terça-feira, 29 de novembro de 2011

MISÉRIA

Obax anafisa.


Eu sou José Silva e sou garçom num bar à beira dum rio. E num sábado à tarde, à mesa, Dr. John, da família Dutra e Mendes, conversa banalidades com o empresário Richard Wilde. Sei os nomes porque me interessei pela conversa deles. Ambos com mais de cinquenta anos e donos de empresas quase multinacionais.

- E o meu Corinthians? Está bom, não! – Diz John.

- Sim! Mas sou daqui. Torço para o alvinegro de Minas.

- É mesmo? Em Minas me simpatizo com os azuis.

Curioso! Corinthians, não é time de povão? E os azuis não são dos ricos? Contraditório... O Gaaaloooooo também é do povo. Legal saber que o glorioso tem torcedor importante.

- Mas mudando de assunto. – Diz John – É constrangedora a convivência diária com a miséria. Não os tolero, os miseráveis, claro.

- Miséria! A mais comum é a financeira, que varia da absoluta a quase nada de posses materiais, da fome ao ter somente o necessário para não morrer.

- Essa mesma. Por isso fecho os olhos e finjo que não vejo. Gostaria mesmo era não vê-los, mas... Bem, o que queria não posso fazer. – Diz John com os olhos falando o que pensou.

- Mas é a miséria moral que me dói mais por separar os homens brancos de um lado e negros de outro, homossexuais dos heterossexuais, ricos e pobres.

Preciso falar que Dr. John se espantou e não soube o que dizer? Acho que não, né. Então vou me abster. Dr. Richard volta a falar.

- Quase tanto me dói a miséria intelectu...

- Realmente! Falou bem, Dr. Richard. Esses retardados mentais. Como o irmão do Rubem ou a filha daquela poeta... Como é mesmo o nome? Alguma coisa de Castro...

- Nena de Castro.

- Isso! Rubem Leite e Nena de Castro. Não é a toa que acho literatura uma merda. Ficar apologiando aquelas cois...

- Como ia dizendo! – Corta o “amigo” – porque se vê em muitos desses portadores de síndrome de down um coração puro que só não digo invejável por ser maravilhoso de se ver.

- Ora! Que isso? Dr. Richard, não me diga que não se incomoda com eles?

- Incomodo-me! Mas com o problema, não com a pessoa.

Queria ouvir mais, mas clientes me chamam. Antes de atender olho para o rio fora do bar e vejo que é não é mais o mesmo e o olho d’água que surgia entre os doutores seca.

- Garçom, já decidimos. Queremos ...

Anoto o pedido da mesa cinco, mas infelizmente perco o desfecho da estória.


Escrito entre 27 e 29 de novembro de 2011.

Ofereço como presente de aniversário à

Joubert Moisés, Marcelo Vieira, Luiz Ribeiro, Viviane Araújo, Fran Paula, José Ribeiro.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.
O cronto e a ilustração são nossas flores para você

e fazemos votos de que encontre neles pedras preciosas.

Com tal miséria não dá para conviver. Por isso escrevo.

Um comentário:

Thiago Panda disse...

É isso ae!
Um grande abraço para meu novo amigo mineiro!rs