terça-feira, 6 de dezembro de 2011

BANDEIRAS

Obax anafisa.


Eu sou um José Silva e sou garçom num bar elegante no Centro de São Paulo. E numa noite de 6ª feira, à mesa, Dr. John Dutra Mendes conversa com o empresário Richard Wilde. Sei os nomes porque Dr. Mendes vem sempre aqui. Os dois, mano, são grandes empresários.

- Gostou da vitória do meu Corinthians? – Diz John.

- Não fiquei triste. Mas disse na outra vez que conversarmos, em Minas, torço para o alvinegro de lá.

- Que perdeu feio para os azuis. Rirri.

- Sim! Feio mesmo. Mas pior é ser derrotado por 9x2 (1927) e melhor ainda é ter 33 vitórias a mais que eles. Mas que tal irmos direto ao assunto que nos trouxe aqui?

- Sim! – Diz John. – Ficamos sabendo que a Black & White venceu uma licitação. E pensamos que nossa empresa possa fornecer os materiais necessários.

- Qual licitação? Conquistamos várias.

- De adaptação de espaço para aleijados em escolas.

Dr. Richard olha meio enviesado, mas apenas diz

- Segundo dados de 2000 do IBGE, quase quinze por cento da população brasileira possui algum tipo de deficiência que dificulta sua convivência com o outro, seja familiar, profissional ou educacional.

- Sei, sei! Mas como ia dizendo, queremos fornecer para sua empresa o material necessário para a construção das escolas de – dando ênfase irônica: portadores de necessidade especiais.

- Portar é algo provisório. Portamos, por exemplo, nossos copos de cerveja ou nossos talões de cheques. São pessoas com necessidade especiais.

- Ah, sim! Ia me esquecendo. Você é cheio de escrúpulos ao falar.

- Não que eu seja cheio de escrúpulos, mas nada impede que amanhã eu seja uma pessoa com necessidade especial. Acidentes... Doenças...

- Somos ricos. Podemos dar um jeito em qualquer situação.

Fico ouvindo a conversa dos dois, já que estão sentados perto do balcão. Dr. Wilde toma a palavra e

- Dr. Mendes! O senhor já reparou na bandeira do Brasil?

- Ah! – Diz espantado – Por quê?

- E na de Minas?

- Bem, já vi algumas vezes. Por quê?

- A bandeira brasileira tem uma frase curiosa. Ordem e Progresso. Segundo alguns historiadores, a frase completa seria Ordem, Progresso e Amor. Mas achavam que amor era uma palavra pouco viril, então a retiram. Pena! Mas ainda penso que amor faz parte da alma do brasileiro, mesmo que invisível... Na bandeira de Minas está escrito LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN que significa “Liberdade ainda que tardia”. Na de São Paulo nada diz, mas tem simbolismos também bonitos. – Durante a conversa, o olhar de Dr. Mendes vai de surpreso a incomodado e de lá para irritado – Pensando nas três bandeiras vemos que todas as pessoas, todas mesmo, sem exceção, merecem liberdade e respeito. De dia e de noite lutamos pelo bem do Brasil, como apreendemos na “sua” bandeira. E o país é feito pelo povo. Na “minha” bandeira observamos que, cedo ou tarde, a liberdade será conquistada a qualquer preço. A “nossa” bandeira nos ensina que para se ter progresso, seja na vida pessoal, empresarial ou qualquer outra, é preciso ordem. E ordem, assim penso, só vem com amor. Amor ao trabalho me faz ter ordem. Amor aos clientes faz ter ordem no trabalho. E ordem dá progresso. É como diz uma conhecida minha, mãe do escritor Rubem, “Sem ordem não há progresso”.

Sorrio e me seguro para não dizer algo. Afinal, sou mero garçom diante de tubarões. Mas não consigo deixar de registrar a cara do Dr. Mendes. Rarrá! Acho que não haverá negócios entre eles. Sifu, “seu Mendes”. Rarrá!


Escrito entre 04 e 06 de dezembro de 2011.

Ofereço como presente de aniversário à

Jheniffer Araújo, Maxwell Antunes, Rayssa Rangel, José R. Sobrinho, Cristhianne Almeida.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.
O cronto e a ilustração são nossas flores para você

e fazemos votos de que encontre neles pedras preciosas.

Um comentário:

Maxwell Antunes disse...

Muito Obrigado meu caro amigo, é bom ver que não se esquecera de mim =) !

grande abraço!