segunda-feira, 14 de setembro de 2015

VAMPIROS

Potira itapitanga.


Avança noite fria
Cada um por si
Ninguém por ninguém
Virá mais um dia
Decepcionado adoeci.

Uma névoa na noite sem lua espraia pela rua e alcança o alto de um prédio onde há um grande gato preto. A nevoa principia uma forma ao lado do gato. Os dois se conhecem; a forma enevoada se fez Guino e os dois olham frio para baixo:
Cinco homens prendem uma sexta no porta-malas e ela grita, grita e grita. Voz fina, mas não se sabe se de homem ou de mulher.
Aqui em cima apenas um miado “Miaumorre!”. La em baixo apenas uma voz de pessoa “Socorro!”.
Na calçada onde o carro está parado, a cinco metros da cena, um mendigo olha aflito e se consola fumando uma pedra, outra pedra, mais pedra.
Gritos e pedras, gritopedrapedragritogritopedra. Pedras e gritos. E a pessoa se tornou mera voz na chuva fria.
De uma janela do prédio oposto um homem olha inerte enquanto olho impassível; gritos continuam; a pedra apagou; o homem pega o celular.
Chuva.
Cinco homens; um pega um porrete de metal, quatro retiram a sexta do carro; seguram-na deitada; metal contra carne no asfalto produz som de pedra; sôfrego e canhestro, o mendigo caça algum cisco de pedra na calçada onde está. E o homem na janela do prédio oposto não chama a polícia, não faz nada; só se angustia.
Os homens a largam; solta, corre gritando “polícia” na chuva fria; o mendigo fuma outra pedra encontrada só Deus ou o diabo sabe onde; Edgar Allan, o gato, sai do terraço (talvez volte para sua casa); desfaço-me em névoa sobre o carro que se vai.
E a fome humana continua em ânsia e angústia. Eu saciarei a minha.


Ofereço como presente aos aniversariantes
Geórgia A. Bastos, Ricardo Alves, Sandro Assunção, Deise Brenda, Creusa Melo, Claudio S. Miranda, Wenderson Godoi, Mateus T. Sousa, Bárbara Vilela, Francisco P.A. Costa e Wolmer Ezequiel.

Recomendo a leitura de “Canção do Exílio”, de Bispo Filho; e “Não Tema a Morte”, de Jackeline V. Valentim:

Convido a ler também a linda homenagem que recebi:

Potira itapitanga são duas palavras que vem do tupi e significam “flor” e “pedra vermelha” (rubi). É meu desejo que cada leitor encontre em meus textos flores e pedras preciosas.


Escrito entre a noite e a madrugada de 13 e 14 de setembro de 2015.

3 comentários:

Josmar Divino Ferreira disse...

Seu texto deu-me a ideia ou lembrança de Poe, com aquele gato preto no alto do prédio coberto pela neblina.... Que medo, se tivesse lido no começo da noite certamente teria pesadelos amigo Rubem Leite. Muito bom.

Jurandir Barbosa disse...

Salve meu querido, escrita poética como a do Edgar.
A pedra, as pedras, tantas pedras no meio do caminho...
...sintéticas pedras

Alesssandro Guimarães disse...

O que queremos ouvir do mestre que procuramos?