Rubem Leite
Escrevo essa estória ao som das músicas
“Travessia” e “As Rosas Não Falam”.
Terminamos o lanche e entramos no carro. Já vai? Não quer ir conosco? Então tá. Depois a gente conversa. DiBruno pegou no sono. Mais duas horas e chegamos em casa. Acordei o cara e o encaminhei para o quartinho de empregadas de meu apartamento. Afinal, não vou levar um estranho para tão dentro de minha casa assim, né. Ele desabou na cama. Tranquei a porta que separa a área de serviço da cozinha, tomei um banho, agradeci a Deus e a meus antepassados e também desabei na cama.
Mas não tem jeito, sete horas eu já tava de pé. Pratiquei a Meditação Shinsokan, pois como bom Seicho-No-Ie que sou não deixo de praticar a mais perfeita oração conhecida pelo homem. Na cama sentei-me sobre meus pés, coloquei o pé esquerdo sobre a planta do pé direito. Pois o esquerdo simboliza o céu que fica por cima da terra, representada pelo pé direito. Coluna vertical reta como fio prumo. Juntei levemente as mãos diante do rosto mantendo a ponta dos polegares na altura do nariz. Braços relaxados formando um triângulo equilátero. Fechei levemente os olhos carnais para não ver o derredor e, ao mesmo tempo, abri meus olhos espirituais para contemplar Deus e o Mundo que Ele criou – perfeito e absoluto onde só existe a Verdade, o Bem e o Belo –. Meditei “Neste momento, deixo o mundo dos sentidos e entro no Mundo da Imagem Verdadeira” visualizando e contemplando um mundo infinito e esplendoroso. “Aqui, onde estou, é o mundo da Imagem Verdadeira: É o oceano da infinita Sabedoria de Deus. É o oceano da infinita Sabedoria de Deus” ... “É o oceano do infinito Amor de Deus. É o oceano do infinito Amor de Deus” ... “É o oceano da infinita Vida de Deus. É o oceano da infinita Vida de Deus” ... “É o oceano da infinita Provisão de Deus. É o oceano da infinita Provisão de Deus” ... “É o oceano da infinita Alegria de Deus. É o oceano da infinita Alegria de Deus” ... “É o oceano da infinita Harmonia de Deus. É o oceano da infinita Harmonia de Deus” ... “É o mundo da harmonia absoluta. Neste mundo da grande harmonia, eu, como filho de Deus, estou recebendo de Deus a Sua infinita força vivificante”. Assim repeti esta mentalização até conseguir contemplar o Universo repleto de Luz de Deus. E passei a respirar lenta e profundamente visualizando a luz resplandecente de Deus fluindo para dentro de mim através das mãos postas, preenchendo todo o meu corpo. Enquanto inspirava mentalizei “A infinita força vivificante de Deus flui para o meu interior, flui, flui, flui...”. Preenchi o baixo ventre, o diafragma com a sensação de plenitude por alguns segundos e espirei lentamente mentalizando “Pela luminosa força vivificante de Deus sou preenchido, sou vivificado, sou preenchido, sou vivificado...”. Várias vezes assim fiz. Meditando e me fortalecendo para viver bem o dia. Depois Rezei a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade agradecendo aos meus antepassados e estudei algumas páginas d’A Verdade da Vida. Fui à cozinha preparar o café e ouvi barulho de chuveiro do quartinho. Simultaneamente paro o que estou fazendo; levanto a cabeça fechando os olhos e fico atento lá fora, no portão do prédio. Sinto você chegando e um sorriso ilumina minha face. Abro o portão antes de você chamar pelo interfone. Sinto-te subindo às escadas, abro a porta com o mesmo sorriso. Que bom que você chegou. Fique a vontade e se inteire do que está acontecendo. Volto para a cozinha, abro a porta para a área e vejo o garoto. Bom! Pelo menos parece que o menino estava sujo não por falta de higiene. Com o café bem forte já coado, leite na mesa, frutas, mel e alguns pães de forma integral. Tudo como gosto. Não demora e o moleque aparece, nu, na porta.
- Quer o pagamento agora?
Nem soube o que responder. É claro que entendi o que ele quer dizer, mas não foi por sexo que o levei para casa. Mas você ainda continua achando que só penso em sexo? E se fosse? O amor entre dois homens não é nenhum pecado nem crime, por mais que os religiosos e os moralistas insistam em dizer que é um ou outro ou ambos. Tem razão, sexo não é amor. Você me deixa confuso. Além de gostar de mulher sou capaz de me envolver fraternalmente com as pessoas. Você não sabe que apesar de amar as mulheres e de gostar delas não me importo de amar e gostar dos homens? Não sei o que sinto pelo rapazinho. Tesão? Amor? Amizade? Quero gostar de alguém pelo que é, não por causa do corpo. Você acha que não consigo? Será? Estou confuso. Não! Penso que somos senhores do corpo e não seus servos. Sim! Creio nisso.
- Ah! Você é bonito. Bonito mesmo, mas não tem que me pagar nada.
- Como não! Todos querem alguma coisa.
- Bem, no momento não estou querendo nada não.
Alguns silêncios de ambas as partes. Ele de cabeça baixa, sem saber o que fazer e sem te perceber, claro.
- DiBruno! Tenho umas roupas que poderão te servir. Sorrindo: O que você estava usando serve só para pano de chão.
Vou ao meu quarto, pego uma bermuda, uma cueca e uma camisa. Quando volto, ele está no quartinho; deixo a roupa na cama e saio. Ele tem ombros largos e cintura estreita. Surpreende-me os músculos definidos de seus braços, uma vez que ele me pareceu ser bem franzino, mais magro que eu.
Dois ou três minutos depois ele aparece. Já estamos sentados à mesa.
- Vamos! Sente-se!
- Não é nenhum incômodo?
- Não! Coma.
Ele ainda fica um tempo parado.
- Olhe, rapaz! Não tenho muita paciência com isso. Já falei que não é incômodo.
Falei meio irritado. Eu me calmo e sorrindo completo:
- Vamos! Sente-se e sirva do que quiser.
Nunca vi ninguém comer tanto quanto ele. E enquanto comemos conversamos.
- Benito. É seu nome, né?
- Benito Bardo Junior. E o seu?
- Marco DiBruno.
- O que você quiser perguntar, esteja à vontade. E se quiser falar algo, fique à vontade.
Um silêncio.
E ele volta a falar:
- Tenho 19 anos. Não sou guei.
E antes que eu pudesse abrir a boca ele continua depressa:
- Não sou mesmo. Mas estava com fome. Tem uma semana que estou na rua. Alguns dias atrás um homem, parecido com aquele, me ofereceu R$50,00 se eu o chupasse. Recusei. Mas agora a fome apertou demais.
Uma lágrima escorreu de seus olhos.
- Benito, tem algo que queira perguntar?
- Bem! Por que está na rua?
- Família podre.
Continua.
Os trechos explicando a Meditação Shinsokan foram embasados no opúsculo “Meditação para Contemplar a Deus – ‘Shinsokan’,” da Seicho-No-Ie.