domingo, 22 de maio de 2011

CAMUFLAGENS

Obax anafisa.

Manhãs de sol na Praça Caratinga. As acácias balançam ao vento. Os canteiros elevados ricos de verde. E os sorvetes, os doces e, não posso esquecer, os livros. Minhas bonecas. As borboletas. Os bem-te-vis cantando.

Ela camufla sua covardia num suicídio. Ele, num ato de violência. Um segue o que o outro manda e todos perdem. E eu quero contar. É assim minha participação nessa estória. Ah! Quanto quero contar sem ter que ser julgada e simplesmente aceita. Mas nos calamos, os três, quando queremos dizer algo.

Eu e minhas bonecas acompanhadas por livros vemos espetáculos no Parque Ipanema.

Minha querida Letícia Duns contou-me uma estória interessante e que se parece com essa aqui. A dela é resumidamente assim. Um escritor, para pegar ideias para seu livro... Um aparte, após muita relutância estou começando a aceitar a nova ortografia. Viu que escrevi ideia sem acento? É a penalidade por estudar Letras. Tem que se conformar com bobagens, digo, com a nova ortografia. O escritor de Letícia para se inspirar se aproximou de uma garota de programa. Seduziu-a. Comprou-a. Matou-a. E assim ele se fez estória.

Que domingos bons na cachoeira. Ler e nadar ou andar pela mata ouvindo no bosque os pássaros cantando.

A nossa estória... Outro aparte. Estou aceitando, mas não tanto assim a ortografia. Ainda insisto em diferenciar história de estória. Mesmo sabendo que tanto uma como outra não passam de ficção. A nossa estória, porém, se passa tendo-me como mero fantasma das perdidas ilusões. Nossa! Que coisa mais cafona. Linda, mas cafona: “... perdidas ilusões”. Saio do aparte. Déborah é artista da dança e Ricardo é artista plástico. Eles são os nossos heróis – Rarrá – e vilões. E tinham uma irmã presa num cubículo espancada por Déborah e violada por Ricardo. Elisa não lutava mais. Já chorou, já gritou e até lutou. Agora só fica deitada. Descrever os detalhes eu me recuso. Sou o fantasma das perdidas ilusões – Rarrá – de Elisa e não um diabo para atormentar quem quer que seja, leitor, leitora ou ela. Conto a infância, o princípio da juventude. Conto onde ela se esconde para suportar. Ela que recebeu esse nome em homenagem à escritora Elisa Lispector se cala. Então eu falo.

Manhãs de sol na Praça Caratinga no Contingente. Para vocês de outra cidade, fica no fim do Centro diante da linha do trem dentro da Usiminas. As acácias balançam ao vento. É cada cacho de acácia. As palmeiras imperiais. Os canteiros elevados e o cimento para andar. É lá que eu brincava, no cimento. Às vezes nos canteiros. Entre os barulhos dos carros e da empresa. Mas tão pouca gente passava que mesmo sem outras crianças era divertido. E os sorvetes, os doces e não posso esquecer, os livros. Primeiros amigos, primeiros namorados, verdadeiros pais, verdadeiros... Talita, Keten, Clara, Mariana – minhas bonecas. Pequenas amigas. As borboletas. As comuns eram bruxas, mas tinham amarelas e brancas. Outras também apareciam. Vê-las, correr atrás. Que delícia. Os bem-te-vis gordinhos cantando. Dois eu sempre via lá. Sei que eram os mesmos. Não sei como. Apenas sei. Eu os chamava de Victor e Mateus.

As manhãs na cachoeira antes do almoço. Que domingos bons. De manhã, nadar ou andar pela mata com minhas amigas, as bonecas Mayra, Larissa, Sarah, Carol. À tarde, ler. Com meus amigos e... com meus livros entre as árvores perdidas do bosque. Vendo as formigas e outros insetos passarem. Os pássaros cantando. Meus... a gente brincava. Mas vamos lembrar de outra coisa. Não deles.

Parque Ipanema quando tinha espetáculo. Algum grupo da cidade ou de fora. Teatro, música, dança. Eu ia com uma boneca e um livro. Picolé, refrigerante e banana frita comprava lá. Bom ver A Princesa Engasgada, fragmentos de Kizomba e Terceira Idade: Encontro com a Memória. Lindos espetáculos de teatro e dança.

Os pais sempre viajando. Num domingo de sol e frio batem na porta. Quebram-na. Déborah canta “Meu coração é só de Jesus. Minha alegria é a Santa Cruz” com uma faca no peito. A voz silenciando vermelha. Ricardo fere um e outro antes de ser contido.

Sentada, sinto o frio ao sol. Mas não quero me lembrar... Prefiro: Na Praça Caratinga as acácias balançavam ao vento nos canteiros elevados ricos de verde. Eu e os livros. Que saudades deles. Acompanhada por livros no Parque Ipanema. Sinto saudades deles. Mas aqui é mais seguro. Lendo nos bosques da cachoeira eu me sentia segura. Mas não estava. Preciso voltar a sonhar. Mayra, Larissa, cachoeira, Sarah, Carol, acácias, Mateus, Victor, Talita, Keten, teatro, Clara, Mariana. Os livros. Os livros. Meus pais, meus amigos, meus namorados os livros.


Ofereço como presente de aniversário a Rodrigo Rangel.

Ofereço a todos os meus colegas de Licenciatura Letras da UnB – pólo Ipatinga. E aos novos professores e tutores do meu segundo bimestre.

Ofereço ao cartunista EDRA, de Caratinga,

que esteve em Ipatinga lançando seu livro de cartuns “SE RI EU CHORO...”.

Escrito entre 23 de abril e 22 de maio de 2011.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.

O cronto é minhas flores para você

e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

Um comentário:

Magali disse...

Acabei de ler, gostei continue nos inundando de doces contos .Bom semana para vc tbem