domingo, 20 de junho de 2021

DANAÇÃO DA NAÇÃO


Uma névoa... Não! Muito pequena para ser névoa. É gás. O vento cada vez mais forte não dispersou o gás que tinha, reparei, uma forma... Uns dois metros de altura, uns cinquenta ou sessenta centímetros no seu meio, seu alto quase tem um separação... como se fosse uma quase esfera pequena acima da parte ovalada... No ar, indo de uns dez a cinquenta centímetros, subindo, descendo, o gás. Uma parte à sua esquerda se destaca sem se desprender erguendo como se fosse um braço. O corpo gasoso, sim, só pode ser um corpo, e vivo, deslizou pelos vários metros que nos separava. Percebi uma forma levemente humana e quanto mais se aproximava, mais sólida parecia se tornar. Um corpo de homem. Parou com os pés no chão tão próximo de mim que se erguesse outra vez seu braço me tocaria. O medo que me silenciou começou a se esvair abrindo a minha boca e ele me disse

- Não se assuste. Está perdido?

Respondo para uma coisa dessa? Você responderia?

- Não se assuste. Posso te ajudar a encontrar o caminho para onde quer ir.

- Muito obrigado! Mas não precisa se incomodar.

- Não é incômodo. Vem! Vem!

Não saio do lugar então ele vem até mim. Dou um passo para trás. Ele não para.

- Não precisa ter medo. O caminho é por aqui.

Fala passando por mim. A luz da lanterna quase não o pegando mais sigo-o.

- Meu nome é Guino. O seu?

Guino é bem mais alto que eu. E adulto. Branco, cabelos pretos. Rosto comprido. Calça preta, camisa branca. Não é feio. A única coisa que assusta é um gás se solidificar...

- Ah! Meu nome é Breno.

Enquanto andamos, Guino não parou de falar sobre a noite, a floresta, livros (acho que viu o que estava comigo), mulheres, animais. Comida. Não sei porque resolvi olhar para ele através do meu espelho que peguei no meu farnel. Na mesma hora ele se virou pela primeira vez para me olhar e se vê. Seus olhos se avermelham de ódio, seu rosto estava horrível, suas mãos... duas garras e seus dentes enormes. No espelho, sob sua forma transparente ele me abraça. Beija meu pescoço. Meu pênis erige-se enquanto meu corpo amolece. Foi a melhor coisa do mundo. É a melhor coisa do mundo.

 

Em português:

 

Na Argentina e no Uruguai os casais trocam doces e juras de amor, pois é o Día de San Valentín; o dia dos namorados destes e outros países. Mas esta história não se passa fora, mas dentro do Brasil.

Aqui o dia amanheceu nublado e neblinado; algo meio avermelhado, meio cinza. Isso em todos os estados e municípios do país. Em todos!

Guino é do poder econômico e todos do poder econômico, são como Guino. Com mais de quatro anos de planejamentos e estratégias, Guino e seus semelhantes, assumem o poder político.

Com a venda das águas brasileiras; desgaste do saneamento básico; tomada das reservas indígenas; extermínio da população do MST; uso indiscriminado de agrotóxico da Bayer, Monsanto, BASF, Dow AgroSciences, Du Pont, Syngenta e a mais popular e perigosa: Roundup; queimadas no Pantanal mais as queimadas e desmatamentos na Amazônia. Não se pode esquecer dos desenvolvimentos de empresas de ônibus e, principalmente, de caminhões; com o desvio de dinheiro para maquinários ecológicos ou menos poluentes compraram os mais baratos, mais nocivos e com tecnologia ultrapassada; o descuido com a FIOCRUZ, com o Butantã, com as Universidades Federais; a recusa em comprar vacinas contra covid-19. O não gasto em desenvolvimento foi contabilizado, mas ficaram nos bolsos dos empresários.

