sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Caminhos Gerais

Lançamento da revista Caminhos Gerais em todas as bancas do Vale do Aço.
Reportagem sobre a história da siderurgia mineira com pesquisa de grande impacto, Entrevista com a gerente cultural Marilene de Lucca Reportagem com os ilustradores e desenhistas do Vale do Aço e reportagem sobre uma tragédia ambiental onde um mar virou deserto. Em todas as Bancas.
Obrigado!

Mário Carvalho Neto
MCN COMUNICAÇÃO E EDITORA
Av. Dr. Pedro Nolasco, 480 - Centro
35170.300 Coronel Fabriciano
Fones: 31-3842 4193 - 9966 6920

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

HISTÓRIA

Rubem Leite – 29/6 à 19/11 de 2009

Louvada e honrada seja a Bandeira do Brasil e que ela nos ensine a respeitar a Pátria.

E o que é Pátria senão a população.

População voltada para um centro e com um centro “alimentando” a população.

É uma bela praça. O sol está para se por num dia parado numa avenida cheia. Muitas árvores e até passarinhos cantam. Canta também um pneu.

- Benito! Como vai?

- Sou soldado de uma guerra particular. Carrego minha bandeira. E como queria aliados. Mas sou homem. E cada qual nasce sozinho. E morre sozinho. Sendo homem nasci de um ser estranho, diferente. Nasci de uma mulher. As meninas nascem de uma igual, de um ser conhecido.

- O que cê tá falando?

- Eu era religioso e bom. Ou qualquer coisa assim. Estou com vocês fazendo o bem. Eu. Eu era qualquer coisa.

- Ce não tá passando bem, né?

- E o que temos em comum? O que unifica o homem e a mulher? O pai. Se uma mulher nasce de uma igual. Se um homem nasce de um ser estranho. Ambos têm em comum o pai, que é homem. O pai é diferente da filha. O pai é igual ao filho. Mas a participação paterna é mínima em relação à materna.

- Ce tá me assustando.

- Que Deus não nos castigue. É. Vocês não serão maltratados. Nem eu. E, qualquer coisa, estou aqui para vocês e por Deus. E depois, estou com o espelho que filma seres da qualidade de vocês.

- Ah! Você me dá licença, mas tenho um compromisso, tá.

- Sou soldado. Carrego minha bandeira. Sou minha própria porta bandeira e meu próprio mestre sala. Sou soldado e me vejo com Letítia. Tentamos ser felizes, mas não consegui. Sempre a vi com seu marido, um meu igual. Sempre me via traindo meu companheiro. Um meu igual por uma estranha. Não a satisfiz; não que eu fosse incompetente. Não me satisfiz; não que fosse impotente. A gente se afastou e tornei-me sórdido com o tempo. Mas não vou dizer que foi a vida. Não! Sempre que ouço isso penso que é desculpa. Sei que é. Eu não sou covarde. Assumo o que sou e o que faço. Ontem, ou será anteontem? Bem, ela me viu. Acenou para mim. Rindo. Conversamos e ela não quis a minha cama. Séria. Eu vejo. Como poderia ser. Seria assim. Não seria assim. Seria. Não seria. Vejo-me agindo assim. É assim que a gente age ou deveria agir quando trocados ou relegados. Decepções, mágoas, vidas encontradas, risos, dores. Vivendo.

Sentei num banco. Atrás de um mim um pássaro alçou vôo. Minha vista está enevoada, detrás de um véu. Nada vejo além de Letítia; nada ouço além de nossas palavras. Caminho pela praça sem nada me deter.

Vou para casa. Minha dor é minha e ninguém se interessa por ela. E quando se interessam quantos pensam em mim e quantos mais se interessam pelo mórbido? Vou para casa. A vida continua. Doa a quem doer, a vida continua.


A Cia. Bruta de Teatro por meio da Lei de Incentivo à Cultura e patrocínio da Usiminas tem o prazer de convidar para a estréia do espetáculo "A Marca do Corvo".
Este espetáculo é resultado da bolsa concedida ao Grupo Tralha de Teatro que nos últimos meses viveu um processo de criação com direção de Gessé Rosa e preparo corporal de Patrícia Leitão.

