domingo, 10 de fevereiro de 2019

ADENTRO MUERE GENTE


Llueve y no gotea donde no asustan los guapos por más guapos que sean.*
Libertad a los problemáticos que la sociedad moderna creó.** 

En mi pecho alguien se muere
La sangre en dolor escurre
A fecundar la tierra de rojo mugre
Hasta que otro nacimiento ocurre.
A pensar sobre a dor de alguém saindo do coração cria a quadra enquanto se senta debaixo de uma árvore no Parque Ipanema. Lá já estavam três amigos e logo em seguida chega uma conhecida. Só então fala: “Nos jornais, manchetes como”:
Bombeiros Civis voluntários são dispensados em Brumadinho e ficam indignados.
- Olha aqui, Esquerdinha! – Diz a conhecida. – Antes de comentar qualquer notícia, primeiro deve verificar a real necessidade do que está dizendo. Pois se trata de uma situação muito delicada. Uma organização como o Corpo de Bombeiros tem profissionais formados e estudados para tal atuação. E como toda organização militar é regida por um alto comando que também atua de forma bastante rigorosa, pois não se admite erros. – Enquanto ouve ri por dentro da militar inadmissão de erros. – E número nem sempre é qualidade. A tragédia já aconteceu, infelizmente. E muitas vidas perdidas não voltam mais. Mas ficar atacando partidos políticos nesse momento só mostra para mim a cabeça do brasileiro: pequena e individualista.
Pausa para respirar para melhor voltar a rosnar:
- A culpa do crime que ocorreu não é do Presidente Mito. Pelo amor de Deus, será que nem na dor, as pessoas vão parar de querer atacar os partidos políticos? Ainda mais agora que corre risco de morte como o verdadeiro mártir que tentou salvar o país do petismo? Deveríamos nos unir mais ao invés de criticar. A eleição já passou. O período para esse tipo de coisa também. Criticar uma instituição como a do corpo de bombeiros é pensar nunca mais precisar dele. E tomara que não precise mesmo. Nenhuma decisão de afastar os bombeiros civis parte da cabeça de nenhum presidente...
Respira para pegar impulso e grita:
- Mas de toda a equipe gerenciadora das buscas de salvamento.
- Dona Direita Raivosa. A senhora não distingue a diferença entre “atacar” e “cobrar” ou “atacar” e “criticar”? De acordo com o dicionário Michaelis:
A-ta-car = significa agredir, assaltar; ou assaltar reciprocamente.
Co-brar = significa proceder à cobrança, receber (o que nos pertence ou é devido).
Cri-ti-car = dizer mal de, censurar: critica impiedosamente os erros do próximo; examinar como crítico, notando a perfeição ou os defeitos de (obra literária ou artística); analisar: Com reconhecida autoridade, pôs-se a criticar das esculturas renascentistas às dos tempos modernos.
Depois da explicação pelo dicionário, continua sua resposta:
- O atual presidente declarou incontáveis vezes que leis ambientais dão prejuízos. Assim, critica-se o presidente por ser conivente com tais crimes ambientais, uma vez que ele declara que tais leis são bobagens, frescuras e prejudiciais. Aí te pergunto: como assim prejudiciais? A culpa é do presidente sim. Primeiro do Ferrando Arri Mardoso que privatizou a Vale do Rio Doce e agora do Boçalnato que desvaloriza o que é nosso e valora o que é estrangeiro.
- Do Mito nãããão!
- As Forças Armadas são, também, para atuar em caso de catástrofes – naturais ou criminosas –. Nem a manchete por mim lida e nem o artigo que a senhora não leu criticam o Corpo de Bombeiros. Criticam a Vale e o Boçalnato por recusá-los assim como o impedimento tanto dos Corpos de Bombeiros como das Forças Armadas atuarem. A senhora não está sabendo disso? É, vê-se que não. Pois não prestou atenção na manchete e nem leu o artigo. É por isso que a senhora está falando mal sem conhecimento.
- Mas, Esquerdinha, ficar atacando empresas e políticos só mostra para mim o quanto você é pequeno e individualista. Desejar a morte do mártir é horrível.
- Ninguém em sã consciência deseja a morte do Boçalnato. – Diz o Professor. – Primeiro porque quem deseja o mal alheio é ele e seus seguidores. Segundo e mais importante porque em menos de cinquenta dias já mostrou, em Davos, a seus eleitores que não consegue fazer nem um discurso politiqueiro; que faz o Brasil passar vergonha; e que suas medidas são desmedidas para o povo. E morrer agora é fazer-se o que não é: mártir. Enquanto viver martiriza seus merecidos eleitores e os não merecidos pensadores.