Guino e seus pares somados aos quase cinquenta e oito milhões de Párias criaram o clima nublado, neblinado e vermelho acinzentado fazendo a danação da nação. Disse antes que isso aconteceu em todos os municípios do Brasil; mas aqui cabe uma correção. Nuvens e neblinas não obedecem às fronteiras. Para os padrões humanos elas têm organização aleatória. Há partes do Oceano Atlântico cobertas e partes costeiras descobertas. Há cidades antes das fronteiras com países Sul Americanos e há cidades nessas nações cobertas pelo mal.

Sim, pelo mal. Explico-me se ainda não entendeu (o que acho pouco provável).

Na epígrafe já foi muito bem explicitado que Guino é um vampiro. Já falei dele em outras histórias. E agora ele tomou posse do Brasil.

Durante os anos de preparação os alimentos para os humanos foram garantindo pelas indústrias de agrotóxicos; cuja renda maior passou a ser a venda de sementes geneticamente modificadas. Nada saudáveis, mas tornam o sangue mais saboroso.

E agora a luz que chega ao território nacional é ineficiente para controlar os vampiros. Uns poucos mil vampiros, cinquenta e oito milhões de semivampiros (estes são os Párias); e no Planalto Central o Escatológico assinando documento e não dizendo coisa com coisa desviando a atenção.

O ataque começou assim:

No correr do dia treze de fevereiro de 2021 o céu formou um pálio cobrindo parte da Terra do Sol.

Às 3:33 da madrugada do dia quatorze, Guino deu seu grito de guerra ecoado pelos outros vampiros.

Os Párias despertaram. Saíram de sua zona de falsa consciência para sua natureza de inconsequente inconsciência.

Atacaram, destroçaram seus pais, avós, seus filhos, netos, seus maridos ou esposas. Depois foram aos vizinhos.

Em pouco tempo duzentos mil mortos. Quatro meses depois já eram meio milhão; e o número a crescer exponencialmente.

Um exemplo:

O advogado Sá Teixeira ainda dormia quando o eco vampírico despertou o gene ruim. Suas pupilas avermelharam, sua íris ficou amarela e a esclerótica, arroxeada. Os caninos dobraram de tamanho, arquearam como dentes de serpentes e afinaram como agulhas com um sulco por onde escorre os venenos.

O primeiro veneno é paralisante, anestesiante e contrastando com eficiência sensibiliza os genitais excitando-os mesmo sem toques. Assim, o vampiro suga o sangue, come a carne da presa sem este reagir.

Após algumas vítimas o Pária consegue controlar-se o suficiente para imobilizar a presa, alimentar-se sem destroçá-la e inocular o segundo veneno.

Para produzir o segundo veneno o Pária necessita de sangue e carne para suas glândulas digestivas produzirem uma espécie de vômito que vai para a boca e diluindo-se forma a saliva. As gengivas absorvem o veneno e através dos dentes modificados transforma a vítima em outro Pária. Uma vez lançado o veneno transformador a fome retorna para destroçar novas presas. Assim é formado o ciclo.

O advogado Sá Teixeira e sua mulher, uma médica, passaram pelo mesmo processo. Ainda dormindo os olhos, os dentes, os órgãos digestivos, as mãos e unhas se modificaram nas poucas horas antes do que seria o nascer do sol.

Abriram os olhos juntos, olharam-se e não se reconheceram. Rosnaram um para o outro, mas não servindo de comida saíram da cama.

A mulher foi para o quarto ao lado e o marido para a cozinha.

No quarto, duas crianças e na cozinha a sogra preparava o café.

A velha deu um leve grito de surto, mas empurrada para a parede recebeu a mordida. Ficou vendo o genro acabar com seu sangue e arrancar partes de seu pescoço, seios flácidos e braços. Foi gostoso como orgasmos múltiplos.

A criança mais perto da porta não gritou; paralisada antes de assustar-se. Sem conseguir abrir os olhos sentiu seu sangue molhar a cama enquanto sentia um prazer desconhecido.

