terça-feira, 2 de agosto de 2011

EU NÃO SEI

“Não bastasse o bandido,

tem-se a polícia,

o juiz"*.


Obax anafisa.

Não sei! Eu, Willian Costa, simplesmente não sei se é melhor eu me calar ou se devo falar mais.

Descia para o Parque Ipanema e sob o viaduto a radiopatrulha parou. Três policiais. Nenhum gordo, nenhum magrelo, todos fortes.

- O que você leva aí? – Berrou o carona com suave voz de mel.

- Meu notebuque.

Dois desceram com armas na mão.

- Deix’eu ver. – Ordena um com suave voz de mel então abro a bolsa. – Tem nota fiscal?

- Aqui comigo, não. Está lá em casa. – Suspiro, ainda sem me levar pela raiva da inutilidade policial. Retiro o aparelho, que é preto, e mostro dizendo “tem um adesivo do Galo e outro da trupe Maria Farinha”. O descerebrado tenta usar o que não tem – cérebro – e diz

- Veja aí, siu “I not buck” tem alguma acaracterística.

O motorista pergunta pelo rádio e a resposta se faz entreouvir

Taf raf taf masfsfcis marca massosfsres branco. Taf raf.

- Nelinão. – Fala o caladão guardando a arma e, voltando para o veículo, o falastrão continua enquanto a guarda também

- Cetende porque a gente te parou-te.

- Entender eu entendo, mas não compreendo porque precisavam me acuar.

- ACUAR! – Grita o falastrão enquanto rosna o caladão e os dois voltam para mim com as mãos na arma ainda guardada.

Com raiva, mas em tom baixo, parte por medo e parte para não perder a compostura, digo

- Acuar e coagir. Três homenzarrões com armas não mão enfrentando um magrelo é o quê?

O caladão com arma na mão. Não apontada para mim, mas pronta. E o falastrão com suave voz de mel:

- QUÉ RECLAMÁ, PÓ RECLAMÁ. POMI DENUNCIÁ EU. DIGA QUIÉU LUCIANO. – E continua gritando. Agora ambos com armas na mão. Não apontando, mas prontas.

- Não! Quero não!

Penso: denunciar para quem? A polícia para polícia? Como aconteceu em 2002 com Heder, um conhecido meu, preso por não aceitar os desmandos da polícia que revistava com agressão um negro. Ambos foram presos, Heder passou o resto da madrugada apanhando e ao amanhecer lhe perguntaram se tinha alguma queixa...

- OCÊ TÊINQUI TÊ RESPEITO PELAS AUTORIDADE.

Penso: respeito? Como aconteceu com minha irmã que teve sua casa assaltada, prenderam os ladrões e os policiais disseram não terem encontrado os objetos. Meu pai, advogado, entrando na delegacia – a que fica no Centro, na avenida João Valentim Pascoal, para ser mais preciso – encontrou lá os objetos roubados que eles não tinham encontrado...

- A GENTI SOMOS TRABALHADORES.

Penso: trabalhadores? Como no ano passado eu dando aula de teatro para adolescentes na rotatória do bairro Canaã e tinha, quando chegamos, dois policiais obesos e sedentários ou sedentários e obesos no posto de gasolina. Meus alunos, de olhos vendados, examinavam toda a rotatória. Exatamente vinte e dois minutos depois os policiais aparecem mandando com suave voz de mel que os garotos tirassem as vendas. O que foi feito. Então, depois que estragaram minha aula, falaram “podem colocá-las”.

- OCÊ TEM QUI SABER CONVERSAR, VIU?

- Penso: conversar como? Primeiro eu os detesto pela suas inutilidades e desmandos. Segundo eles não tem capacidade de dialogar. Terceiro, eu, Willian Costa, simplesmente não sei se devo falar mais ou se é melhor me calar quando se encontra com quem desmanda com armas nas mãos e nenhuma capacidade de dialogar...


Ofereço como presente de aniversário à

Martin Dali e Camile Gracian.

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.
O cronto é minha flor para você

e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

* DELARTE, Willian – Sentimento do Fim do Mundo – poema Existencialidade – São Paulo: Editora Patuá, 2011.

6 comentários:

Nathy Costa disse...

boa descrevencia de tanta descrepancia!

Sonia Maria de Lacerda disse...

Gostei demais das palavras de Nathy Costa. Queria saber de onde ela tirou isso. Quanto ao cronto, é isso aí, meu caro Rubem.Eiata mundo véio...

aRTISTA e aRTEIRO - Rubem Leite disse...

Sônia, boa pergunta.
Nathy, dondecê tirô essas palavras? Elas são bem legais.

aroldochagas disse...

Cara, tenho um sentimento estranho sobre esses caras...
Tenho um poema (temporariamente desaparecido) sobre polícia que expressa minha absoluta solidariedade
à sua indignação. Prometo que quando encontrá-lo o introduzirei neste retângulo.

aRTISTA e aRTEIRO - Rubem Leite disse...

Aroldo, meu caro, se vira e ache logo o tal poema. Uarrarrá! Realmente quero lê-lo.

Delarte disse...

Ruben, fico lisonjeado com a citação em sua epígrafe, e triste pela realidade contumaz elucidada... e ainda: "não bastasse o pai/tem-o patrão/não bastasse o não-ser/tem-se a questão" (...)

Grande abraço!

Delarte