segunda-feira, 13 de abril de 2015

NARRADORES DA NOITE

Sometimes I wanted to be stone, but I’m poet.

Obax nafisa.


- Oi, pessoas! – Cumprimenta Benito aos amigos que já se encontravam no “Sarau de Arak”, no restaurante Tuffik Cozinha Árabe, sempre nas segundas segundas-feiras: Nena de Castro, Goretti Freitas, Vera Tufik e tantos outros. – Vejam as quadras do Rubem que acabei de ler:

Em lágrimas de delícia
Li Olhos Vegetais.
Se Nininha se foi, o Landi se tornou canoa.
Palavras amaciando atos brutais.

Amor muda o natural
Gato que só pensa na lua
Segue sua dona por toda rua
Sorrindo vão a dona e seu animal

Tarde quente e triste
Sumiu meu coraçãozinho
Não há algo que não se finde
Voltou meu cãozinho

- Rosinha, Minha Canoa, de José Mauro de Vasconcelos é tudo de bom. – Diz Goretti e Vera completa: Vale a pena ler ou reler.
- Não tenho dom para poesia, só leio literal e essas quadras não me dizem nada... Aliás, o que uma tem a ver com as outras?
- Se não lhe disse nada é porque lhe disse muito. E são quadras diferentes, sem ligação entre si. Apenas as achei interessantes.
- Bom, realmente pensei em montes de coisas, lugares e transformações, tentando associar tudo isso, mas não cheguei a conclusão nenhuma. Se por esse lado é legal... foi legal...
- Uai! E por que tem que chegar a alguma conclusão? Apenas saboreie. Sinta. Cérebro é bom. Coração também.
- Rirri. Não senti nada no fim, porque não entendi, mas nem reparei na jornada... Se enquanto eu estava lendo eu sentia algo... Não posso dizer se apreciei.
Enquanto Benito e Frâncis discutem Nancy Maestri pensa “O que Frâncis está fazendo em um sarau se não gosta de poesia?”. Porém não diz nada, só observa.
- Estou tomando um chá de hortelã com boldo. Dá um contraste... Deve ser interessante concluir algo disso. Mas, no caso, prefiro só saborear. Busque o livro “Rosinha, Minha Canoa” e leia.
- Tá doido, não me aventuro nessas coisas.
- Por quê? Tenha medo do que é bão não.
- Não é medo, creio já de antemão que não vou apreciar nada... Mas consigo apreciar qualquer leitura ficcional sem metáforas demais.
- Então vai gostar do livro. Não é rico em metáforas. São simplesmente belas histórias. As quadras que não gostou são do Rubem, não do José Mauro de Vasconcelos. O livro é bom, pode ler.
- Metáforas para mim são como ver flores de caramelo... Realmente não passaram disso. Rirri.
- Flor de caramelo?
- Rirri. Um exemplo tosco, me dizer como é algo, alguém ou sentido, usando formas metafóricas, elas serão literais para mim... Isso é engraçado... que minha imaginação é fértil demais para imaginar essas coisas. Mas o sentido passa tão despercebido que mesmo se jogasse na ponta do meu nariz eu iria estar observando essas coisas literais obstruindo o campo de visão... Mas é para ter algum sentido as quadras?
- Sim, é para ter algum sentido. O seu. O que eu e o autor quisemos dizer tá lá, direitinho. O que você entender...
- Bom, Olhos Vegetais é um livro? Agora, não entendi a parada da Nininha e Landi.
- É o capítulo três de Rosinha, Minha Canoa. Nininha é uma árvore e Landi e outra. Landi sonhava em se transformar canoa porque esta é a árvore que os índios fazem canoas.
- Hum... Agora faz sentido.
E Nena pensa “Poesia... Como muitos não entendem a poesia e... e como é dura a missão do professor que tem explicar o literário...”
Desconhecendo o que se passa em nossas cabeças, Frâncis insiste:
- Afinal, Benito, para que serve a poesia? Qual é a utilidade dos contos, das crônicas, dos romances, das novelas?
- Acho que a primeira coisa que a literatura e todas as artes nos dão é o prazer. – Diz Goretti e Nena continua: A segunda coisa que elas nos proporcionam é fazer passar mais depressa o tempo que enfrentamos os problemas.
Francismar Vasconcelos conta um causo e paramos para ouvi-lo. Após os aplausos Nancy fala:
- A literatura estimula a imaginação e nossa capacidade de abstração, metafísica e simbólica.
- Entendo também que as artes ampliam nossos conhecimentos e oferecem... oferecem, acho, materiais para relacionar o que enfrentamos no dia a dia com o que lemos. – Vera dá sua opinião – E assim, conseguir consolo e até, quem sabe, força para superar os dissabores?
- E você, Benito, não vai falar mais nada?
- No silêncio eu sinto o sabor das vozes.
Fora do restaurante a noite está nublada. Um carro e outro passam e pedestres olham para o movimento aqui dentro. Quem se adentra?


Ofereço aos aniversariantes:
Mayra Loures, Cleiton Zambianchi, Demetrios Nunes, Simone Távila, Mariana Dias, Thayná Macedo, Alessandro Lages, Grasielle Severo, Maxwel Lopes, Scida Souza e Joana Sousa.

Recomendo a leitura de Análise, de Ely Monteiro

Em banto, obax nafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

SCHAMI, Rafic. Narradores de la Noche. 6ª ed. Madrid: Siruela, 2012.

Escrito entre 05 de maio de 2014 e 13 de abril de 2015.

4 comentários:

Josmar Divino Ferreira disse...

TEXTO EXCELENTE E LINDA POESIA. MAIS UMA VEZ PARABÉNS.

Anônimo disse...

Muito bacana, me lembra adivinhações dos antigos como "caixinha de bom grado que nenhum carpinteiro faz " rs obrigado Rubem! Alessandro

Anônimo disse...

Ahê Rubão!

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto! Bacana demais!
Muito obrigada pelo carinho Rubem!
Abraço!
Mariana Dias