terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Este mês trazemos o poeta e artista mineiro de Belo Horizonte Bruno Grossi, com o conto “UM SÓ DIA”, e, a escritora e jornalista paulista de Ribeirão Preto Liana Parentes, com o conto “FOBIA”.
Os dois, cada um com seus recursos e sua maneira, identidade autoral, retratam os conflitos internos que podem se manifestar de maneira às vezes trágicas e bizarras, no vasto mundo paralelo que é o inconsciente humano. Boa leitura!

UM SÓ DIA...Por Bruno Grossi
Ao nebuloso escurecer, meus olhos serrados de cansaço se abriram lentamente em um dia escuro, frio e melancólico. A vontade de meus membros se mexerem ficava cada vez mais distante. Peguei o relógio, que fica depositado em um velho móvel, no qual de longe se vê as ranhuras impregnadas pelo tempo, ao lado de meu estábulo e me deparei com as primeiras horas do dia. Meu pensamento ambíguo e incrédulo já me atormentava. Eram 3 da manhã, do dia 15 de setembro, dia em que, há exatos dois anos, meu pai perdia a vida em meu colo. Só e triste. Um dia marcado pela exacerbação da pobre alma, insípida e calejada. Um dia marcado para nunca mais ser o mesmo.
Desde então, minha psíquica mente me tormenta. Desisti de pensar no quão difícil era evitar minhas visões e audições e resolvi me contemplar com o que tinham me destinado. E então pensei:
- “Me suicidaram”. Suicidaram-me para um mundo diferente, no qual não se morre, apenas aperfeiçoa-se a lunática mentalidade.
Assim, pus-me de pé. Arrastei-me até o lavabo. Meus olhos inchados de preocupação pareciam não mais abrir. Mas sabia que em algumas horas, podia não mais estar ali. Aproveitei então aqueles sofridos e deliciosos minutos de apreciação da vida. A vida que me consome, que me angaria, que me mantém como uma espécie em extinção. Percebi ser apenas um simples ser que pensa e reflete sobre os seus próprios insanos e lógicos pensamentos psicotraumáticos de suma importância. Declarei então em sábias palavras o meu ardor:
- Às vezes eu choro, choro por nada, choro por tudo. Pareço sentir o sofrimento do mundo, de uma criança sem estudo, de uma criança intelectual. Pareço sair do meu corpo, um corpo ativo, um corpo parado. A alma de um vivo em um corpo deitado.Até o ponto de ônibus eu caminhei, sem olhar para nenhum dos lados. Um vazio e uma loucura alimentavam meu peito. Tinha medo de o meu próprio caminhar e do sussurro ouvido a todo tempo. Um desespero que me rasgava o peito. De um certo modo, completamente perturbado.
De degrau em degrau, entrei em meu mais tortuoso inimigo. O ônibus. Um aglomerado de mentes alheias e uma malevolência da profunda energia habitada neste ardoroso ambiente. Sentei-me no primeiro e único banco perto do vidro e permaneci imóvel, olhando para frente. Para mim mesmo sussurrei o pensamento mais angustiado de toda uma vida. Peguei uma carta em meu bolso contendo as palavras de quem não mais queria viver e li em voz baixa.
“A sombra me persegue sob a névoa. Não consigo me mover. Sou incompreendido. Preso em um muro ou em meu próprio pensamento. Meus olhos já não fixam em algum lugar. Como a lua pára pra te olhar. Estes vilipendiados olhos doem, choram e imploram para que fiquem sós. Não consigo me livrar do infortúnio calar. Sinto pessoas a me olhar como um animal devora a sua insípida carniça. Creio que irão matar-me. Sinto-me desprotegido, frágil, inútil. Sinto-me sem amor, sem dor e sem desejo. Já não sei o que fazer. Procuro a solidão para que minha trágica energia não contagie as pessoas. Para que meu olhar não cruze com os demais, assim terei meus próprios sentimentos. Meu próprio coração. Que a cada despertar encontra o silêncio. Estou surdo e cego, estou inválido. Me submeto ao inoportuno desespero. Ao incômodo calar. Viver agora dói. Não mais a quero”.