- Mas não é justo atacar o Presidente, seus intelectuais de merda, pois a culpa não é do Mito. Pelo amor de Deus, a gente deveria unir ao invés de criticar. A eleição já passou. O período para esse tipo de coisa também. Nenhuma decisão de afastar os bombeiros civis parte da cabeça de nenhum presidente, mas de toda a equipe gerenciadora das buscas de salvamento.
- Dona Direita Raivosa, se o Boçalnato pôde trazer o exército de Israel, poderia levar o Exército brasileiro... Então não é simplesmente má vontade da Vale. É má vontade da Vale, a criminosa, e do Boçalnato, o cúmplice eleitoreiro querendo fazer o povo amar o genocida exército israelense de olho em nosso nióbio próximo da catástrofe da Vale em Brumadinho. Aliás, é possível que a senhora também ignore que a vinda do exército israelita só deu prejuízo e causou atrasos. As despesas são por nossa conta e a espera da vinda de quem está longe não é curta. A propósito, para salvamento as aparelhagens dos militares israelitas não serviram para nada... Foram e são incompatíveis com o que se precisa nesse tipo de catástrofe. Enquanto que a aparelhagem que os bombeiros brasileiros possuem era a mais adequada.
Com um som agradável, o vento balança os galhos da árvore sobre nós.
- Parabéns pela análise, meu caro Esquerdinha. Não é uma guerra política partidária, mas o exercício da cidadania é cobrar posturas adequadas daqueles que nos representam. Afinal, são estes os que deliberadamente flexibilizam as leis ambientais. Esquerdinha e Direita, estão lembrados do Leunada Quintão dos Infernos? Eu me lembro.
A Direita faz uma cara obtusa e Cidadã continua:
- Ele foi relator de um novo Código da Mineração. E este absurdo código eliminou, na prática, qualquer regulação independente das atividades dessa indústria sabidamente poluidora e perigosa. Ele admitiu ser financiado por grandes mineradoras e é defensor dos interesses delas no Congresso¹. Então, o Quintão foi escolhido pelo Fômix Lorenzetti para compor a Casa Civil, um cargo político relevante e de confiança. Segundo uma reportagem da Época, o ex-deputado federal, depois de não ser reeleito, fez um “plantão” na casa no Boçalnato. Isso é só uma evidência mínima do relacionamento entre o governo Boçalnato e todos que são a favor da desregulamentação, liberação de agrotóxicos etc². Não é certamente por seguir os mesmos “princípios cristãos”, como o Leunada disse quando estava implorando pro novo cargo. Todo mundo sabe que Boçalnato há anos afirma que o IBAMA é uma “indústria de multas”, e que deve acabar; que é preciso “estimular a atividade mineradora”, que as licenças ambientais para novas minas demoram muito... Oh, coitadinho do ramo da mineração... E há malucos seguindo um negacionista do aquecimento global. E o pior é que o clã Boçalnato sempre vota em tudo que vai contra o meio ambiente. Esse clã é um mar de lama tóxica.
- Direita, menos com essa de “não ponham isso na nossa conta”, como disse o general vice-presidente Murrão. – Intervém Escritor. – Ou ainda pior, como acabei de ouvir na Esfera News: “O governo tem sido rápido e competente”. Na grande mídia a exceção é André Trigueiro, único jornalista a contrapor-se de forma coerente e enfática.
- Pelo amor de Deus, amigos intelectuais! Quanta ignorância a suas de culparem o atual presidente desse crime ocorrido com apenas vinte e nove dias de atuação. Não, não. Nada do que ele disse ou criou nesses poucos dias poderia influenciar no que aconteceu. Ajudem aí, né. E quanto a atuação do Exército Brasileiro e dos Corpos de Bombeiros? Vejo que não sabem nada dessas instituições e nem tão pouco de como cada uma delas funciona, nem como elas as regulamentam. Falo por conhecer. Não sejam ignorantes a ponto de culpar uma pessoa com vinte e nove dias no poder de um crime que só aconteceu por negligência ou imprudência de anteriores. Mais sensibilidade às famílias das vítimas e menos choramingos partidários.
E depois de tudo que foi argumentado, a Direita Raivosa repete as mesmas tolas ideias. Triste, triste. Como é triste aferrar-se à ignorância e ao ódio, mas não aos fatos e à fraternidade.
A Direita sai da conversa não se sabe para onde; ainda.
Esquerdinha sai da conversa com João Cabral de Melo Neto e lê ‘O Fim do Mundo’, fixando na estrofe: “O poema final ninguém escreverá  /  desse mundo particular de doze horas.  /  Em vez do juízo final a mim me preocupa  /  o sonho final.”.
Mal terminara o poema quando foi convidado por milicianos armados a entrar em um camburão para explicar suas ideias na delegacia.
É o fim da liberdade dos problemáticos.
Então ele disse por última vez: “Em vez do juízo final a mim me preocupa o sonho final”, não o medo do que vai acontec...


