segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CACTO


Obax anafisa.


É a avenida Londrina, no bairro Veneza. Meu irmão e um cunhado seu bebem em um bar. Uma mesinha bonita, de ferro, branca. Ao redor, para dar charme, muro alto de madeira e algumas samambaias e arbustos. Vendo-os, entro sorridente e sérios eles me dizem “Você é desagradável”. Não, eles dizem mais docemente, gostam de mim: “Você não é agradável”.
- Lembra da brincadeira da profissão?
Pelo rosto digo que não.
- Médico... e depois diz uma coisa não simpática (lembremos que eles gostam de mim, não usam a expressão pesada: antipático), Cozinheiro... e algo não simpático.
- Lembro! – Digo com um sorriso tolo.
- Por isso o dono do boteco perto de casa disse que não lhe quer mais lá. E também porque está devendo.
Levanto, despeço-me e saio consciente que eles diziam mais com aquilo. Não era do botequim que falavam.
À minha frente o sol cora o céu.
Subo o morro da rua Niterói para visitar uma amiga.
- Luci Ana, está?
- Não!
Seu pai ia descer para lhe dar um recado. Ofereço-me para entregá-lo já que eu ia lá para baixo mesmo. Aliviado o idoso me diz e volta para dentro enquanto me afasto.
À minha frente o céu vermelho tem um toque laranja.
Matutando minhas dívidas fantasio como saudá-las e atravesso o Campo do bigode e entro na avenida Livramento. Algumas mulheres, moças e meninas vestidas de indianas ciganas havaianas vão começar uma dança. Eu as reconheço. O público aumenta vertiginosamente. Passo por elas enquanto se apresentam, admirando-as contorno todo o público e vou-me embora ouvindo a música.
- “Convoquen a la Guarda Nacional para dar fin a lo peligro mortal. Un pasional pájaro carpintero a las puertas de lo Poder Público Municipal puede atacar la caradura de aquellas terribles personas”. Uma das dançarinas saiu despercebida de sua formação e me assustou se posicionando à minha frente para me dizer tal profecia, metáfora ou o que não tem sentido e desaparece.
À minha frente o céu vermelho tem um toque laranja e azul marinho.
Eu sou a favor do vício desenfreado. Sou um tarado por livros. Não vivo sem eles. E estou “desencaminhando” muitos jovens com tamanho defeito. – Pensando assim eu não sinto o peso em minha cabeça.
- Usted es malo, mucho malo. ¡Un ofensor de menudos con los libros, a través de su arte, un transmisor del virus de la libertad! ¡Uajajá! – Depois do riso, a seriedade – ¡No olvide de nadie! ¡Todo es lo usted! – A artista apareceu no último raio do sol, disse e sumiu na noite.
Um aluno meu disse que parou de usar entorpecentes porque começou a ler livro depois que tanto falei deles para sua turma. Fiquei muito contente quando ele me disse isso, assim, do nada e sem outro motivo além de compartilhar sua alegria. Não me esqueço de tudo que sou e à minha frente a noite emoldura a lua minguante sobre um cacto com sua bela amarela flor rugosa ou rústica.


Ofereço aos aniversariantes
Biblioteca Leitura e Olhares, Rayssa Rangel, Éldison M. Paravidino, Chimeni Lins, Camila Santos, Nubia Teodoro, Renata Sousa.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você que me lê e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

Embasado num sonho escrevi entre os dias 02 de novembro e 10 de dezembro de 2012.

Um comentário:

Thiago Domingues disse...

Também fui renascido pela Poesia!
Tudo seria mais fácil se no meu caminhom, ao invés de drogas, as pessoas oferecessem livros!