domingo, 14 de maio de 2017

CIDADE NOBRE – SER X ESTAR

Leitura do cronto pelo autor: https://www.youtube.com/watch?v=UOsOKHlXZrI


O despertador escolhido por ter um som que não provoca sobressalto anuncia, sem estardalhaço, ao dono a hora de encerrar a insônia diária. Foi ao banheiro fazer as obrigações matinais; tomou o café preparado pela mãe; abriu o portão de sua casa na Rua Visconde de Mauá, seguiu pela Johan Mendel, que muitos chamam de “John Mendel” no lugar de pronunciar corretamente: Iôrran Mêndel. Sem nenhum motivo aparente lembrou que já tentara trabalhar na unidade básica de saúde mais conhecida como UISA e também na Policlínica, mas foi no Hospital Municipal que conseguiu. Passou rapidamente na Avenida Carlos Chagas para olhar uma vitrina com um possível presente para o Dia das Mães. Quando chega à Rua Felipe dos Santos entra no hospital, cumprimenta os colegas enquanto coloca sua digital na máquina que registra sua entrada.
E assim Nico Tério caminha para o local onde ficam os que eram e agora estão. Ele pensa nas curiosidades dos verbos ser e estar. Este indica localidade ou provisoriedade e aquele o permanente. Mas há algo mais permanente que a morte? Mesmo se houver reencarnação será o início de um corpo ou de uma história em um corpo... Portanto, permanentemente seria “é morto”. Mas dizemos “está morto”. Ou será que a crença cristã na ressurreição no fim dos tempos fez que utilizássemos o verbo estar para nos referirmos à morte como algo passageiro?
Nico empurra a maca coberta. Alguns olham sedentos; com curiosidade e alívio por não estarem ali. Outros nem veem mais isso.
Enquanto passa pelo quarto 28 vê Paulo Coralino tendo convulsão.
- De novo?
- É a sexta seguida!
O paciente do leito 88 e a enfermeira conversam rápido antes de socorrê-lo.
“Eles estão, assim, calmos?”. Você, que me lê, pergunta e respondo que não. A própria situação já diz que não; mesmo sem eu – o escritor – falar isso.
Nico nem parou durante todo este pequeno tempo; assim não viu o que conversamos. E por isso agora voltamos a ele: Saindo do bloco I entra no corredor dos blocos H, G, F. Em um quarto do G, barulho de movimentos de tensão. Enquanto Nico passa ignorando o que ainda não tem que fazer; enfermeiros e médicos tentam impedir o ser de estar.
Não conseguem.
Nico chega ao seu local de trabalho. Leva o estar para uma gaveta gelada. Quando fecha o trinco o telefone do necrotério toca.
- Nico Tério!
-
- Quarto 17, bloco G. Estou indo. Nico empurra a maca descoberta. Alguns olham curiosos e lastimando não ter alguém que – creem supersticiosa e ingenuamente – os estejam livrando do estar por deixar Dona Morte ocupada.
Nico não sabe nada disso; mas suspeita.
Termina o dia de trabalho; passa na loja e compra o presente; vai para casa tomar um banho e jantar; e depois segue ao bar conversar com os amigos até hora de a namorada chegar do trabalho. Até o momento de voltar para a cama mal dormir para o despertador escolhido anunciar sem estardalhaço a hora de encerrar a insônia diária e parabenizar a mãe antes de ir trabalhar.


Ofereço como presente aos aniversariantes
Railson Silva, Marilene Vitor, Elisangela Guilherme, Marceli Rodrigues, Mariana Mamede, Joneisson Araújo, Robinson Ayres, Andreia Lima, Rosangela Sulidade, Reinaldo Maciel, Flávia Gusmão, Guebel Stevanovich e Léo Coessens.

Recomendo a leitura de “Esperando o Trem”, de Girvany; e “Reflexão”, de Xúnior Matraga.


Manuscrito na manhã de 04 de janeiro de 2017 enquanto acompanhava meu irmão internado no Hospital Municipal de Ipatinga. E trabalhado entre os dias 25 de abril e 14 de maio do mesmo ano.

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