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Alejandro Comnisky, Luciano S. Brska, Maya Gonzalez, Rodolfo Bello, Claudina Abrantes, Rodri Go e Rodrigo M. Capa.

* CABRAL, Maximiliano Antonio. De Buenos Aires, Argentina. Año 2017 en Facebook.
** CABRAL, Julian Ariel. En Ipatinga, Minas Gerais, Brasil. En el día 07 de septiembre de 2018. En una charla personal con el autor. El título también es de Julian.

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
 Imagens:
Nascer do sol - foto do autor;
Rubem dando bandeira - foto de Vinícius Siman.

Escrito entre os dias 29 de janeiro e 10 de fevereiro de 2019.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

DAS VANTAGENS DE SER HOMEM – parte 03


ou ONDE ESTOU
ou ainda ARTERRESILIÊNCIA


“Todo dia algo é acrescentado ao nosso saber,
desde que suportemos as dores.”.
Samuel Beckett.

Ay de nosotros se no fueran las artes. Las palabras de las artes, las imágenes de las artes, las músicas de las artes, las escenas de las artes. Arte es lo que nos consuela, expurga, fortalece. Arte es resiliencia.


Pingos de tinta cinza com azuis celeste e marinho formavam o céu daquele fim de tarde.
- Libriano, é terrível que ninguém no Vale do Aço se manifestou até agora contra o acidente em Brumadinho.
- Watzap, o que é manifestar, você sabe?
- Ham...
- Segundo o Michaelis manifestar tem três significados básicos: 1. Ato ou efeito de manifestar(-se); 2. Expressão, revelação; 3. Expressão pública e coletiva de opiniões ou sentimentos. Nesse último sentido, que é também o mais reconhecido e valorizado, a primeira manifestação – o importante “ato performático: quanto VALE a vida?” – foi organizada pela atriz e artesã Denise Silva com o apoio do artista Sinésio Bina; e aconteceu no sétimo dia do crime ambiental cometido pela Vale.
- Legal! Pelo menos alguém está fazendo alguma coisa pelo acidente em Brumadinho.
- Não foi acidente; foi crime ambiental e humano. É a tragédia da Vale; não da cidade porque ela não tem culpa de nada.
- Porém os artistas pediram apoio a políticos e sindicatos, né?
- Não, claro que não. Foi uma manifestação feita por artistas e pelo povo. Mas não buscamos apoio de entidades nem de políticos. Não os rejeitamos, claro, mas é manifestação dos artistas, não deles. Outra coisa mais, não se esqueça dos primeiros significados de “manifestação”: expressão, revelação e ato de manifestar. Veja que as primeiras manifestações no Vale do Aço foram feitas pelos escritores. Nena de Castro fez vários poemas sobre o Crime da Vale em Brumadinho. O autor deste cronto fez várias aldravias e quadras. Flávia Frazão também não se calou. E também outros jardineiros da palavra igualmente lamentaram o lixo tóxico a destruir toda a região, denunciaram a Vale e apoiaram as vítimas e seus familiares através de suas literaturas. Watzap, saiba que artista  – e não apenas, cantor, poeta, pintor etc. –, mas artista de verdade é sempre engajado e nunca coadjuvante na sociedade.
- Mas literatura não conta. Ninguém lê...
- Se é o que você pensa, então tchau, Watzap. Agora tenho que voltar à escrita e aos planos de aula.
A olhar pela porta da sala, Libriano pensa no conteúdo de duas de suas aldravias.
  
A primeira lhe produziu a reflexão:
Ai de nós se não fossem as artes. As palavras das artes, as imagens das artes, as músicas das artes, as cenas e danças das artes. Arte é o que nos consola, expurga, fortalece. Arte é resiliência.
Interessante como algumas músicas, poemas ou outras artes podem comunicar-se conosco. A música “Retrato em Branco e Preto”, na voz de Ney Matogrosso serviu para exorcizar de mim a amargura de um fim de relacionamento. E a música “Carinhoso”, de Pixinguinha foi cantada por minha mãe para meu padrinho enquanto ele falecia. Linda a imagem dele tocando uma imaginária clarineta ‘acompanhando’ a música e o repouso das mãos segundos antes do desencarne.
Enquanto a segunda aldravia lhe disse:
É um poema pensando em Janos, em aulas de História e a “retrospectiva do futuro”...
No último dia de janeiro – cujo nome vem do titã que tinha duas caras, uma na frente do rosto e outra atrás; vendo o porvir e o antevir. – pensei no paralelo entre a História utilizar-se do passado para mostrar o futuro.

Enquanto isso, em outro canto da cidade:
- Vou embora.
- Para onde?
- Por aqui mesmo, no Vale do Aço. Sabe que sou maluco. Quando me dá gana, eu me perco no mundo.
- Tchau. Que você se encontre. Adeus.
As ideias de Adulto e de Moço nunca se esbarraram. O coração, sim. Mas por curto momento. Mas como não há bem que nunca acabe... Moço veio e se foi outras vezes. E brigaram outras tantas.
Uma semana, duas. Três meses, quatro.
O companheiro lhe telefonou três vezes. Na primeira zombou da derrota de seu time de futebol; na segunda para preparar algo que alguém buscará e na terceira para perguntar se pegaram.
Nada mais se interessou.
Num final de tarde nublada chega de suas viagens rave.
Pega sua chave, abre o portão. Estranha a porta da sala trancada; destranca e entra.
Vazio.
De gente, vazia. Os móveis nos lugares e só. A geladeira desligada. Olha no armário e encontra feijão.
Enquanto o cozinha toma um banho e depois liga o computador. Sonha com a cama onde dormirá até a chegada do Adulto. Tempera o feijão e enquanto come se pergunta se ele viajara. Pouco curioso em saber onde fora, pensa: “Pouco provável. Ele não gosta de viajar.” e dorme.
Acorda no dia seguinte. E nenhum sinal do namorado.
Sai para a rua. Uma vizinha enxerida:
- Uai! Oncetava?
- Por aí. Sabe onde meu amigo está?
- Não está sabendo? – Pausa para o estranhamento do Moço. – Ele morreu já tem quase um mês.
- O quê?
- Você passou todo esse tempão sem procurar conversar com ele?

