segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

TRIÂNGULO DE AÇO

Obax anafisa.


Tenho vinte e sete anos e por oito trabalhei sem carteira assinada como chapa, mas caiu peso sobre os meus pés. E assim fiquei com esse machucado aqui, ó – mostra, mas fecho os olhos. Que mania desagradável de alguns quererem nos mostrar perebas. Quem gosta de ver isso não é normal. Ou talvez seja... – Tão vendo? Poisentão. O médico do SUS está tratando eu de graça – “de graça?”, pensei meio que rindo. E os impostos que pagamos? – e disse quessó daquiasseis mês poderei calçar botina. Eu recebia R$90,00 por dia – o salário mais alto que tive foi R$1.000,00 por mês. Isso sem contar os descontos para INSS e etc. –, mas nada mais tenho além desse pacotim dibala qu’em desespero vim pedirajuda a cadaum docês. Ajuda não em troca dessas bala porque elas nuntêm preço. Vim porque preciso. Tenho treis filho e a Igreja Católica ficô dimemandar cesta básica semana quevêm. – Alguém que ouvia disse: “Procure a Pastora M...” e ele respondeu – Procurei a Pastora M... também, mas quem tem fome tem pressa. – “Quem tem fome tem pressa”. Já ouvi esse bordão em algum lugar. Acho que num período quaresmal atrás – Preciso completar dinheiro para comprar cesta básica e a mais barata, no B... custa R$35,00. Quem pode miajudá? Esse aqui medeu cinco real. Esse medeu R$2,00. Esse medeu R$1,00. Podem pegarasbala. É muita burocracia conseguir cesta básica. Tem que cadastrar, depois esperar. Podem pegarasbala. Não sacanhem. Elas nuntêm preço. Cesvão meajudá cunquantu? Ah! Esse medeudeiz. Esse medeu quatru e esse, cincu, esse, treis, esse deu cincu. E ocê? E ocê? – e por aí foi recolhendo e eu copiando seu discurso. Que voz clara, alta. Que texto bem elaborado... Até nos, segundo a gramática oficial, “erros”de português. Acho que ele estudou teatro. – Obrigado, gente! Muito obrigado! Agora vou indo comprar comida prosmeusmininu. – Sai e volta – Mas espere, eu quero dar uma palavrinha. São dez segundo: Pai, Filho e Espírito Santo, aleluia. São Miguel, abra as portas da solução dos problemas profissionais, salariais, financeiros, conjugais, matrimoniais, sexuais, familiares, sociais, de saúde de todos vocês – Engraçado, onde foi parar a pronúncia carregada de antes? – e as trevas se afastem por graça da Luz da Cruz de Cristo que envia Seus anjos para desancarem o maligno que desandava os passos de vocês, irmãos. Aleluia. – Alguns disseram “Aleluia”, outros “Amém, Jesus”. Eu pensei “Aleluia, irmão. Saravá, meu Pai. Ponte que partiu”.

Depois dessa, só mesmo indo a uma apresentação artística para me limpar. Huuum, deixa-me ver... Adê vai apresentar hoje.


Só, não se chega a lugar nenhum.

Por do sol à beira mar

Ainda que o verão acabe, Ogum,

Meu amor não se põe ao sol.

É instrumento da vontade de ser mais que um

Em mil e novecentos que se perdem em dois mil.

Nos barcos de papel comum

Viaja meu coração acrônico e cromático

Cantando feito mutum

Para meu maior amor, sublime amor.

Cantando feito mutum

Para estar à altura de vocês, meu povo.


Verso inspirado no músico Adê Araújo, no Triângulo de Aço Show.

Prosa embasada num discurso que ouvi no MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

Ambos escritos entre 18 e 23 de janeiro de 2012.

Ofereço como presente de aniversário à

Ivone Pilo, Thaís L.M. Almeida, Moritoshi Hiramine, Alexandre dos Reis, Carolina C. Lima.

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Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.
O texto é minhas flores para você

e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.

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