segunda-feira, 12 de abril de 2010

REMOENDO

Rubem Leite – 11-12\4\10

Escrevo ouvindo “Boa Noite, Amor”, na voz de Jair Rodrigues

e, principalmente, “La Cigarra”, na voz de Renato Teixeira

e ainda “O Estrangeiro”, na voz de Caetano Veloso.


Remoendo! Remoendo as antipatias em meu coração estou aqui na mata com meu pai, de quem gosto muito, mas não entendo que idéia foi essa minha de vir pescar. Não tenho paciência com a inatividade e ficar remoendo os sujeitos. Passar um fim de semana inteiro no mato. Idéia jeríctica. Ele aguando as minhocas, alimentando os peixes e eu ter que fazer o mesmo. Melhor ler um pouco. E foi o que fiz. Tolerei a manhã, mas desde o início da tarde tive que ler o livro que, graças a Deus, cismei em trazer e seguir minha intuição. Na verdade, dois – Alivio da Alma, de Bruno Grossi, e Vulgo Grace, escrito por Margaret Atwood e traduzida por Geni Hirata –. Será verdade a idéia do Bruno de que “A dor das palavras é o alívio da alma”? Outra coisa para remoer, mas dessa vez vale a pena, acho.

Com esses pensamentos dei uma cochilada. Fim de tarde acordei.

- Pai, vou dar uma volta.

- Hum!

Com ele olhando para o rio afasto para o meio da mata. Um ventinho suave no rosto. Muito verde as árvores, muito marrom o chão e um pouco de cores variadas nas folhagens e flores. Um vento agradável. Passarinhos cantando. Sabiá, curió (acho), bem-te-vi (com certeza), araponga (quanto tempo não ouço um. Pena não conseguir vê-lo). Com um vento encontrei um pequeno descampado com os últimos raios de sol do dia. Fui ler mais um pouco. “Chovia e uma enorme multidão aglomerava-se na lama, alguns curiosos vindo de muito longe. Se minha própria pena de morte não tivesse sido comutada no último instante, teriam me visto ser enforcada com o mesmo prazer insaciável. Havia muitas mulheres e senhoras da sociedade lá; todas queriam ver, queriam respirar a morte como se fosse um fino perfume. Quando li sobre isso, pensei: se for uma lição para mim, o que se supõe que devo aprender com isso?(Vulgo Grace, pág. 39). Com a leitura de mais algumas páginas cochilei remoendo o trecho acima acordando com a companhia da noite. Um vento frio. Olhei chateado para o céu e só vi algumas estrelas e nada da lua. Se bem que ela pouco ajudaria já que lua minguante. Não se chora pelo leite derramado então foi melhor voltar no escuro mesmo. Bem que sou obediente e andei pela mata com uma lanterna e algo para comer como sempre insiste meu pai. “Deixa eu ver... Fiz questão de sentar de frente do lugar que vim... Então é para lá que vou”. Retornei a andar com o vento um pouco mais forte. Dez minutos. Vinte minutos. Meia hora. Uma hora. O tempo aumentando, o medo crescendo, o vento parecendo de tempestade. Uma névoa... Não! Muito pequena para ser névoa. É gás. O vento cada vez mais forte não dispersou o gás que tinha, reparei, uma forma... Uns dois metros de altura, uns cinquenta ou sessenta centímetros no seu meio, seu alto quase tem um separação... como se fosse uma quase esfera pequena acima da parte ovalada... No ar, indo de uns dez a cinqüenta centímetros, subindo, descendo, o gás. Uma parte à sua esquerda se destaca sem se desprender erguendo como se fosse um braço. O corpo gasoso, sim, só pode ser um corpo, e vivo, deslizou pelos vários metros que nos separava. Percebi uma forma levemente humana e quanto mais se aproximava, mais sólida parecia se tornar. Um corpo de homem. Sessenta por cento água. Trinta por cento gás. Dez por cento sólido. De onde será que tirei isso? Parou com os pés no chão tão próximo de mim que se erguesse outra vez seu braço me tocaria. O medo que me silenciou começou a se esvair abrindo a minha boca e ele me disse

- Não se assuste. Está perdido?

Respondo para uma coisa dessa? Você responderia?

- Não se assuste. Posso te ajudar a encontrar o caminho para onde quer ir.

- Muito obrigado! Mas não precisa se incomodar.

- Não é incômodo. Vem! Vem!

Não saio do lugar então ele vem até mim. Dou um passo para trás. Ele não para.

- Não precisa ter medo. O caminho é por aqui.

Fala passando por mim. A luz da lanterna quase não o pegando mais sigo-o.

- Meu nome é Guino. O seu?

Guino é bem mais alto que eu. E adulto. Branco, cabelos pretos. Rosto comprido. Calça preta, camisa branca. Não é feio. A única coisa que assusta é um gás se solidificar...

- Ah! Meu nome é Breno.

Enquanto andamos Guino não parou de falar sobre a noite, a floresta, livros (acho que viu o que estava comigo), mulheres, animais. Comida. Não sei porque resolvi olhar para ele através do meu espelho que peguei no meu farnel. Na mesma hora ele se virou pela primeira vez para me olhar e se vê. Seus olhos se avermelham de ódio, seu rosto estava horrível, suas mãos... duas garras e seus dentes enormes. No espelho, sob sua forma transparente ele me abraça. Beija meu pescoço. Meu pênis erige-se enquanto meu corpo amolece. Foi a melhor coisa do mundo. É a melhor coisa do mundo.

- Não sei quanto tempo isso me aconteceu. Foi mais ou menos aqui, onde estamos, que passei a morar com Guino. E agora convido você a morar conosco. Fazer amor conosco. Vem! Vem!


5 comentários:

Franklim disse...

Quero um Guino para mim! Quero experimentar esse amolecer/enrijecer e descobrir se essa desconfiança acabada, esse exato momento é tão prazerozo como nos relata. Feliz texto (na falta da palavra que não consigo encontrar para designar esta obra de arte). Me tocou.

Josmar Divino Ferreira disse...

Como sempre seus textos estão cada vez melhor. PARABÉNS.

Emília Domingues disse...

Adorei o texto e principalmente o Guino!!!

Emília Domingues disse...

Adorei o texto e principalmente o Guino!!!

Emília Domingues disse...

Adorei o texto e principalmente o Guino!!!