domingo, 1 de julho de 2018

TAÚBAS – ACASOS



Taúbas. Ponto periférico de Ipatinga. Ruas empoeiradas, raros ônibus, cheiro de chiqueiro. Forró do Badé, que de um lugar mudou-se para outro. Descemos do ônibus, paramos em um boteco, pedimos uma cerveja. Dna. Maria nos traz.
Seu Zé – alguém que nunca tínhamos visto – puxa conversa. Senhor simpático. E nos três minutos antes de ir embora ficamos sabendo que morou dezoito anos em Portugal. Lá deixou de fumar, mas não parara com a cerveja. Ele me diz: “Leite fresquinho e queijo novo eu tenho para servir em casa. É na última porteira. Vá lá.”.
- “Time sem vergonha!” – Canta a torcida do Galo pela derrota diante do Caldense.
Dna. Maria comemora. Ela não está só. Eu estou. E não me sinto bem; não por estar só, mas pelo alguém que me acompanha.
Deixo a companhia no boteco e passeio pela rua. Extensa única rua do bairro. Um córrego a corta debaixo de uma ponte travestida de estrada.
Na margem direita de quem sobe, dois bancos. Um de madeira e outro de cimento. Sento. Olho o riacho, sinto seu cheiro. Vejo uma figueira; apoio-me nela. Subo, sento, fecho os olhos e vejo um poema. Desço, sento no banco de cimento, olho as águas e escrevo o que vi.
Corre o rio no seu murmúrio
Não há vento balançando as árvores
Gostamos de quem faz o que gostamos
Acho que isso não é amar
Murmúrio do rio
Moto passando
Tempo passando
Árvore não balança com o vento
Murmúrio do rio
Água passando
E eu aqui...
A companhia me encontra, interrompe e vamos ao casamento que me trouxe.
Entram crianças, padrinhos, noivo e sua mãe, crianças, noiva e seu pai. As crianças sentam nas bordas do tapete vermelho condutor dos nubentes ao pastor.
- O casamento é duradouro. Duradouro é o que dura. – Meu Deus, que profundo... E de quais profundezas veio isso e isto: Casamento é quando o varão deixa seus pais e se junta a mulher. E só entre eles há casamento. Nunca entre ele com ele ou ela com ela...
Melhor é pensar em Cajuína, de Caetano Veloso, ou no Feirarte ou na bateria de Cláudio Castro.
Quem casa quer casa, mas não quero só caso e nem por isso caso. Nem com quem me acompanha, pois há quem casa, há quem faça casos e há casos.


Ofereço como presente aos aniversariantes Edgar Soares e Rita E.M. Rocha.

Recomendo a leitura de:
“Isso não te faz mal? Mal é o que me fazem!”, deste macróbio que vos fala:
“Um Oriental Chinelar”, de António MR Martins:
“Irma del Águila”, de Gianmarco Farfán Cerdán:

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve e publica neste seu blog literário aRTISTA aRTEIRO todo domingo e colabora no Ad Substantiam às quintas-feiras.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. E em breve também professor de História. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Foto: Apontamentos 01 – Espaço de Convívio (Híbridus).

Manuscrito em 10 de fevereiro de 2018; trabalhado entre os dias 30 de abril e 01º de julho do mesmo ano.

Um comentário:

Unknown disse...

Nossa! Como sou fã deste escritor e amigo Rubem, que carinhosamente apelidamos de Rubem MIlk!
Rubem, você tem a característica da sensibilidade literária. Ler seus artigos, contos e todas as suas produções. Ser artista e arteiro como você, faz toda a diferença em um mundo de sons naturais na escrita.
Agradeço o carinho pela dedicação deste pelo meu aniversário, um presente lindo que vou guardar em meu coração para sempre.
Você é nota 100000000000000000!
Beijos e abraços

Rita Eneida