sexta-feira, 4 de março de 2016

AGRIDOCE

De Vinicius Siman


Após uma discussão, vai a família, feliz por ter solucionado o problema, à pizzaria. Lá, outras famílias, também felizes por terem solucionados os problemas pelos quais discutiam, também comemoravam e comiam e bebiam alegremente. É impossível ver algo além de felicidade e amor nestas famílias. Assim que a família sentou-se, na mesa à direita o pai abriu a boca, e o filho retrucou-o, em voz baixa. E começou uma pequena discussão quase taciturna. Na mesa à frente, outra família ouve atentamente a discussão da família da mesa à direita, e o pai reclama — e o filho retruca-o e a mãe grita em voz baixa que “não se responde mais velhos”. Do lado esquerdo, o pai, sentado na ponta da mesa, imponente, assobia quando vê uma puta passar. Sua esposa o repreende e os filhos vão à defesa da mãe, em voz baixa para que a mesa de trás não ouça. Na mesa de trás, uma família qualquer acha estranho a mesa do meio estar em silêncio. A mãe — certamente solteira — abre a boca e sua filha, com percingis no nariz e na boca e nas orelhas e nos mamilos (percebe-se pelo volume na camisa), xinga a mãe em voz baixa. Na mesa onde está a família, chega a garçonete, que entrega o cardápio. A mãe prefere calabresa, o filho maior, mussarela, o filho pequeno chora de forma contida pedindo que a pizza seja de quatro-queijos. O pai abre a boca. A família protesta... em voz baixa. O pai escolhe a moda da casa. E as famílias, felizes por estarem conciliadas, entopem-se de pizza e refrigerante com gelo e rodelas de limão, que ainda assim é doce. E é assim em todas as pizzarias do mundo, e em lanchonetes e hamburguerias e pastelarias. Nos bares vivem os bêbados. E nas esquinas de todo o mundo, principalmente na esquina da pizzaria onde a família come e bebe com fartura, uma criança procura algo num saco de lixo. Sai comendo uma rodela de limão — até a casca. Mesmo sendo tudo muito amargo.

Um comentário:

Josmar Divino Ferreira disse...

UFAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA até que enfim o Google deu um brecha e abriu tua página... Li a "bagunça na pitizaria". Me impressionei com a posturas dos pais, e a gentileza dos filhos... Até da moça com piercings nos mamilos... Etá mundinho próximo do fim... Se fosse no tempo de meu pai jovem esses filhos atrapalhados teria "couro a menos" em teus corpos retalhados a bordoadas e para sarar as feridas provocadas pela tunda o pai taciturno passaria sal nas feridas. O mundo mudou e nem sei se para melhor.