Sem sequer perguntar de que morrera, deixa a indignada e vai ao cemitério. Mas não me encontro ali. É do além que conto o ocorrido. A propósito, calculo que já percebeu que o narrador sou eu, o Adulto. E se falei na terceira pessoa foi para promover um singelo mistério. – Rirri. – E falando do futuro visto pelo passado conto mais:
Do Cemitério, Moço volta ao apartamento e fica até ser convidado a retirar-se por minha família. Nesse meio tempo se encontra com Libriano no Feirarte.
- Você continuará com Janice?
- Nunca namoramos.
- Até parece. Como todo Libriano, você tem uma longa “lista de espera” e vai ficar sem sexo?
A resposta é olhar uma árvore enquanto bebe seu coquetel.
- Com quem está dormindo, então?
- Comigo.
- Não se aproveita dela?
No lugar de responder pensa nos seus livros que têm muito mais a dizer. Moço dá uma pausa, fala baixo e em tom grave:
- Posso dormir em sua casa? Você sabe que meu namorado morreu e terei que ir para outro lugar.
Antes de responder pensa nos seus livros e no que têm a dizer. No céu daquele meio de tarde há pingos de tinta cinza com azuis celeste e marinho.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Marcos Vaz e Fernando Freitas.

Recomendo a leitura de “Infrequências”, de António MR Martins:

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve ao Ad Substantiam ocasionalmente às quintas-feiras; e todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
 Imagens:
Cartazes – Manifestação em Ipatinga sobre o crime ambiental em Brumadinho (jan 2019).
Foto do Vinícius Siman.

Escrito na noite de 30 de março de 2018; trabalhado inicialmente nos dias 24 de abril e 01 e 03 de maio do mesmo ano. O trabalho final foi entre os dias 29 de janeiro e 03 de fevereiro de 2019.

domingo, 27 de janeiro de 2019

DAS VANTAGENS DE SER HOMEM – parte 02


ou ES-BARRAGEM


O calor está pouco suportável; assim foram janeiro e fevereiro. E veja que os anos anteriores foram ainda piores. Pela janela, Adulto vê o vermelho do sol nascente prometendo uma boa sexta-feira; sorri, levanta-se e o telefone toca. Nena de Castro com voz destroçada recita sua quadra recém-composta:
Na partida minério x mineiros
quem ganha é a morte!
mineiro sem sorte!
cobiça forte!
A olhar pela varandícula pensa em Brumadinho, em seus desaparecidos, em seus mortos humanos e animais mortos e nos prejuízos pelo rompimento da barragem. Contempla o céu imaginando o que seria um chão coberto por chuva de flores: 

Suspira e vai a cozinha fazer o café para depois comprar pão, comer, lavar o banheiro, lavar roupas e preparar o almoço.
Porém ficam as vasilhas para serem lavadas pelo companheiro.
Mas voltemos um pouco no tempo.
- Já que estamos morando juntos será bom que me ajude na casa. Despesas, limpezas etc.
- Ah... Ok! Mas você sabe que sou livre.
- Sei, Moço. E eu também sou.
- Estou sempre de viagem; me fritando em raves.
- E eu a estudar e trabalhar. Mas enquanto estiver aqui, ajude-me em uma coisa ou outra.
- Ah... Ok!
Mas avencemos um pouquinho no tempo.
- Cara! Vou por seu nome como meu companheiro no meu plano de saúde.
- Ok, obrigado!
- Você terá que levar cópia de seus documentos para oficializar.
- Ok, obrigado!
Assim um fez, mas não o outro.
Voltando ao tempo atual e nele avancemos pouco a pouco.
Ficam na espera as vasilhas para serem lavadas pelo parceiro.
- Não gosto de ser cobrado, Adulto. Minha família me irritava porque me cobrava serviços e por isso saí de casa.
- Uai! Então faça sua parte para não ser cobrado.
- Eu já ia fazer...
- É? Quando? Passou-se a tarde de sexta, passaram-se o sábado e o domingo. Só não passou de hoje porque não esperei mais; lavei-as!
- É? Eu já ia lavar.
A semana correu tranquila. Principalmente porque Adulto ficou só em casa; com seus livros e visitas esporádicas do Girvany de Morais, Vinícius Siman e Xúnior Matraga. Estes recitam seus poemas e os discutimos:
RÉQUIEM PARA O MONSTRO
A quantas tragédias o Capitalismo ainda irá anunciar?
Sinto muito em te dizer: muitas ainda,
Porque é desprovido de compaixão,
Vendem nas bolsas de valores os seus cadáveres,
Nem se comoverá com o choro das viúvas e órfãos.
Anunciará um banquete para bendizer a sua usura,
E nada lhe interessa,
A não ser o famigerado lucro.
Primeiro discutimos a peça Lama-Sal, de Vinícius; depois, através de Réquiem para o Monstro, Girvany partilhou suas angústias e por fim Xúnior compartilhou seu amargor através da aldravia:
lama
homicida
quanto


