segunda-feira, 18 de maio de 2015

O BEM-TE-VI

Obax nafisa.


¿Por qué estaba tan triste su corazón? Primero pensó que era debido a que la historia había permanecido desprovista de cualquier adorno en su recuerdo. No, esa no era la razón de su estado de ánimo, pues él conservaba todas las historias desprovistas de adornos en su memoria. Al contarlas desarrollaba sus pensamientos y daba a sus relatos desnudos el vestido, el pensamiento y el ritmo adecuados. No, solo los malos narradores recuerdan de memoria las historias con todo lo que forma parte de ellas.
SCHAMI, 1989, p. 231


Só de camisa
No meu quarto só
Invejo a lua
Que nuvens alveja.

- Gostou da quadra que escrevi?
- É... Sim! Mas fico feliz por saber que você não desiste da prosa.
Olho em seus olhos.
- Sinto dizer, bem, mas é só assim que a gente melhora.
- Obrigado!
- Não há de quê.
Escolhe uma música e põe no cd. Ouço um minuto e digo: Vou sair agora.
- Aonde vai?
- Por aí.
Pela rua penso: “Vou virar chiclete dentro dessa boca loca”. Eu vi a cena. Arrepiei-me de nojo. No lugar de ouvir a... ah... música? Eu preferiria estar no Tejo com Fernando em um bote português coletivo de gente boa. Será que eu escutei realmente o cara dizer “cu de sorte” na... ah... música? Nem vou tentar decifrar o... ah... conteúdo? Meu Deus! Eu quero ser um “alfaiate recolhendo tecidos orais nos mercados”.
Chego ao Feirarte e depois de passar pelas barracas de artesanato vou até a barraca de coquetéis do Marcelo. La auto me distancio e me olho entre preocupado e curioso com o que veria. Sinto o peso do coração enquanto vejo um bem-te-vi pulsando suas asas sem sair do oiti em que está pousado. E...
- Sai fora, sai fora porque eu saí fora.
Olho para a mesa ao lado. O Feirarte ainda não está cheio. E me atento na mulher que se levanta da cadeira, vai a outra barraca, toca no ombro de um homem, alisa rápido o que o diferencia dela, pega sua mão e o leva para dançar.
Das mesas onde saíram, olhares raivosos.
- Marcelo, faz algo para mim.
- O que deseja?
- Deixo ao seu critério.
- Benito! Que bom te ver. Tudo bem?
- Oi, Cult! Bem. E com você?
- Também.
- Sente-se e me faça companhia. Marcelo, faça algo para ele também.
Entre nossa conversa amena Marcelo me traz uma bebida com cachaça, maracujá e morangos. E para Cult, algo com coco, rum e leite condensado.
- Benito, o que me destaca de outros? – Cult me pergunta após sermos interrompidos por alguém. – Há pessoas que nunca reparei e me reconhecem tempos depois...
- Estavam dando algodão doce. A meu pedido você pegou para nós dois.
- Sim, mas estamos bebendo... Pra que doce?
- Num lugar de beber, algodão doce chama atenção mesmo não fazendo nada; sendo apenas o que é.
- Benito, o que você acha da literatura africana; dos países africanos que falam português?
- Ainda tem gente que pensa que a literatura luso-africana é apêndice da literatura portuguesa. A biblioteca pública municipal de Ipatinga, por exemplo, coloca as literaturas lusófonas da África junto com as literaturas portuguesas. Já apontei isso, mas discordaram de minha indignação. A literatura portuguesa é muito boa, mas só tem em comum com as, igualmente boas, literatura brasileira e luso-africanas a língua.
- Na verdade, Benito, as literaturas da África portuguesa são um desdobramento de um literatura europeia menor. Eles vão construindo a sua cultura a duras penas, meu caro amigo. Porque a literatura de Portugal é, se comparada as praticada nos grandes centros europeus, periférica. Assim, os países de colonização lusitana tem uma literatura fruto de um literatura menor europeia. O que equivale a dizer também que a literatura brasileira é menor. Até porque só copia os franceses. Nada cria.
- A situação política brasileira até meados do século XX era desfavorável e mal vista. Por isso Machado de Assis não conseguiu reconhecimento enquanto escritor universal. Mas com a crescente evolução política, social e econômica brasileira ele passou a ser mais lido pelas grandes potências. Por isso está adquirindo reconhecimento internacional. Além dele temos João Guimarães Rosa e outros escritores valorizados mundialmente. E a escrita de Machado tem mais ligação com espanhola e inglesa. Ao contrário de seus contemporâneos brasileiros, que era francesa. Pode-se dizer que Machado de Assis foi mais influenciado por Cervantes e Shakespeare do que por Camões.
- Olha amigo, não falo isso como se houvesse ou há barreiras e estanques em termos culturais. Na verdade a cultura portuguesa, no geral, é fortemente influenciada pela Espanha, França e Inglaterra. Então o Machado não fugiu à regra. Agora, nos dias de hoje, buscamos criar um cultura nossa, menos lusa e menos europeia. Fizemos isso com a Semana de Arte Moderna de 1922. Não adianta se separar política, cultural e economicamente se ainda estamos ligados a velha Europa. Pior, a Portugal...
- Sobre a questão de copiar não se esqueça do Manifesto Antropofágico... Os seres humanos, todos, são antropófagos. E muitos são antropófagos culturais que regurgitam arte. Quem você acha que tudo cria, sendo que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”? Oswald de Andrade e Antoine Lavoisier falaram muito bem. Shakespeare tirou de sua cabeça as maravilhosas histórias que criou? Não! Só de Romeu e Julieta existem pelo menos cinco versões de outros autores. Algumas até mais antigas que a de Shakespeare. O grande mérito do escritor inglês foi a forma como contou Romeu e Julieta e demais primores. Os Irmãos Grimm criaram de suas cabeças as maravilhosas histórias? Também não. Eles apenas registraram o que antes eram orais. Os grandes méritos deles foram o registro e a forma como escreveram os contos. Os clássicos latinos que chegaram até nós foram inspirados nos clássicos gregos. E apesar de não ter cem por cento de certeza em relação aos gregos, tenho setenta por cento da mais absoluta certeza que os gregos também copiaram o que antes já existia. O grande mérito foi serem primorosos na escrita, na forma que contaram suas histórias.
- Mas o Machado de Assis foi fruto de sua época assim como somos frutos da nossa. Em que ele inovou? Em nada! E Portugal foi e é a periferia da Europa em todos os termos.
- Antes de mais nada afirmo que amo toda literatura lusófona. Fernando Pessoa e, polêmicas à parte, Monteiro Lobato são excelentes. Lobato, por exemplo, mudou a literatura infantil no Brasil; quiçá no mundo. Apesar de ter conservado a forma da época de ver e de viver no mundo, ele inovou na forma de escrever para crianças. Fazendo-a deixar de ser pedagógica para ser arte, literatura de verdade. E Machado de Assis, assim como Shakespeare, Grimm e etc., foi um antropófago literário. Dom Casmurro, por exemplo, tem influência da tragédia shakespeariana “Otelo, o Mouro de Veneza” e enriquecida com a, digamos, pesquisa que fez sobre a psicologia. Não sei se sabe, mas ele era estudioso dos grandes pensadores, principalmente dos de sua época. E tudo o que Machado escreveu literariamente, tempos depois Jung escreveu comprovando cientificamente.
- É... talvez! Mas como você disse, Dom Casmurro foi cópia...
- Eu não disse “cópia” e sim “inspiração”. São duas coisas diferentes. Dom Casmurro não é cópia de Otelo. Não mesmo. Além de ter sido psicologicamente bem mais aprofundada, o desenrolar e o final foram distintos. Em Otelo, Desdêmona foi inocentada no final enquanto nunca saberemos se Capitu era adúltera ou não. Olha que fascinante isso, rapaz! O drama em Otelo teve um fim, mas em Dom Casmurro continuará para sempre. Arrepio-me com isso. Arrepio-me ao pensar que nossa vida nunca será conhecida integralmente pelos outros. Arrepio-me de susto e gozo.
- Estavam bons os coquetéis? – Pergunta Marcelo. – Querem outro?
- Sim! O meu, pelo menos, estava muito bom. Faça outro, por favor. De outro sabor.
- Também gostei. Mais um e diferente também.
- Bem! Que você está fazendo aqui? Por que me deixou em casa e não me chamou?
- Huuum!
Cult e eu nos entreolhamos e o bem-te-vi ri na dama da noite.