Esperamos ansiosamente por sua presença!

Atenciosamente,

Franklim Drumond
Secretário - Assessor de Comunicação

Cia Bruta de Teatro
Ipatinga | MG
31 | 38250807 | 85364938

terça-feira, 17 de novembro de 2009

LUA E VÊNUS

Rubem Leite

Versos escritos e mexidos em

13-7-04 (04:58h AM); 19-8-04; 17-11-09

Gandhi, alma sublime,

Que só de ler sobre ele

Começo a chorar.

A Lua nua num sorriso crescente para mim

Vênus, igualmente pálida, nem pisca

Para ninguém.

Volto a deitar

Mas não paro de pensar

Volto para vê-las

Que pena. Foram embora

E eu, só, no meu quarto.

Mas eis que vejo Vênus

Se despir do véu

Que envolve o céu

E olha para mim.

Não sorri nem pisca.

Serena!

Será amor à vista?

Sem serem palavras ao vento

Quero poder ouvir alguém repetir

(E acredito um dia

Poder ser um Gandhi também):

“Detesto os privilégios e monopólios.

O que não pode ser de todos,

Não o quero para mim”.

Quero que minhas lágrimas de emoção

Não sejam vãs.

Quero que na humanidade sejam veras

Tais palavras

No coração

Na ação.

O DIA

Rubem Leite – 15-16\11\09

Escrevo ouvindo Ronda Alla Turca, de Mozart; e outras músicas.

- “Miriiinha! Vem para casa”. Chama dona Ringa.

- Essa menina é estranha. Parece, Deus me livre e guarde, sapatão.

- Mããe!

- Ai, filha, desculpe. Mas ela só faz coisa de homem. É correr, é pular de bicicleta, é jogar bola.

Enquanto isso, a garota perseguia um moleque de quatorze, dois anos mais velho que ela. Acabaram de trocar socos e ele perdia.

- Miriiiiinha!

Mas ela se encontrava longe e como o rapazinho conseguiu chegar em casa Mirinha resolveu voltar para sua. Passando pela praça viu o Dr. Lucas saindo da igreja após o Ângelus. Homem bonito de quase quarenta anos, médico assediado pelas mulheres. De vez enquando ela escuta no salão da mãe as clientes falando que iriam sair com ele no próximo fim de semana e que dessa vez o fisgariam. Mas nunca conseguiram. – Engraçado! Ouvindo os pensamentos de Mirinha penso que a vida é um rio. Homens são fisgados e mulheres são peixes carnívoros. Será a vida assim? – Voltando à menina: Pela primeira vez alguma coisa se mexeu em Mirinha. Algo no Dr. Lucas a fez sentir estranha. Algo estranhamente gostoso. Enquanto conversava com Dr. Rimo, o advogado, chegou um rapaz. Lindo. Vestia terno. Muito alto, forte, tinha uns vinte anos, olhos e cabelos cacheados da cor do mel, lábios grossos e vermelhos. Se algo no Dr. Lucas mexeu em Mirinha uma coisa mais, muito mais forte chegou até a fazer um estrondo dentro de Mirinha. Sentiu um calor úmido em um lugar pouco observado por ela até então. Entram os dois no carro do médico.

- Que isso, Mirinha? Por que está vermelha desse jeito?

- “É que corri muito”. Falou e foi direto para o quarto. Do quarto foi para o banheiro tomar um banho que não a refrescou. Algo nunca dantes sentido lhe abrasou ainda mais enquanto se ensaboava. Ofegando ela não tirou a mão. Arfando aumentou a pressão.

- Mirinha! Tudo bem?

- Ahh! Sim!

- Então que demora é essa? Quero tomar banho também. E daqui a pouco seu pai chega e também vai querer entrar.