uma
vida
O mês e o bimestre seguinte correram tranquilos, apesar do crime Ambiental em Brumadinho. Principalmente porque Adulto em casa ficou sozinho com seus livros e visitas esporádicas de amigos. Enquanto o Moço estava a fritar-se...
Mas como dizem: não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe.
Moço voltou de viagem. Cansado, chapado, adoçado... Dormiu toda a noite e a manhã quase inteira. Pela tarde saiu para fazer malabares nos semáforos. De noite Adulto tenta uma conversa.
- Está sabendo que Jean Wyllis está sendo ameaçado de morte e por isso está saindo do país?
- Quem?
- Jean Wyllys, o Deputado Federal...
- Ah! Um viadinho...
- Ei! Você também é viado.
- Mas não fico me expondo.
- Expondo? Ele está simplesmente sendo o que é. – Uns segundos se olhando e continua: Bem, ele está sendo ameaçado de morte.
- Aposto que é frescura dele. Exagero.
- Moço, ele tem recebido mensagens como “Vou te matar com explosivos”, “Vou estuprar a sua mãe antes de matá-la”, “Já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?”, “Aquelas câmaras de segurança que você colocou não fazem diferença”.
Mas a bicha homofóbica não compreende os fatos. Melhor dormir. Na cama se esbarraram e tiveram um sexo bom. Quer dizer, nem tanto assim. Dormir seria melhor; e foi.
Pela janela, Adulto vê o vermelho do sol nascente prometendo uma boa quarta-feira; sorri e levanta-se. Faz o café, compra pão, come, lava o banheiro, lava a roupa e prepara o almoço.
Ficam as vasilhas para serem lavadas pelo companheiro; que mais uma vez as ignora. Com bom humor aquele publica no Caralivro:

- Rerrirrê. Fato. – Comenta a postagem. – Rirrirri. E o pior comediante é aquele que conta piada no momento errado. Rerrirrê.
A noite vem. E com sua mochila nas costas, contendo todas as suas coisas:
- Vou embora.
- Para onde?
- Por aqui mesmo, no Vale do Aço. Sabe que sou maluco. Quando me dá gana, eu me perco no mundo.
- Tchau. Que você se encontre. Adeus.
Suas ideias nunca se esbarraram. O coração, sim. Mas por curto momento. Porém, o importante é: Ô noite mais bem dormida aquela.
Mas não há bem que nunca acabe nem mal que sempre dure ou que não volte a ocorrer. Outros crimes ambientais continuam a acontecer no Brasil e outras barragens se rompem em Minas.


Ofereço como presente aos aniversariantes:
Thais L. Macedo, Ginimar De Letras e Isaac Andrade.

Recomendo a leitura de:
“Simulada Sagração”, de António MR Martins:

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens:
Chão de Flores – foto do autor
Rubem dando Bandeira – foto do Vinícius Siman.

História pensada em 2017. Mas escrita somente em 26 de abril de 2018; quase que em um só fôlego, mas em alguns momentos da manhã. Trabalhada entre os dias 14 e 27 de janeiro de 2019.

domingo, 20 de janeiro de 2019

DAS VANTAGENS DE SER HOMEM – parte 01


ou ALMA BRASILEIRA


 
- Que árvore é aquela?
- Hum. Parece sibipiruna, mas não é. Seu tronco é branco.
Marcelo e sua esposa fazem drinques enquanto observamos o mundo.
- Por que fascista não gosta de arte? – Muda drasticamente o assunto.
- O artista se põe na pele do outro, enquanto o fascista pensa em eliminar o outro.
- Algo escorpião...
- O animal?
- O signo. – Ri.
- Há realmente fascistas no Brasil?
- Através de outras palavras Jessé Souza diz que a história brasileira é feita sem união contributiva entre o que chamávamos de raças. A branca dominava as demais, reduzindo drasticamente as ‘contribuições’ dessas. Então me diga se historicamente o brasileiro tem empatia? É simpático?
- Em sua aparência!
- O Brasil e todo o continente americano, como bons descendentes de europeus, visam a eliminar os outros.
- O que bebe? – Outra vez muda de assunto.
- Não sei, bicho. Tem tequila, hortelã, morango e ficou bom pra caralho.
- Olha, não se ofenda. – Curiosamente, quando alguém diz isso é porque vai falar algo ofensivo... – Vejo você com muito tempo livre... E quem não trabalha encontra tempo suficiente para pensar coisas feias e realizá-las.
- Meu tempo não é tão livre assim. Veja que não encontro tempo para ficar vendo o que os outros fazem ou deixam de fazer... Não discuto que a desocupação pode dar tempo para pensar e fazer o que não se deve. Mas o ócio tem o bom costume de ser criativo; a dar tempo suficiente para pensar em coisas boas e belas assim como para realizá-las. – E diz um poemeto que cria na hora:
El cansancio anestesia
A quien no se pone en inercia.
Pero a mirar el nada
La mente se hace sagrada.
Outra vez muda de assunto:
- Janice voltou para onde veio?
- Não. Está viajando pelo Brasil, mas deve voltar.
- Vai continuar com ela?
- Nunca ficamos.
- Sei. Você, um libriano... E ela na sua casa...
- Na minha casa; não na minha cama.
- Que isso, véi. Você não é bobo; é de Libra. Tá sempre com uma listinha...
Não responde. Olha para a árvore e bebe um gole. A música ao vivo no Feirarte, os rapazes e crianças empinando papagaios mais o sol forte entram em seus pensamentos.
- Com quem está dormindo?
- Comigo.
- Rirri. Está em posição de aproveitar-se dela.
- Aproveitar não é deleitar.
- Mas é deitar.
Não responde; olha para a árvore e bebe um gole enquanto um pássaro voa. Sente saudade de seus livros que dizem mais que muitos.


