segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CONTA DE PRANTOS

Obax nafisa.


Oh, é tanto!
Que não dou conta.
Seguro um pranto
Não solto as pontas.

Com a quadra penso na vida que estou levando. Dois irmãos com câncer. Trabalhando muito, recebendo pouco. Sub emprego com sub salário. O sol e a lua no céu e o carro de meu contratante debaixo e entre os dois.
- Bôache nôichete!
Cumprimenta-me com voz pastosa. Olhos vermelhos, corpo bambo, fedor de cachaça com falta de banho. De agora em diante não vou mais fazer onomatopeia, mas, por favor, não se esqueçam de como é fala do caboclo.
- Minha muié tá ali na prefeitura e tâmu quereno ...
Parei com a onomatopeia, mas conservo o português não padrão do sujeito.
- ... comprá dois marmitéquisse. Cada um no supermercado custa R$6.50. A gente tâmu precisano de dois real.
- Ieu quero é cachaça, isso sim. – Diz baixinho um colega dele que não se aproximou.
- Poisantão, podemo contá cum sinhô? É dois real.
- Não!
- Num intendi.
- Não, não vou lhe dar nenhum dinheiro.
- I einquê cê vai ficá mais rico inundá? Eim? Eim?
- A riqueza é minha, não é sua. Não te interessa.
- Num intendi. A riqueza é sua, num é minha, numinteressa?
Entre o espanto e a lamentação do sujeito bocejo vistosamente.
- Ocê vai é morrê a míngua, seu...
O contratante sai do banco, entra no carro, dá meu pagamento, traz-me à minha casa e se vai sem olhar a lua nem o sol.


Ofereço como presente de aniversário a
Willian Garcia, Whêsdras Henrique, Alessandro Castro, Carol Campos, Creuza Melo, Claudio Miranda, Wenderson Godoi, Mateus T. Sousa, Francisco P. Araújo, Wolmer Ezequiel e Thiago Domingues.

Escrito em 23 de agosto de 2014. Mexido e remexido entre 12 e 15 de setembro de 2014.

2 comentários:

Josmar Divino Ferreira disse...

Você é maluco beleza e escreve muito maravilhas. Gostei

MINGAU ÁCIDO disse...

Grande Rubem! Esse foi ótimo pra fechar a minha madrugada com chave de ouro!