Pela primeira vez sem comer direito ela vai deitar. O sono interrompido pelo rosto do rapaz. “É o sobrinho do Dr. Lucas que lhe serve de motorista enquanto faz a faculdade”. – A voz de uma cliente ressoa em seu crânio – “Que gatinho é o menino”. Para ela o rosto do Dr. Lucas sorri. Para ela o rapaz tira o paletó. Sem perceber Mirinha se senta enquanto o rapaz tira a camisa. Que peito lindo, mamilos vistosos, músculos fartos. A mão do Dr. Lucas acaricia os cabelos de Mirinha fazendo-a deitar outra vez. O rapaz tira os sapatos, as meias, a calça preta, a cueca branca. Que pés lindos, grandes. Ela quer ver o que os homens têm, mas só vê os pés, as mãos, os rostos, os corpos perfeitos do Dr. Lucas e – arfa e ofega – do rapaz – ouve dentro de si o 1º Movimento de Allegro, de Mozart, e sua mão explorando sua intimidade.

- “Aaai”! Grita a menina quando o sol lhe toca.

- “Que foi, filha”? Entra no quarto o pai assustado.

- Estou sangrando...

Mudo e de olhos arregalados sai o pai deixando sua mulher com a filha.

- Ora, Mirinha. Fique calma. Vai me dizer que nunca estudou sobre isso na escola?

- !!!

- “Sim. Você acabou de virar mocinha”. E têm uma longa conversa que Mirinha pouco escuta pensando nos dois homens que julga serem seus. Os homens de sua vida.

Falta a escola como um presente pelo seu importante dia. Assim que a mãe sai do quarto, Mirinha se conhece mais um pouco com o indicador e não para de ouvir Mozart. Agora é Ronda Alla Turca.

- Filha, fui à farmácia e trouxe para você.

- ???

- “Ah! Minha filhinha agora já não é mais menina”. Fala com uma lágrima e com um sorriso continua “Agora ela é uma mocinha”. Ensina Mirinha como se usa e vai cuidar dos afazeres domésticos deixando a filha ouvindo Mozart e lendo algo.

Ouvindo músicas, lendo e se conhecendo ela passa o dia.

- Não está doendo?

- Não!

- Que bom. Você é igualzinha a mim.

- Vou sair mãe.

- Para onde?

- Na praça.

- Mas vê se não demora.

Mirinha vai direto para a casa do Dr. Lucas. Tudo é um só silêncio então volta para casa. Onze horas ela sai enquanto os pais dormem. Ninguém em sua rua. Da frente da casa do médico se ouve Mozart. Mirinha sorri. Ouvindo a canção da Pantera Cor de Rosa (que Não é de Mozart), pula o muro, que não é alto, e volta a ouvir Mozart. Sobe numa árvore e vê o rapaz sem camisa e de cueca olhando para as estrelas na noite sem lua. Mirinha começa a acariciar as pequenas saliências em seu peito e movimenta os quadris no galho entre suas pernas onde está empoleirada. – Júlio! – ouve a voz do médico. O rapaz olha para trás sem sair da janela. O médico se aproxima, encosta-se nas costas do garoto que sorri. Mirinha se espanta. Dr. Lucas desliza sua mão pelo peito do garoto que fecha os olhos, faz cafuné em seus pelos e abaixa a cueca de Júlio. Da árvore Mirinha só saiu quase ao amanhecer.


- Bom dia, Dr. Lucas. Minha filha quer se consultar com o senhor.

E no quintal o cajueiro vê suas flores se converterem em frutos do mais suculento caldo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

MEIA NOITE – parte 3 (fim)

Rubem Leite

Escrevo essa estória ao som de Aquarela do Brasil.

- Benito, tem algo que queira perguntar?

- Bem! Por que está na rua?

- Família podre.

- ...

- Seguinte, Benito. Minha mãe tem vários filhos. Cada um de um pai diferente. Eu sou o mais velho e o “pai” atual só sabe bater; bater e beber; bater, beber e, acima de tudo, orar. O homem é líder da igreja dele. Dele! Não de Jesus... apesar de usar sempre o nome do Senhor. Com isso, hoje ele tem uma bela e boa casa. Só a porta de entrada custa o mesmo que um carro popular. Mas nada é de minha mãe. Tudo é da igreja, que é dele... Nem meu irmão caçula, filho dele, tem alguma regalia. Com muito custo completei o segundo grau e quando quis fazer faculdade ele me disse, entre um gole de cachaça e um tapa na cara “vai fazer sua igreja, vagabundo. Que a minha não desperdiça dinheiro com filho sem pai”. Foi ao meu quarto fez minha mala e me pos na rua.