Uma carta suicida? Ou apenas uma carta de quem tem sentimentos mediúnicos interferidos pelo contato espacial e psicológico do desconhecido? Eu não sei. Desci do ônibus pelas ruas do centro da cidade. Olhei para os maiores prédios e me imaginei despencando de mais ou menos 20 andares. Olhei para o lado, me deparei com uma pessoa sentada em uma pedra e reparei a árida angústia que medra em teu olhar. Os pés pareciam enfraquecidos, tuas ávidas mãos dóceis e calejadas seguravam um pedaço de pão, sujo e cheio de vermes. Mas essa pessoa precisa alimentar seus filhos. Como pensar em algo limpo e saudável? O suor escaldante e o silencioso olhar me fizeram desistir de pular do edifício. O desespero e a angústia de viver me proporcionam isso.
Segui em frente. Caminhei durante muito tempo, pensando em minha simples e dispersa trajetória de vida. A falta de estímulo e conexão com o tempo real era o princípio de minha angústia. Pensei estar no fim. Disseram que eu era anormal, estranho e sozinho. Parecia um louco autista. Andei mais um pouco e me comovi com uma triste senhora imóvel, em pé, de olhos fechados, apontados para o céu. A vi sorrindo como se não a quisesse. A sua mão estava em sua testa franzida e suada, como quem sua em um estado altamente febril. Abriu os olhos e, com um olhar insano de quem não precisa mais viver, fez-se uma lágrima descer lentamente, como um único adeus. Assim, esta triste mulher saltou na frente de um ônibus e para outra vida seguiu. Um outro plano espiritual que não mais este em que vivia.
Pensei inconformado em o que mais poderia acontecer de ruim para fazer com que não desistisse assim tão fácil de minha vida que, aparentemente, parecia normal. Rapidamente, desci a rua. Desesperado e chorando, achava que a desgraça e a morte estavam me perseguindo. Mas como correr de algo que estava buscando? Algo que eu mesmo aclamava e dizia ser o melhor para mim? Uma contradição vista de um lado obscuro. Vista de cima. Minha alma acabava de sair do corpo em movimento. Meu corpo frágil e transparente, suscetível a sentimentos malévolos e impuros. Um corpo que neste momento era de carne e osso e não de vida. Corri por entre as ruas, carros e transeuntes do centro da cidade. Parei em uma rua na qual um arco embelezava o incrível viaduto. Sem nenhuma calma e com um medo agonizante, queria morrer para fugir da morte. Tomei coragem e subi no estreito pára-peito do viaduto antigo e sujo que resistia à cidade. Um viaduto que já embelezou e consagrou aquele lugar, como um símbolo, mas que ali estava desgastado, cheio de urina e fezes, depredado pela própria população, adquirindo um aspecto incrivelmente propício para a pior maneira de terminar uma vida. Quanto mais gente chegava, mais eu subia e atingia o alto ponto do arco. Assustado, atônito e “desfacelado”, não entendia porque eu era assim tão atormentado. Olhei para baixo e vi o quanto a vida era frágil, e quantas pessoas ali paradas me viam sofrer. Quando, do outro lado, me deparei com minha alma sentada no arco, olhando com um olhar que se despedia, um olhar que eu nunca teria visto, a não ser nos últimos segundos de minha vida. Como se não quisesse, mais um passo dei em direção a rua e do alto do viaduto minha vida inteira passou na indesejável e vaga lembrança que ali me destinara até o impacto.
Ali, em minhas mãos fechadas, havia um pequeno bilhete, um bilhete ensangüentado pelo cair da vida. Algo que poderia desvendar a angústia e o desespero deste feito. Um pequeno poema. Uma tradução da vida, escrita pelo poeta Rimbaud. “A estrela chorou rosa no coração de teus ouvidos. O infinito rolou branco de tua nuca a teus rins. O mar orvalhou ruivo em teus seios tingidos. E o homem sangrou negro nos teus flancos paladins”.
