerda uma lona de três metros de comprimento, um e meio ou menos de largura e “parede” de dois metros de altura. Dentro, o chão de barro foi forrado de estrado e amaciado por tapetes velhos. Caixas de madeira e plástico guardavam roupas e comidas. O curioso é que ao passar por lá eu via uma casa. Sim, casa bem cuidada. A moradora era uma mulher negra heterossexual traficante chinfrim de pedra. Sempre com um facão na cintura.

Uma professora diz: “Deus é conosco”. Após uma pausa retomo a palavra:

- No Caralivro tenho visto postagens referente a um rapaz que chora por ser homem, branco, heterossexual e ter dinheiro. Uma dessas postagens disse que o garoto é cantor ator filho de um cantor ator. Disso constato a presença de classes sociais reais e classes sociais hipotéticas.

Deixo-os refletir o que eu disse. Mas a maioria prefere ter a cara de “num tô intendo nada”.

- Primeira classe: homem, branco, hétero, com dinheiro. Segunda classe: homem, branco, hétero. Terceira classe: homem, branco. Quarta classe: homem. Quinta classe: homem, hétero, negro, com dinheiro. Sexta classe: homem, hétero, negro.

Observo pela tela do meu celular os poucos rostos que posso ver:

- Repare que para as três primeiras classes ser branco é a segunda coisa mais importante e que na quinta e na sexta classe ser hétero é o segundo mais importante fator enquanto ser negro é o terceiro.

Os parágrafos abaixo estão na mesma fala, mas as separo no texto escrito para permitir a quem me ler ter algumas pausas para pensar no que digo.

- Sétima classe: homem, negro; aqui foi ignorado a heterossexualidade, porque isso pertence à segunda classe e a oitava classe seria ser homem, mas isso faz parte da quarta classe. Aí tem um paradoxo ou ao menos uma curiosidade. Ser homem e negro é possibilidade, mas ser negro e homem não tem relevância. Então oitava classe não é possibilidade.

- Mas a nona classe existe: mulher, branca, com dinheiro, heterossexual.

- Veja que para a mulher heterossexualidade é o menos importante porque ainda vigora inconsciente a ideia que mulher não tem sexualidade. Décima classe: mulher, branca, com dinheiro. Décima primeira classe: mulher, branca.

- Se mulher tivesse real importância a décima segunda classe seria essa.

- Ser mulher, com dinheiro, negra, heterossexual quase chega a ser uma classe social se o segundo fator existir. – Pense então como é quando qualquer uma dessas características vai diminuindo.

- Ignoro a causa do lamento do garoto. Se ele inconscientemente vislumbra suas vantagens. Se promove autopropaganda. Se conscientemente reconhece suas vantagens.

- Essa última possibilidade pontuada acima me leva a pensar se continuará a chorar suas vantagens até o último suspiro; se fará algo que remova a consciência de seu pesar; se fará algo para modificar o mundo. Ou se a abafará...

- Você está falando e não está chegando ao ponto.

- Oh! Estou sim. Pensem nelas, por gentileza... Permita-me continuar.

- Sei, sei. Modificar o mundo é impossível. Mas é possível usar suas vantagens para combater as desvantagens. É assim que muito ateus e poucos religiosos dizem e praticam: Temos a obrigação de estender a mão a quem tem fome. O inverso também ocorre. Muitos religiosos e poucos ateus dizem e praticam: Há que multiplicar a comida de quem não tem...

- Já foi amplamente dito por grandes intelectuais e minha insignificância repete “Pessoas desesperadas viram trabalhadores ideais e cidadãos desorientados”. Como?

- Após minha graduação fiquei quase dois anos desempregando; trabalhei por pouco mais de um ano e fiquei desempregado. Em cada um dos dois momentos sem trabalho entreguei centenas de currículos. Minha sorte foi ter sido convocado a efetivar-me como professor em Timóteo devido a um concurso prestado ainda no segundo semestre na universidade. Devo ressaltar que estava quase velho quando me graduei. Faltava poucos anos para sair dos quarenta.

- Hoje, será que isso deixa gente mais velha com esperança? Só se for ingênuo. Tiraram e continuam eliminando os direitos trabalhistas.

- Parabéns por sua posse.

- Obrigado!

- Nós gostamos muito de nossos funcionários. Queremos tão bem que os manteremos aqui até a morte. Vocês nunca se aposentarão.

- Essa é a realidade. Sem previdência social. E a PEC 186 congelou até 2036 os reajustes salariais dos professores, médicos, enfermeiros, policiais e outras categorias.

- Sou advogado. Não fui atingido.

- O senhor escolheu bem a carreira. Advogado não é funcionário público. O presidente ainda não arranjou um meio direto de prejudica-los. – Comecei a fala inicial deste parágrafo com ironia e a fecho com um sorriso debochado. – A PEC 186 congela os reajustes salariais de professores, médicos, enfermeiras, policiais e outras categorias. Mas seu dinheiro vem de nós – professores, médicos, policias etc. – e não teremos como contratar seus serviços. – Dou uma pausa para apreciar a cara do eleitor do Boçalnato. – Também lojistas, engenheiros e outros trabalhadores que igualmente receberiam da gente não poderão contratar seus serviços porque também não poderemos pagá-los. – Falo sério, com irritação, mas em tom frio. – Ao fim estamos todos sendo mortos pelo presidente. Está ocorrendo cortes nos programas sociais e eliminado o SUS para os convênios médicos serem sua única opção; e como ficarão caros.