“NÃO SE ACABA AMIZADE POR POLÍTICA,  /  Mas se você concorda que os portugueses não pisaram na África e que os próprios negros enviaram seus irmãos pra nos servir, a amizade pode acabar por você desconhecer de HISTÓRIA;  /  Se você concorda que o alto índice de mortalidade infantil tem mais a ver com o número de nascimentos prematuros ou, com falta de higiene bucal das mães, a amizade pode acabar por você desconhecer de CIÊNCIA;  /  Se você concorda que Carlos Brilhante Ustra não foi um torturador e que merece ter suas práticas exaltadas, a amizade pode acabar por falta de CARÁTER;  /  Se você concorda que não temos dívida social com um povo que foi arrancado de seu mundo para ser escravizado por outro e que diferenças de tratamento étnico-racial é historinha e mimimi de coitadinho, a amizade pode acabar porque isso é RACISMO;  /  Se você concorda que as mulheres devem ganhar menos por gerar vidas, que são frutos de 'fraquejadas' ou que merecem ser estupradas de acordo com sua aparência, a amizade pode acabar porque isso é MISOGINIA;  /  Se você concorda que não há possibilidade das pessoas viverem sua sexualidade livremente, com direitos e deveres como qualquer cidadão ou cidadã, mas que devam apanhar para aprender o 'certo', a amizade pode acabar porque isso é HOMOFOBIA;  /  Como pode ver, não se acaba amizade por política, mas por ser difícil se relacionar com quem apoia truculência, ignorância e desrespeito e, acha que tais 'conceitos' devem compor uma base política.  /  O fascismo não se discute, se combate.”.
Texto de Valéria Barros que recebi de Wenderson Godoi
por watzap na manhã de 03 de setembro de 2018.

Ofereço como presente aos aniversariantes:
Emilio Bigote, José C. Pinho, Jonhathan Pérez, Elizamara Freitas.

Ofereço aos mais recentes contatos que fiz no facebook:
Pierre André, Julio Cabral, João R. Laque, Sandra O. Silva, Estaylon Bandeira e Fernando Freitas.

Recomendo:
A leitura de “Vou lhe mostrar o medo”, de Nikolaj Frobenius, pela Geração Editorial. "Ela move os lábios, como uma bela máquina humana que ele, com uma ligeira pressão, pode manipular na cama como desejar. Ele..." Quer saber o que Poe fez? Bastar ler o livro.
A leitura de Pedro e os Lobos", de João Roberto Laque, pela Ava Editorial. "Depois desse curioso diálogo entre um piedoso carrasco-mor e sua vítima em frangalhos, o prisioneiro é levado a...". Quer saber aonde? Basta ler o livro.
Assistir:

SOUZA, Jessé. Sobrados e mucambos ou o campo na cidade. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve e publica neste seu blog literário aRTISTA aRTEIRO todo domingo e colabora no Ad Substantiam às quintas-feiras.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. E em breve também professor de História. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens:
O tronco – Foto do autor.
Rubem dando bandeira – Foto de Vinícius Siman.

Escrito entre os dias 14 e 20 de janeiro de 2019.

domingo, 13 de janeiro de 2019

JANELA PARA AS NUVENS



En el mundo de los libros de lectura […] las mayorías de las veces el pobre aparece solo para que sea afirmada en voz alta su condición privilegiada, su serena felicidad, su proximidad a Dios. (BONAZZI, ECO, 1974)