- E sua mãe?

- Vi uma lágrima, mas desde que não lhe falte comida, bebida, roupa e sexo... Tudo bem. Assim estou fora de casa esses dias todos. O que mais me espanta é o auto-controle dele, que nunca aparece fora de casa nesse estado. E o pior é que tudo que ele diz o povo acredita e faz o que ele, Pastor Renato, manda. Sua igreja é em Cel. Fabriciano. Sabe, Benito, eu gosto da Igreja Quadro Angu Lá, mas, salvo uma ou outra exceção, detesto as que têm em Fabriciano. Conhece o Mcdonalds e outras franquias, né? Igreja agora também tem franquia... São 27 filiais em Fabriciano que têm que cumprir uma cota mensal e passar 30% para a matriz. Imagine em todo o Vale do Aço, em Minas, no Brasil. Quanto dinheiro não entra... Eu me espanto com a credulidade do povo. Antes de conhecer minha mãe ele foi um grande líder na Regressão Antipática Caquética, onde aprendeu tudo o que sabe, desenvolveu na Assembléia Sem Deus, depois na Jeová É Testemunha e por muitas outras até chegar na que está hoje.

Diz tudo num jorro só.

E agora? Ele não parece estar mentindo. E apesar de me surpreender tal declaração eu não duvido, já que ouvi alguns boatos sobre isso.

E o garoto é bonito, mas pode estar me enrolando para eu cair feito um otário... Mas se já comecei a ajudar não dá para simplesmente mandá-lo embora. Não quero nenhuma responsabilidade com estranhos. E não posso mandá-lo para rua. “E agora, José”? Bem! Se a luz apagou, vou acendê-la.

- DiBruno, com licença. Se quiser assistir tv, fique a vontade.

- Vi uns livros na sala. Posso pegar um?

- Claro!

Gosto de quem lê. Vou para meu quarto com você. Postamo-nos diante do Oratório de meus antepassados, pergunto o que fazer e praticamos a Meditação Shinsokan. Vinte minutos depois encerramos a oração com uma idéia em minha cabeça, quase uma decisão. Por favor, fique a vontade. Vou me concentrar no DiBruno para saber se o que ele diz é verdade. Passam mais meia hora e nada. Não estou conseguindo entrar na mente dele. Por quê? Olho nos seus olhos e é aí que vejo: “Lembre-se de sua história com Régio*”.

Será!?

Concentro-me em Maria Tereza* e em Ireny*, que prontamente me atendem e rapidamente se inteiram da situação. Nós três, com você me observando, voltamos para dentro de minhas lembranças...:

- Não quero perder minhas lembranças...

- Lembranças? Agora são entendimentos...

Somente olho espantando.

- Não entendeu ainda Benito?

- Você era a esperança da Lua de que poderíamos conviver outra vez. Mas só agora a Lua entende que você não poderia fazer diferente.

- Por quê?

- Porque você é ele.

- Quem? O Traidor?

- Sim!

- Não!

- Você e o Lóri.

- Quê?

- Você e o Lóri são partes da alma do Traidor que voltaram à Terra.

- Não!

- Há outras partes querendo voltar também. Tentando se unir.

- Não!

- Ele não era todo ruim. Você é uma das partes boas. O Lóri também não é uma das partes piores.

- Não!

- Pare de dizer não. Você sabe que é verdade. Suas capacidades te permitem saber. Sua convivência conosco naquela época e sua estada no espaço te fazem diferente. Aceite e tente mudar. Melhorar.

Em meia hora de diálogo volto para mim com você me observando sem nada dizer. Saímos e vejo um livro de Clarice na mesa e o garoto lavando as vasilhas.

