segunda-feira, 21 de abril de 2014

MARA, CUJA FLOR DE MARACUJÁ PERTENCE

Obax anafisa.


O primeiro a pisar o principiozim da rua onde moramos é o pé esquerdo. Já é tarde, mais de cinco e meia, e a chuvinha tampa o sol que já estava sumido no fim da rua onde moramos. E Carlos se junta a nós. Paramos para recebê-lo, você pergunta “Olá! O que deseja?” e depois se mantém em silêncio. Por que o silêncio? Antes de sua resposta Carlos te refuta:
- Nada! Só trocar um dedinho de prosa. E vocês, o que sonham?
- “Eu quero amar o que eu amaria, não o que é”.
- Boa, Benito! Quem disse isso, você?
- Não, Clarice!
- Fez-me lembrar de uma coisa que Arlisson falou. “Hoje a natureza saúda o dia por mim”.
- O Toledo?
- Conhece outro Arlisson que não o Toledo?
- Huuum... Não, difícil. Rerrê. Gente boa, ele. Mudando de assunto. Tenho um amigo muito querido que fez péssimas escolhas e até hoje não se encontrou. Em compensação, tenho outro amigo ainda mais querido que faz ótimas escolhas e está seguindo um bom caminho.
- Dois sentimentos antagônicos, Benito. Algum deles sou eu?
- Não! Você é muito querido, mas estou me referindo a duas outras pessoas. O primeiro é oito anos mais novo que eu e o segundo tem vinte e sete anos a menos.
- Huuum! Interessante, mas ouça o poema Relembranças, de Cida Pinho “Naquela praça... \ misturas de sons, cores, raças... \ O cheiro das batatas doces, assadas, \ colore e corta espaços \ trazendo lembranças \ de um mundo encantado! \ Saudades da inocência \ que há muito se perdeu!... \ Caras sujas, pés no chão... \ Pássaros alegres \ roubando frutas no quintal! \ Saudades daquele tempo \ em que os medos \ eram apenas pesadelos, \ fantasmas alados... \ De repente dá vontade \ dos perfumes do mato... \ Da mexerica “de agorinha” \ colhida no pé... \ Do banho no riacho... \ De quando a gente podia \ brincar de verdade \ e sonhar acordado!...”.
- Boa! Agora veja o que Adélia nos diz “Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo”.
- E eu digo, encantado por Adélia e Cida, Uma flor de caju \ Entre galhas de cupuaçu \ Dança com o vento sul \ Eu não me destoo.
- Quem disse?
- Eu! Também escrevo coisas, sabia?
- Sabia! Mas você não sabe o que eu quero.
- O quê?
- Alguém.
- Quem?
- Um corpo bem feito debaixo do uniforme. Rosto bonito, olhos escuros, lábios buscadores de parceiros. Vimo-nos e seguimos nossos caminhos contrários, olhamos para trás, revimo-nos e trocamos um sorriso por uma piscadela.
- E o silêncio, por quê? – Perguntamos olhando para você.


Ofereço como presente de aniversario a:
Isabella Ribeiro, Valdete Val, Antonio Carlos, Yuri G. Rodrigues, Marcone Sousa, André Graciano e Jorge Horta.
E aos agentes culturais aniversariantes:
Luzia di Resende, Michael Cobain e Bispo Filho (José B. Ferreira F.).

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

Não sei quando comecei, mas terminei na madrugada de Tiradentes 2014.

¹ LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus.

PRADO, Adélia. Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 36.

2 comentários:

luzia di resende disse...

Querido!
Que honra receber de presente de aniversário um poema\conto\história....
Adorei! Adorei também a brincadeira com a palavra de outros poetas, a forma como foram inseridos, o novo contexto cria uma outra razão deles existirem.
Parabéns pra você....

Isabella Ribeiro disse...

Obrigada Rubem... Lisonjeada...
E eu também estou aqui, cheia de ser e quereres... Saudosa de tempos de outrora...