Da paisagem vista pela janela, metade da parte superior é perdida pelo toldo cinza; um terço da parte de baixo é o telhado da vizinha; e um quarto da visão lateral esquerda é a parede de outro vizinho. Tudo em sujos tons de cinza, marrom e vermelho. E do que sobra, hoje se vê nuvens claras em um céu azul esbranquiçado.
Vozes da casa do vizinho chegam altas, mas incompreensíveis.
Pensa no que disse ontem: Quem quer ser famoso não consegue porque investe na forma, na propaganda; não no conteúdo, na qualidade.
Mas ele próprio quer reconhecimento. Reconhecimento e respeito em vida; não depois de morto... Reconhecimento, respeito e dinheiro vindo de seu trabalho. Por isso investe mais na qualidade do que na propaganda. Crê no que diz. Incomoda-lhe a injustiça de outros se fartarem do esforço do artista.
- E o que tem de mal em seus parentes lucrarem? Ele é um egoísta, isso sim.
- Parentes que quase sempre nunca lhe apoiaram e mais comumente ainda lhe criticaram, agrediram, prejudicaram, zombaram.
- Parente é tudo; não importa se apoia. A utilidade do artista é dar satisfação; seja ao público, seja aos parentes... Não importa a quem.
- Parente não é família e familiar não é sangue.
- Mas é como o pobre, cuja utilidade é permitir a caridade que satisfaz os em melhor posição... Políticas públicas impedem o bem estar das elites em sentir-se o quão boas são. Já que os artistas só têm para vender a sua arte e os pobres, os seus braços, que aceitem então o intelecto de quem possui mais.
- Suas ideias são acéfalas. O topo da elite sabe que a “função” do pobre não é essa, mas sim mantê-la. Contudo, essa é a ideia que passam para classe média, que não passa de pobre iludido, achando ser elite. Mas os artistas – os artistas de verdade – não se deixam enganar e proclamam em suas escritas, pinturas, danças.
Os interlocutores em sua cabeça discutem enquanto ele olha pela janela a ver as nuvens.


Ofereço aos meus mais recentes contatos no caralivro:
Jacomar A. Braulio, Alcides Ramos, João Gabriel, Tiago Bastos, Ju Ferraz, João R. Laque.

Recomendo a leitura:
“Tipos de Escritores: os ensimesmados e os conversadores”, de Caio Riter:

BONAZZI, Marisa; ECO, Humberto. Los Pobres. Las Verdades que Mienten. Buenos Ayres: Editorial Tiempo Contemporaneo, 1974. P. 21-22.

 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve e publica neste seu blog literário aRTISTA aRTEIRO todo domingo e colabora no Ad Substantiam às quintas-feiras.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. E em breve também professor de História. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens:
Janela toldo paredes – Foto do autor.
Rubem dando bandeira – Foto de Vinícius Siman.

Manuscrito em 31 de agosto de 2018. Digitado dois depois; trabalhado nas duas línguas entre os dias 07 e 13 de janeiro de 2019.

domingo, 6 de janeiro de 2019

DISFEMIAS



Sugiro a leitura deste cronto ouvindo a música
“1965 (Duas Tribos)”, do Legião Urbana:

A tarde no Parque Ipanema está quente, mas debaixo destes pés de eugênia parecem vir uma suave salvação. Menos acalorados, Benito Bardo Junior, Girvany de Morais, Lizardo de Assis, Julian Cabral e Vinícius Siman discutem a sociedade.
- Estudiosos da Bíblia usam de eufemismo ao se referirem a certos trechos delas. – Diz Benito. – Como chamar de “serva” a escrava de Sara que fora violada por Abraão. Afinal, ‘escrava’ mostra melhor que ela fora estuprada, enquanto ‘serva’ sugere que Agar dormira com ele porque quis...
- O mesmo se pode dizer das nações. Os países, principalmente os mais poderosos, usam de eufemismo quando mencionam seus erros ou malfeitos; diz Chomsky. E usam disfemia quando mencionam os erros ou malfeitos contra eles. – Girvany partilha suas ideias. – O mesmo fazem os indivíduos. E quanto mais poderosa é a pessoa, mas a culpa recai sobre o outro. Para a elite o bom inimigo é a que lhe dá lucro. Entenda quem tem cérebro.
Benito e Girvany discutem enquanto Vinícius, Lizardo e Julian refletem.
- O que as nações comemoram é amostra do que provavelmente virá a ocorrer. O que se semeia germina quando dela se cuida. – Interpõe Vinícius. – Estados Unidos, por exemplo, comemora o Pearl Harbor, mas “esquece” o que fez com a Indochina, Vietnã do Norte, Camboja e o Vietnã do Sul; e este último, mesmo passado cinquenta anos, ainda tem perdas de vida provocadas pelos cancerígenos lançados por USA.
Julian modifica levemente o assunto ao falar da força do corpo em relação à ética, à educação e à moral:
- El cuerpo humano, como torrente colina abajo, despeña semen y óvulo. Quiero decir, el poder del sexo es el poder de la carencia física y esta es destructiva.
- Eufemismo... Como lembrou Vinícius, transformamos em datas comemorativas os dias horríveis. Sobre o pretexto de relembrar para não repetir. Talvez tenha sido esse o objetivo de alguns dos muitos que criam tais datas. Mas não é o que o ser humano faz na prática do cotidiano. O oito de março é um exemplo mundial. O dezesseis de agosto é um exemplo Latino-americano. E o vinte e um de abril é um exemplo brasileiro.
- Día de los Niños en Paraguay… En el año de 1869 la Guerra del Paraguay estaba cerca del fin; lo sabemos hoy. En aquél 16 de agosto el ejército brasileño asesinó tres mil quinientos niños paraguayos. Y el Tiradentes es solo para divertir y no para hacer de Brasil la gran nación que idealizó.
- Triste o motivo de um país ter como data comemorativa um mal feito brasileiro. Partindo disso e pensando no que Julian falou sobre sexualidade, mudo um pouco o assunto. Falarei sobre a violência de gênero na adolescência. – Lizardo não mais mantém para si seus raciocínios. – O jovem tenta desempenhar alguns papéis sociais para construir sua identidade, mas quando não consegue bom desempenho fica confuso em sua identidade. Assim, o estresse, por ser inevitável, afeta a maneira como o adolescente enfrentará sua compreensão do mundo, como reagirá ao outro e...
- Que livro é esse?
Um menino interrompe a conversa. Ele vira a capa do livro “A Lógica dos Devassos”, de Ezio Flavio Bozzo e ficou curioso. Por ser ele muito pequeno Benito recorre também a um eufemismo... A questão que me surge é: o propósito deste eufemismo e dos acima discutidos são os mesmo?
- Este livro fala do que não se deve fazer com as crianças. Este outro, que se chama Pedagogía del Oprimido, ensina como um professor deve ensinar para que os alunos se tornem pessoas melhores e livres de verdade. Os outros dois são Quem Manda no Mundo? E Um Norte para a Psicologia.
- Como você se chama?
- Sou Benito, e estes são Julian, Vinícius, Girvany e Lizardo. E qual é o seu nome?
- Arthur, com dois “r”, um no início e outro no fim; mais um “h” no meio do “t” e do “u”...
A mãe do garoto o chama para irem a algum lugar que não interessa a essa história e que para aqui porque a vida continua e cada qual tem que pensar e agir.