** Citação do poema “A estrela chorou rosa” de Arthur Rimbaud

Sobre Bruno Grossi: "Eu sou regionalista. Gosto de retratar o que vejo e o que sinto. Não tenho nenhum estilo rotulado, nenhum movimento, pois acho que quando aderimos a um, fechamos o caminho para uma só vertente. Eu procuro transcender, concatenar o sentimento para um certo tema. Procuro mostrar exatamente o que estava sentindo na época da criação de cada obra. Quando trabalho pareço me transportar para um mundo desconhecido, de mãos cálidas e corações vis. As vezes pareço incompreender a minha própria certeza, como em um hermético sonho de cores nobres e caminhos farpos.
"Bruno Grossi é poeta e artista mineiro. Teve poemas publicados no Brasil e do Exterior. Recebeu prêmio e participou de festivais com seus trabalhos de vídeo-arte. Lançou em 2007 seu primeiro livro de poemas "O Grão Imastigável".
E-mail: brunogrossi.arte@gmail.com
(31) 8884.0913 – 2535.6642
www.aliviodaalma.blogspot.com


FOBIA
Por Liana Parentes

Cinco horas da manhã. Pontual, ela acordou, olhou para os lados e viu que estava só. Levantou-se, foi até o quarto de Lara e constatou, o só se transformara em solidão. Ninguém para conversar, ninguém para contar as vitórias e derrotas do dia anterior, ninguém para lhe fazer um chá, ou para ela oferecem um, ninguém para junto fumar... Sentou-se em uma das cadeiras da cozinha olhou as paredes brancas e começou a pensar em sua jornada até aquele dia. Olhando para trás naquele exato momento pareceu-lhe a vida uma eternidade, cada domingo parecia-lhe um século e ela simplesmente se recusava a viver mais um século na mais completa solidão. Os amigos, ou namorado, ou familiares, não aparecem do nada, ou da vastidão de uma solidão fria e inóspita estendendo as mãos. Um gesto tão salvador é preciso ser conquistado arduamente. Se magia existe, certamente não é para todos, o mortal comum precisa lutar e muito, para tornar real suas próprias expectativas, e, especialmente neste caso, uma única expectativa: a de não estar só. Telefone! Seria fácil pegar a agenda procurar alguns números ligar e acabar com o tal estar só, mas esta atitude ela não toma. Solidão..., resolver os anseios do coração não é tão simples, naquele momento estivesse Lisa em meio a uma multidão, ainda assim, estaria só. O que havia de fato ali era mais um domingo, longo... Domingo. E como todos os domingos ela toma sozinha o chá preparado por ela, senta-se no sofá da sala liga o som e ouve músicas. Geralmente trilha sonora de filmes e show de rock gravado ao vivo. Tipo de música mais requisitado por ela para a costumeira solidão. Todos os domingos o mesmo ritual, porque, seres humanos, precisam de rituais. Eles se apegam a eles, como se deles pudessem extrair uma centelha, uma luz, uma divindade protetora e repetir, é pisar no mesmo chão, pode não ser bom, mas é conhecido. Fora que ninguém ousa explicar a reincidência de certas atitudes.