O advogado eleitor do Boçalnato em silêncio me diz muito com seu olhar irritado. E continuo:

- Veja o auto custo do ensino; lembre-se querem acabar com a escola pública e já as estão sucateando e desmantelando os professores. Tenho a impressão que um filho seu estuda no Tiradentes. Os professores dele trabalham numa escola pública militar. – Tenho asco da estupidez e crueldade dos boçalnariano. – Em Timóteo os professores da rede pública municipal querem trabalhar, mas de modo remoto por causa do covid. A prefeitura parece querer: “trabalhe presencialmente ou então não trabalhe”, pois tem impedido de todas as formas, até judicialmente, o ensino remoto. Em Ipatinga a prefeitura não cumpre o próprio protocolo de proteção ao covid nas escolas. Como prova um documento feito por professoras em diversas escolas e entregues à deputada Beatriz Cerqueira que o apresentou numa reunião ordinária da Câmara, em Belo Horizonte.

Uma mãe diz e a respondo:

- Ensino remoto não é bom.

- O ensino presencial é o ideal, mas não ter aula é pior que aula remota.

- Mas voltemos ao pensamento ficar seis meses sem emprego. No desespero está bom qualquer salário para fazer qualquer coisa em qualquer condição, mesmo que longe de sua família e trocando sua casa própria ou digna por uma tenda na calçada...

Como fiz acima – dar espaços para quem ler o cronto pensar – refaço:

- Com tudo isso como se preocupar com os direitos das minorias se busca emprego? Como se preocupar com os problemas ambientais se tem contas a pagar? Como se preocupar com reforma agrária se precisa alimentar a si e aos filhos? Como pensar nos refugiados se nem comprar remédios pode? E como pensar a longo prazo se seus problemas são para agora?

- A casa da usuária traficante de crack foi queimada e a mulher desaparecida. Não vi como ocorreu. Só os pedaços da lona derretida, o carvão das caixas e a cinza dos tapetes.

- Sei que o marido dela tentou furtar, mas foi pego e disseram que roubou. Preste atenção! Tentou furtar e afirmaram que roubou. Entendeu?

- Na cadeia ele aprendeu com os outros pretos que todo preto tem direito a trabalho, moradia e laser. Trabalhar no tráfico, morar na favela e férias na prisão. Mas seu aprendizado não durou muito. Numa rebelião ele e outros pretos morreram. Os pretos sobreviventes e os brancos foram punidos.

Paro um pouco a reunião para conversar com quem está me lendo:

Mas quem ensinou isso aos pretos? Quem?!? Como combater esse conceito? Digam-me, por favor!

Quem matou Marielle Franco? 14 de março de 2021 se completam três anos que foi assassinada uma militante dos direitos humanos, das mulheres negras e da diversidade. E os brancos que a mataram - isso se sabe - continuam livres, leves e soltos. Ai, como dói o que Rubem Leite diz:

Há tanto peso no coração

Só se sente leve

Quem não dá a mão

Quem ao outro nunca se leve.

Lima Barreto.

Cesare Lombroso! Um médico italiano “comprovou cientificamente” que o formato da cabeça, a posição do redemoinho dos cabelos e a etnia mostram a inteligência e o grau de violência de cada pessoa. Ele foi o estopim para que médicos como Cipriano de Freitas publicasse mesmo sem comprovação científica a depravação física, mental e moral dos negros e mestiços. Souza e Cruz poetizou que o negro está preso entre quatro paredes: a igreja, a ciência, a sociedade e as leis. A igreja que diz que negro não tem alma; a ciência falei acima; a sociedade que os vê como inferiores ou não os vê...; e as leis que vigoravam no século XIX contra eles e que apesar de não mais existirem deixou sequelas.

Sinceramente! Não estou com vontade de voltar à reunião “onláine”, pois minha misantropia deu um grito então desisti, pois sei que não responderão. Isso exige cérebro e boçalnariano, se tem, não o utiliza. Sem me despedi, saí. Sei que voltearão, voltearão e não irão ao cerne da questão. A segunda pergunta deixo para quem me ler, pois se chegou até aqui tem estômago para aguentar tanta amarga acidez e cérebro para pensar.

 

 

 

A legitimidade da escravidão é o tema de Êxodo 21, 20s. Observe que não importa a morte do escravo, desde que seja no dia seguinte...

 

Recomendo a leitura de:

“Lavada Carne Fraca” e “Lockdown”, ambos de Glaussim:

https://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/7197116

https://www.recantodasletras.com.br/contos/7204825

“O Infindável Museu das Coisas Efêmeras”, de Éder Rodrigues. Pode ser adquirido:

https://www.facebook.com/ederdelrodrigues.literatura/about_contact_and_basic_info

“Instalações Subterrâneas”, Bispo Filho:

http://bispofilho.blogspot.com/2021/03/instalacoes-subterraneas.html

 


Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

LOURENÇO, Ana. Nova Proposta de Redação: a persistência do Racismo. Disponível  https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/redacao-para-o-enem-e-vestibular/nova-proposta-de-redacao-a-persistencia-do-racismo/ . Acesso 14 Mar 2021.

Capa do livro Lima Barreto: triste visionário, de Lilian Moritz Schwarcz. Foto do autor do cronto.

Foto do autor pelo autor.

 

Escrito entre 05 de fevereiro e 14 de março de 2021.