segunda-feira, 20 de julho de 2015

QUARTO ESCURO

Obax nafisa.

Os argumentos da burrice são tão disparatados que até tonteiam uma pessoa instruída. Emília quis argumentar com o coronel, mas não viu caminho. Por onde entrar dentro de semelhante quarto escuro?
(LOBATO, 1997)


A tarde está nublada e fria durante a Reunião de discussão do Plano Municipal de Educação na Câmara Municipal de Ipatinga.
- Você está aqui por quê? – Uma mulher me pergunta.
- Estou aqui por ser professor.
- E eu sou “Philosophiæ Doctor”. – Pelo termo acho que dá para você imaginar a voz emproada da mulher. – É um absurdo querer acabar com banheiros de meninos e meninas para deixar um só banheiro, unissex, nas escolas. Mal vejo a hora de ir embora deste país maldito.
Tais falas me conduziram a uma resposta: Você comprou seu phd por quanto?
- Comprei mesmo, meu bem. E paguei caro. Sou rica! – E olhando-me de cima para baixo com nariz torcido: Não precisei de cota.
- Phd em burrice?
- Melhor que ser só um... um graduado. – Diz me olhando com asco. Não sei se “graduado” tem cara de “graduado”, mas ela acertou e respondo:
- Talvez! Mas me graduei por estudo e esforço, não por ter pago alguém para fazer minha monografia.
- Ai! Não suporto esse Brasil de pobres.
- Uai! Se não suporta por que ainda está aqui?
- Já estou de malas prontas, meu bem. – Enquanto fala piso em falso no altinho que separa o corredor das cadeiras e esbarro na “phd”. – Não toca em mim.
- Não toquei, foi um acidente. Foi um esbarrão. Por que tocaria em uma mulher burra e feia feito você?
- Posso ser burra e feia, mas posso pagar. E você que nem isso pode?
- Alienado, alienado, alienado! – Uma pensadora que age fala para um tolo próximo a nós. – Alienado, alienadoalienadoalienadoalienado!
- O que é alienado? – Pergunta para a phd que lhe explica.
- Eu num sô isso não. Eu sou é pela família cristã e num quero é que as escola transfórmi nossos filhos em bichinhas ensinando a eles que viadage é normal e colocando os minino e minina num só banheiro.
- Você leu o Plano de Educação? – Pergunto-lhe e pelo que disse e pela cara que fez confirmo o que suspeitava. Então concluo lhe dando as costas: Leu não!
- Estou aqui pelas famílias cristãs e como mãe cristã e zelosa eu quero que meu filho cresça sem que a escola lhe diga como deve agir. – Diz a “cidadã” Retalia Amelda. – Esse pessoal que fica gritando que não se pode proibir discussão de gênero nas escolas porque ocorre estupro até lá, assim como piadinhas sobre os gueis. Ora! Estupro sempre existiu e não vejo ‘relevança’ em discutir isso. E tenho amigos ‘homensequissuais’ e não tenho nada contra eles. Não sou contra o ‘homensequissualismo’, mas não quero que a escola transforme meu filho em ‘homensequissual’ dizendo que isso seja normal.
- Pastor Eberardo, dê sua colocação.
- Estou aqui pelas famílias cristãs e afirmo que tenho amigos gueis, bissexuais e talvez até alguns heterossexuais (?), mas a Bíblia diz que macho com macho não serve nem pra capacho.
- Jornalista e cidadão Já-Eu Prendo, dê sua colocação.
- É nosso dever proteger e cuidar das famílias cristãs. O Pastor Émalaifáia diz que a criança tem predisposição de assimilar características psicológicas. Os Papas Bento XVI e João Paulo II afirmaram o mesmo com outras palavras. Por isso falar sobre homossexualismo nas escolas é predispô-los à homossexualidade. Concluindo: Daqui tem que sair um movimento da família cristã para as escolas não fazerem lavagem cerebral em nossos filhos. Temos que proteger as famílias cristãs da ignorância, da violência, da pobreza, da vergonha, da desonra. Temos que proteger as famílias cristãs!
- Jornalista Prendo, e as famílias ateias e de outras denominações religiosas, não merecem também proteção? – Pergunto.
- Eles que unam seus grupinhos e se defendam...
- Então as famílias não cristãs devem ser ignoradas, desprotegidas e não cuidadas?
- Não ponha palavras na minha boca!
- Não pus; elas são suas. E...
O presidente da câmara me interrompe: Cidadã Maura, dê sua colocação.
- É estranho que nessa reunião não tenha biólogos, médicos, psiquiatras, antropólogos, sociólogos... Sexualidade é bem diferente de sexo. Quando o homem descobriu a sexualidade passou a fazer uso do sexo de maneira diferente dos animais. Ao discutir sexualidade discutimos orientação sexual e não opção sexual porque não há opção. Chama-me a atenção que aqueles que defendem a família e defendem Jesus Cristo... – os cristãos presente vaiam. – ... que aqueles que defendem a família e Jesus Cristo venham aqui, nessa casa, sem aceitar que todos sejam representados. Defender o estado democrático e de direito é a função dessa casa. Todas as realidades humanas devem ser alvo de percepção, sensibilidade, discussão e de políticas públicas. E quero lembrar a todos que batem no peito sua religião que Cristo queria vida em abundância – os cristãos vaiam – e vida em abundância para todos. E abundância significa o reconhecimento das diferenças e da diversidade. Portanto, estou aqui pelas famílias, todas as famílias.
A noite está escura; sem lua nem estrelas. Na Praça dos Três Poderes, vigília de vagalumes enquanto a manhã não desponta.


Ofereço como presente de aniversário a
Isabella Rosa, Brunna M. Alves, Simone Soares, Breno E. Garcia, Rúbia Maroli, Luiz Poeta, Ederson Junior, Shamilla Oliveira, Arlisson Toledo e Adriano Simone.

Convido a ler a crônica de Vinícius Siman e os poemas de Karine Farias e Rosa Mª Olímpia, respectivamente:

LOBATO, Monteiro. Serões de Dona Benta. 22 ed. São Paulo: Brasiliense, 1997, cap. XXII.

Outras informações: Audiência Pública para discutir o Plano Municipal de Educação, Ipatinga, 15 de julho de 2015:


Escrito entre 17 e 20 de julho de 2015. Ficção embasada em fatos bem reais.

Um comentário:

Josmar Divino Ferreira disse...

mUITO BOM ESSE SEU ESTUDO DA OBRA DE LOBATO. A FORMA COMO ESCREVE SUA LITERATURA É GENIAL. sOU FÃ.