segunda-feira, 17 de novembro de 2014

RAZÃO NAS NUVENS

Obax anafisa.
In memorian Manoel de Barros.

Brasil era roubado e explorado por Portugal, mas ai o povo brasileiro lutou por sua independência e provou que consegue se roubar sozinho. Seria cômico, se não fosse verdade.
Paulo Bonfá.


Uma manhã em uma praça. Debaixo de uma árvore, olhando os canteiros floridos, pensando. Chega um cidadão e falamos sobre falos, falas e viragos. Até que lhe pergunto:
- Oi! Vamos à Feira do Livro?
- Fazer o quê?
- Ver, comprar, ler...
- Pra quê?
- Pelo prazer de le...
- Pra que vou desperdiçar dinheiro com livro? Papel por papel vale mais o higiênico. Se é pra gastar que seja com o mais útil. Melhor que comprar livro é comprar papel higiênico.
- Realmente! Para quê? O que sua cabeça produz se distribui pelo fiofó.
À sombra de uma árvore olho os canteiros floridos. Penso enquanto o cidadão se vai e me chega outro. E nossa fala é sobre viragos, falos e falácias. Até que muda de tema e me pergunta:
- Oi, Benito, tudo bem?
- Sim, graças a Deus. Estudando muito, trabalhando bastante, lendo igualmente. Rerrê. E você, tudo firme e forte?
- Tô nada! Sei lá... Cada dia minha vida tá de um jeito.
- Cara! Profunda e sinceramente torço para que não perca a consistência. Que avance resoluto; não importando as pedras do caminho, que você vá e vença!
- Também quero isso mais não tá fácil. Tem horas que penso em desistir de tudo.
- Conhece o “Poeminha do Contra”, de Mário Quintana? Pense sempre nesse poema: “Todos estes que aí estão atravancando meu caminho. Eles passarão, eu passarinho”. Assim, entendo sua vontade porque às vezes, e não são poucas, tenho o mesmo desejo. Mas persisto porque não vou dar a ninguém o direito sobre minha vida e, mais importante, porque eu sou filho de Deus.
- Ah... Se fosse fácil assim.
- Veja o blog do Rubem Leite e leia “Lua Inquieta” e “Poemas Para”.
- Ah se fosse fácil assim. Agora, vou indo. Abraços!
- Rerrê. Coragem, cara! Coragem
- Vou tentar. Se não me ver mais aqui é porque desisti de viver até um dia. Beijos...
- Espero que persevere. Para um dia de beleza e de harmonia, ouça Bachianas Brasileiras número 5.
- Vou tentar, cara. Vou tentar.
Ele se vai sem si e eu fico olhando a praça. Uma borboleta branca e preta pousa numa flor. Outra amarela voa por mim e não sei porquê crio em inglês e canto:
Butterfly sings in air
Men shout in clod
My heart tries to be fair
My eyes are in cloud.
- Senhor! Compra um lanche pra mim?
Olho para o andrajo ao sol e vejo sua mão estendida para um terno à sombra.
- Quer comer? Vá roubar! Que é o que vocês fazem.
O andrajo perde a voz e o terno se vai.
- Quer um lanche? Vamos àquele bar.
Seu sorriso me segue até eu diminuir meu ritmo para ficarmos lado a lado. Conta-me de onde é, diz por que está aqui e me fala de sua esposa e filhinho. Mas não quero conversar e saber sua história; real ou falsa. Só não me interessa que ele tenha o que nunca tive. Fome.


Ofereço aos aniversariantes
Chicão Fidideus, Andreia Lima, Daniel S. Morais, Savio Tarso, Nary Farias, João V. Barros, Helon Tavares.
Ofereço ao Grupo Pagojean, Livro Etc. e Hibridus Dança.

Lua Inquieta e Poemas Para:

Aproveito para convidar a ler também:
Poema para Manuel de Barros (em ocasião de seu encontro com as estrelas), de Thiago Domingos
Não é só uma carta de amor, de Karine Danielly

Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.


Escrito entre os dias 23 de abril e 17 de novembro de 2014.

2 comentários:

Josmar Divino Ferreira disse...

Arrasou amigo Rubem Leite. Sou fan...

Capotyra disse...

Eita mundo malvado, não, Rubem? Na mosca!