segunda-feira, 23 de abril de 2012

A BELEZA DA QUEDA


Obax anafisa.


No Centro de Ipatinga na manhã de sol do Dia do Índio eu atravesso o cruzamento das ruas Sabará com Ouro Preto pensando em nem sei, levando na sinistra uma sacolinha e na destra eu me levo. Ou tento. Piso na calçada e dou meu segundo passo num desequilibro que faz meu corpo se aprumar. Ou tentar. Curiosamente, porém, meu corpo continua caindo pondo-me a pensar no que sei. Ou quase. Junto, o espanto: “Como? Eu não voltei a me equilibrar? Por que continuo caindo? Meu chinelo soltou a correia no tropeço, que chato. Que coisa desagradável é cair. Ai, que vergonha! Por que ter vergonha de cair? Tolice isso!”. Na lentidão meu corpo caiu proporcional à quantidade de pensamentos. Vi o cimento cinza sujo da calçada se aproximar. Vi, ou imaginei, minha cara se fazer ridícula ao cair. Engraçado, na verdade o corpo é que se aproxima do chão, mas a sensação é o chão se aproximar do corpo. Meus braços, sem que eu percebesse, se posicionaram para me proteger. Que bom que eu não caí feito uma jaca, mas sim com suavidade e leveza.
Na tampa do bueiro na calçada, um quebrado.
Nas proximidades, olham para mim os funcionários de uma loja, duas putas, uma jovem e a outra não, já prontas para o trabalho e também o dono de um boteco e seu cliente. Eu, levemente sem graça, me mantenho no chão por uns dois segundos e antes de começar a me levantar as garotas me perguntam se estou machucado. Digo que não e a mais jovem começa a rir. Não me ofende. Percebo que riu por estar aliviada – Na medida em que alguém se sente bem pelo não ferimento de um estranho. – O cliente do bar vejo ao meu lado, pronto para me socorrer e perguntando também se estou machucado ou se preciso de ajuda. O mesmo perguntam o dono do boteco e, do outro lado da rua, os funcionários da loja. A todos agradeço e digo que não. Ponho no lugar a tirinha do chinelo e vou embora. Muitos metros depois me chamam. Olho para ver o que querem e as garotas me dizem “esqueceu suas chaves”. Volto para pegar e o cliente do boteco vem até mim com elas nas mãos. Somente posso lhe agradecer e sorrir.
Na tampa do bueiro na calçada, um buraco. Que bom que não quebrei o pé. De volta para casa constato um machucadinho no tornozelo tão grande quanto um grão de areia e nas palmas, mais na direita, pinicações. E tudo me faz sorrir. Se algumas pessoas têm ruindade, todas são boas.


Ofereço como presente de aniversário à
José B. Ferreira Filho, Mª José Anastácio e Juliana Furtado.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

Escrito nos dias 22 e 23 abril de 2012.

Um comentário:

Fernando Viana disse...

Já perdi as contas de quantas vezes caí, ou tropecei, ou simplesmente me desequilibrei em público. Engraçado é que ficamos com vergonha por bobagem, afinal todos estamos sujeitos ao desequilíbrio.

Abraço!