Ofereço como presente aos aniversariantes
Robinson A. Pimenta, Rosangela F. Sulidade, Carlos Alberto, Josmar D. Ferreira, Marcelo Ferreira, Guebel Stevanovich, Léo Coessens, Beto de Faria, Tiago Costa, Deivid Paula, Renato Gonçalves, Geraldo Valentim, Sinésio Bina, Adê Araújo, Alysson Jhony, Filipe Boanerges, Eloy Santos e Vinícius Cabral.

Recomendo a leitura de Dores, de Pedro Du Bois; e Pomar, de Karine Faria. Respectivamente nos endereços:

BRENMAN, Ilan. Através da Vidraça da Escola: formando novos leitores. – 2 ed. – Belo Horizonte: Aletria, 2012, p. 39.
SCHAMI, Rafik. Narradores de la Noche. Madrid: Siruela, 1999.

Em banto, obax nafisa significam flores e pedras preciosas. O texto é minhas flores para você e faço votos de que encontre nele pedras preciosas.


Escrito entre 15 de junho de 2014 e 18 de maio de 2015.

5 comentários:

Josmar Divino Ferreira disse...

Perfeito. Grande abraço e sucesso.

Pedro Du Bois disse...

Excelente texto, belo espaço e, como sempre, grato pelo destaque. Abraços e boa semana. Pedro.

Francirene Gripp de Oliveira disse...

Olá, escritor Rubem! Obrigada pelas postagens que tem me enviado. Literatura é sempre meu assunto! Gostei das consideracoes feitas!

Francirene Gripp de Oliveira disse...

Olá, escritor Rubem! Obrigada pelas postagens que tem me enviado. Literatura é sempre meu assunto! Gostei das consideracoes feitas!

Francirene Gripp de Oliveira disse...

Olá, escritor Rubem! Obrigada pelas postagens que tem me enviado. Literatura é sempre meu assunto! Gostei das consideracoes feitas!