A decisão já está tomada. Não é mero sexo. DiBruno é parte de mim, tentando, sem saber, retornar à nossa unidade.

São coisas assim que me fazem resistir e persistir. E a você também?

- DiBruno! Se você quiser morar aqui as portas estão abertas pelo tempo que quiser. Mas tem algumas regras. Será um morador, não visita, portanto deve fazer o que está fazendo agora, ajudar-me a cuidar da casa. Vou te ajudar a ir para a faculdade, depois me reembolsa o que eu gastar. E o resto a gente vê depois.

Um sorriso de esperança num olhar desconfiado é a primeira resposta do garoto. Mas ele topa. Vamos ver no que vai dar.

* Régio, Maria Tereza e Ireny são personagens da série de contos sobre o centauro Régio postados no aRTISTA E aRTEIRO (http://artedoartista.blogspot.com). Sendo que Maria Teresa tem também um conto próprio, fora da série.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

MEIA NOITE – parte 2

Rubem Leite

Escrevo essa estória ao som das músicas

“Travessia” e “As Rosas Não Falam”.

Terminamos o lanche e entramos no carro. Já vai? Não quer ir conosco? Então tá. Depois a gente conversa. DiBruno pegou no sono. Mais duas horas e chegamos em casa. Acordei o cara e o encaminhei para o quartinho de empregadas de meu apartamento. Afinal, não vou levar um estranho para tão dentro de minha casa assim, né. Ele desabou na cama. Tranquei a porta que separa a área de serviço da cozinha, tomei um banho, agradeci a Deus e a meus antepassados e também desabei na cama.

Mas não tem jeito, sete horas eu já tava de pé. Pratiquei a Meditação Shinsokan, pois como bom Seicho-No-Ie que sou não deixo de praticar a mais perfeita oração conhecida pelo homem. Na cama sentei-me sobre meus pés, coloquei o pé esquerdo sobre a planta do pé direito. Pois o esquerdo simboliza o céu que fica por cima da terra, representada pelo pé direito. Coluna vertical reta como fio prumo. Juntei levemente as mãos diante do rosto mantendo a ponta dos polegares na altura do nariz. Braços relaxados formando um triângulo equilátero. Fechei levemente os olhos carnais para não ver o derredor e, ao mesmo tempo, abri meus olhos espirituais para contemplar Deus e o Mundo que Ele criou – perfeito e absoluto onde só existe a Verdade, o Bem e o Belo –. Meditei “Neste momento, deixo o mundo dos sentidos e entro no Mundo da Imagem Verdadeira” visualizando e contemplando um mundo infinito e esplendoroso. “Aqui, onde estou, é o mundo da Imagem Verdadeira: É o oceano da infinita Sabedoria de Deus. É o oceano da infinita Sabedoria de Deus” ... “É o oceano do infinito Amor de Deus. É o oceano do infinito Amor de Deus” ... “É o oceano da infinita Vida de Deus. É o oceano da infinita Vida de Deus” ... “É o oceano da infinita Provisão de Deus. É o oceano da infinita Provisão de Deus” ... “É o oceano da infinita Alegria de Deus. É o oceano da infinita Alegria de Deus” ... “É o oceano da infinita Harmonia de Deus. É o oceano da infinita Harmonia de Deus” ... “É o mundo da harmonia absoluta. Neste mundo da grande harmonia, eu, como filho de Deus, estou recebendo de Deus a Sua infinita força vivificante”. Assim repeti esta mentalização até conseguir contemplar o Universo repleto de Luz de Deus. E passei a respirar lenta e profundamente visualizando a luz resplandecente de Deus fluindo para dentro de mim através das mãos postas, preenchendo todo o meu corpo. Enquanto inspirava mentalizei “A infinita força vivificante de Deus flui para o meu interior, flui, flui, flui...”. Preenchi o baixo ventre, o diafragma com a sensação de plenitude por alguns segundos e espirei lentamente mentalizando “Pela luminosa força vivificante de Deus sou preenchido, sou vivificado, sou preenchido, sou vivificado...”. Várias vezes assim fiz. Meditando e me fortalecendo para viver bem o dia. Depois Rezei a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade agradecendo aos meus antepassados e estudei algumas páginas d’A Verdade da Vida. Fui à cozinha preparar o café e ouvi barulho de chuveiro do quartinho. Simultaneamente paro o que estou fazendo; levanto a cabeça fechando os olhos e fico atento lá fora, no portão do prédio. Sinto você chegando e um sorriso ilumina minha face. Abro o portão antes de você chamar pelo interfone. Sinto-te subindo às escadas, abro a porta com o mesmo sorriso. Que bom que você chegou. Fique a vontade e se inteire do que está acontecendo. Volto para a cozinha, abro a porta para a área e vejo o garoto. Bom! Pelo menos parece que o menino estava sujo não por falta de higiene. Com o café bem forte já coado, leite na mesa, frutas, mel e alguns pães de forma integral. Tudo como gosto. Não demora e o moleque aparece, nu, na porta.