Ofereço aos meus mais recentes contatos no “caralivro”:
Adinagruber C. Lima, Wilson Filho, Bárbara Brasil e Marcus Stymest.

Fontes de informação para este cronto:
CHOMSKY, Noam. Quem Manda no Mundo?. Renato Marques (trad.). São Paulo: Planeta, 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogía del Oprimido. 3ª ed. Buenos Ayres: Siglo Veintiuno Editores Argentina, 2009.
LIZARDO DE ASSIS, Cleber. “Entre Tapas e Beijos”: representações sociais sobre a violência de gênero entre adolescentes. Um Norte para a Psicologia: estudos psicossociais na Amazônia Ocidental. Organização: Cleber Lizardo de Assis. Curitiba: Editora Prismas, 2018.

“Essa música que a gente vai tocar agora é do Quatro Estações, se chama 1965 – Duas Tribos e assim, eu nunca vi ninguém falando sobre essa música, mas, basicamente, a música é sobre o um momento no nosso país que de repente fechou tudo.  /  E eu acho sempre importante lembrar, eu pelo menos gosto sempre de me lembrar que hoje a situação pode tá difícil pra caramba mas, temos uma coisa muito preciosa que é liberdade, então, eu posso vir aqui cantar, vocês podem vir aqui, vocês podem fazer a pergunta que quiserem. Isso eu acho uma coisa muito, muito importante, por que a gente se esquece que até pouco tempo atrás, de repente dependendo das ideias que seu pai tivesse, seu irmão, sabe, seu namorado, iam bater na sua casa, eles iam pegar essa pessoa e você nunca mais ia saber o que tinha acontecido com essa pessoa e ficou por isso mesmo, e não se fala nisso. É uma coisa muito perigosa de tipo assim: ‘não, a gente era feliz naquela época.’  /  Gente, eu não me lembro de ser feliz naquela época, não. Fazer redação dizendo que o presidente é maravilhoso, quando muito tempo depois, a gente descobre que pessoas estavam sendo mortas em nome de uma grande coisa que não se sabe o que é, então eu acho isso muito péssimo. E a música é sobre isso.  /  A música fala especificamente de tortura e fala dessa ideia toda do Brasil ser um país do futuro. E é sobre como seria legal se a gente encaminhasse o Brasil pra ser um lance legal por que chega de ser o país do futuro! A gente tem que ser o país do presente! Temos que viver agora.”
Blog de Geografia. Renato Russo fala sobre a música 1965 (Duas tribos) e a ditadura militar. Disponível https://suburbanodigital.blogspot.com/2018/04/renato-russo-fala-sobre-musica-1965-duas-tribos-e-a-ditadura-militar.html?m=1 . Acesso 31 Ago 2018.
Blog de Geografia. Exercícios, atividades, mapas, vídeos, reportagens e dicas educacionais. Este é um blog geográfico de divulgação do conhecimento e de ideias. Texto postado em 30 de abril de 2018. O discurso de Renato Russo foi feito na década de 1990, no entanto, ainda e infelizmente, bem atual.

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve e publica neste seu blog literário aRTISTA aRTEIRO todo domingo e colabora no Ad Substantiam às quintas-feiras.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. E em breve também professor de História. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).
Imagens:
Eugênia Sombrosa – foto do autor.
Vendo-me Além da Janela  – foto de GirvOli.

Manuscrito na manhã de 03 de setembro de 2018 e digitado no início da tarde daquele mesmo dia. Trabalhado entre os dias 31 de dezembro e 06 de janeiro de 2019.