- Ah! Certo, vou me apresentar e lhes contar agora como é estar à espreita, há anos, observando sozinho, privilegiado ou condenado pela condição de narrador, isso mesmo, sou o narrador:
Lisa neste momento está com o controle remoto na mão e o rosto totalmente sem expressão e cor. Percebo estar ela viva, somente pelo movimento ávido dos dedos sobre o aparelho. E assim ela permanece alguns minutos, com o controle remoto à mão. Então ouço um sussurro... - Não vou chorar, não vou repetir a mesma cena de todos os domingos, não. Porque não paro de tremer? Pretendo hoje me controlar, saberei deter impulso tão vil e degradante, esta sede... de quê? não sei, talvez de vida, ou de morte! Música. Eu ouvirei mais alto, espantarei este surto, este espasmo louco com o som. Uma música suave... Solidão, ora solidão é ilusão ao contrário, quem está só? Eu, sim, mas quem não está?, todos estamos, diz Lisa. Ouço no momento sobressair-se ao som da música um grito desesperado saído do interior de Lisa, como se este grito estivesse preso dentro dela há séculos. Jamais, fora dali, meu observatório, eu ouvira som mais triste e estranho, uma mistura de desespero, escárnio, fúria, algo tão insólito que, tal e qual, alguém jamais ouvira, é certo. Como pode tão pavoroso som sair de dentro de um corpo, o que a tortura? Ela então veste seu semblante mais aflito e taciturno, levanta-se, olha em redor desconfiada, parece sentir a existência de um observador. - Onde está você, diverte-se por acaso com minha agonia, quer saber por que me comporto assim? Quem sabe oh nefasto ser, estou condenada a viver esses momentos simplesmente para você observar? Não seria meu desespero sua melhor sessão de prazer? Mas se assim for, juro que lhe mato, um dia desses localizo seu seguro ponto de observação e sem piedade lhe mato, e você sabe que sou capaz de tal gesto, e como sabe!, ela diz. Algumas vezes ela me assusta, mas confesso não conseguir sair daqui, também eu sou um condenado. Condenado a observar sem nunca poder me aproximar, só observar. O choro, o choro muito alto a uma longa distância poderia ser ouvido, mas parece que só eu ouço esta lâmina que dilacera os ouvidos. Ela se debate grita mais alto ainda e atira um primeiro objeto contra a parede. Daí em diante o panorama é chocante, uma linda mulher transtornada, transformada em fera se debatendo, se contorcendo e quebrando todos os objetos ao seu alcance como se fosse uma tormenta a sucumbir misteriosamente aos caprichos da natureza. O mais completo estado de loucura permanece por mais de uma hora. A seguir o silêncio total e sombrio, apenas nota-se o movimento de um perfil esquálido, diáfano, fundindo-se com as vestes cor champanhe de Lisa. Ela desliza pela sala quase em ruínas até a janela e ao abri-la, ela murmura. - Amanhã Maria terá muito que fazer. Hum!... Eu?, eu quero sol, sol iluminando meu corpo. Neste exato momento a serenidade de sua expressão é imensa, jamais denunciaria o acontecido há poucos minutos. O calor aos poucos a regenera, a luz parece ser seu alimento completo. Num movimento suave Lisa se livra delicadamente de suas vestes transparentes, está neste momento linda e intocável... Intocável. Em seguida coloca um vestido preto, um par de sandálias da mesma cor, procura pela bolsa em meio aos escombros da sala, encontra-a, de dentro retira um pequeno estojo que tem dentro um batom vermelho cor de sangue, abre-o e desliza-o sobre os lábios, depois o fecha com a tampa dourada, recoloca-o no estojo, também dourado, guarda o estojo dourado dentro da bolsa e dirige-se à porta.Lisa está deixando sua casa, está feliz. - Bom dia João! Bom dia Sonia! Olá garotada, quando Lara chegar façam-me um favor, digam a ela para esperar-me assim almoçaremos juntas. - Quem é Lara? - Lisa sempre passa o mesmo recado, mas nunca vimos a tal da Lara, diz um dos garotos em voz baixa. Lisa caminha mais duas quadras e chega a uma padaria! - Bom dia Manuel! Capriche em meu café da manhã, estou muito faminta. Hoje... o dia está lindo, muito lindo, não está Manuel?, ela comenta em voz bem alta e sorrindo. - Sim dona Lisa, lindo, como todos os domingos, diz Manuel também sorrindo!

Liana é paulista de Ribeirão Preto, onde ainda vive. É formada em Jornalismo e atualmente trabalha como revisora e preparadora de textos de jornais e revistas da região(free lancer).
Desenvolve também um trabalho como web writer, ou seja, prepara textos para serem publicados na internet.
Contato: liana-parentes@hotmail.com

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