- Quer o pagamento agora?

Nem soube o que responder. É claro que entendi o que ele quer dizer, mas não foi por sexo que o levei para casa. Mas você ainda continua achando que só penso em sexo? E se fosse? O amor entre dois homens não é nenhum pecado nem crime, por mais que os religiosos e os moralistas insistam em dizer que é um ou outro ou ambos. Tem razão, sexo não é amor. Você me deixa confuso. Além de gostar de mulher sou capaz de me envolver fraternalmente com as pessoas. Você não sabe que apesar de amar as mulheres e de gostar delas não me importo de amar e gostar dos homens? Não sei o que sinto pelo rapazinho. Tesão? Amor? Amizade? Quero gostar de alguém pelo que é, não por causa do corpo. Você acha que não consigo? Será? Estou confuso. Não! Penso que somos senhores do corpo e não seus servos. Sim! Creio nisso.

- Ah! Você é bonito. Bonito mesmo, mas não tem que me pagar nada.

- Como não! Todos querem alguma coisa.

- Bem, no momento não estou querendo nada não.

Alguns silêncios de ambas as partes. Ele de cabeça baixa, sem saber o que fazer e sem te perceber, claro.

- DiBruno! Tenho umas roupas que poderão te servir. Sorrindo: O que você estava usando serve só para pano de chão.

Vou ao meu quarto, pego uma bermuda, uma cueca e uma camisa. Quando volto, ele está no quartinho; deixo a roupa na cama e saio. Ele tem ombros largos e cintura estreita. Surpreende-me os músculos definidos de seus braços, uma vez que ele me pareceu ser bem franzino, mais magro que eu.

Dois ou três minutos depois ele aparece. Já estamos sentados à mesa.

- Vamos! Sente-se!

- Não é nenhum incômodo?

- Não! Coma.

Ele ainda fica um tempo parado.

- Olhe, rapaz! Não tenho muita paciência com isso. Já falei que não é incômodo.

Falei meio irritado. Eu me calmo e sorrindo completo:

- Vamos! Sente-se e sirva do que quiser.

Nunca vi ninguém comer tanto quanto ele. E enquanto comemos conversamos.

- Benito. É seu nome, né?

- Benito Bardo Junior. E o seu?

- Marco DiBruno.

- O que você quiser perguntar, esteja à vontade. E se quiser falar algo, fique à vontade.

Um silêncio.

E ele volta a falar:

- Tenho 19 anos. Não sou guei.

E antes que eu pudesse abrir a boca ele continua depressa:

- Não sou mesmo. Mas estava com fome. Tem uma semana que estou na rua. Alguns dias atrás um homem, parecido com aquele, me ofereceu R$50,00 se eu o chupasse. Recusei. Mas agora a fome apertou demais.

Uma lágrima escorreu de seus olhos.

- Benito, tem algo que queira perguntar?

- Bem! Por que está na rua?

- Família podre.

Continua.

Os trechos explicando a Meditação Shinsokan foram embasados no opúsculo “Meditação para Contemplar a Deus – ‘Shinsokan’,” da Seicho-No-Ie.