O som da carne destroçando-se acordou a criança da outra cama ao mesmo tempo que o pai ia para o quarto do filho adolescente.

O grito da criança acordou o irmão no outro aposento e chamou a atenção da mãe.

A criança tentou correr e o adolescente quis avançar para o pai sem saber o que lhe esperava.

A criança quebrou a janela ao ser jogada contra ela e o sangue jorrou pelos cortes; atiçando a Pária.

O adolescente sentiu seu pau e se assustou com o tesão sem sentido pelo pai. Morreu sem entender porque seu pai o devorava e porque ejaculava.

Sem mais ninguém na casa o casal saíra desvairado à rua. Em algumas casas acontecia o mesmo e outras casas eram invadidas.

O céu cinza e o ar nublado não eram percebidos pelos Párias e as presas não tinham tempo de observá-las.

No Brasil e no mundo há outros grupos não humanos. A maioria não é parasita; como os bruxos, sacis, curupiras...

Saci.

Vampiros não ousam enfrentá-los. Se estes não indestrutíveis também não são presas fáceis. Os Párias não dispõem de razão, mas não atacam os não humanos por instinto.

Os não humanos não se envolvem nos negócios dos vampiros. Porém desta vez o clima intervém no seu habitat.

A primeira medida que tomaram foi a criação de redomas com consistência de bolhas. E mesmo nos centros urbanos o ar é bom, a neblina não é tóxica e quando o céu se nubla é a natureza em um de seus momentos.

A segunda medida tomada foi não entrar em guerra. O planeta se cuida mesmo sem gente humana ou não humana. Em verdade, o planeta não necessita de gente. Os não humanos sabem disso e deixam a natureza fluir. Enquanto ela se equilibra os não humanos criam campos urbanos ou silvestres para eles, para os animais, plantas e humanos que os encontrar.

Meses depois do Valentim da Morte em um acampamento, humanos e não humanos festejam a lua no céu limpo.

Lima e Barreto se beijam debaixo de um caramanchão. Uma mulher passa perto deles e bate a cabeça num enfeite. Rindo, Barreto diz “só mesmo humano para não diferenciar lata de flor”.

O tempo não para e não sobra mais humanos fora dos acampamentos mágicos. Do Brasil não resta muita coisa então Guino vai de país em país da América Latina e depois para a parte Norte do continente. Os Párias vão se inanindo à extinção. Após o fim da América quais serão os próximos países? O que sei é que o mundo não precisa de gente...

O planeta continua se cuidando (é por isso que o mundo permitiu os parasitas, para limpar-se). Um dia a vida como foi até o século XXI não mais subsistirá. Parasitas se extinguem com a morte do hospedeiro. O que será dos vampiros? Dos Párias já sabemos, mas dos conscientes? De qualquer modo a Terra está tranquila.

Os não humanos estão igualmente tranquilos. Se a natureza os selecionar continuarão no que disse Antoine Laurent Lavoisier.

 

 

Principales partes en español:

CONDENACIÓN DE LA NACIÓN

 

Guino es del poder económico y todos del poder económico son vampiros. Tras años de planes y estrategias Guino y sus pares asumen el poder político.

Con la venda de las aguas brasileñas; desgaste del saneamiento básico; tomada de las reservas indígenas; exterminio de la población de las reformas agrarias; uso indiscriminado de pesticidas de la Bayer, Monsanto, Basf, Dow AgroSciences, Du Pont, Syngemta y la más popular y peligrosa: Roundup; quemadas en el Pantanal más las quemadas y derribada de Floresta Amazónica. No se puede olvidar del desarrollo de empresas de autobús y camiones; del desvío de dinero para la ecología; ni del descuido con la FIOCRUZ, con el Butantan, con las Universidades públicas; la recusa en comprar vacunas contra el covid-19…

Guino y sus iguales más los casi cincuenta y ocho millones de Parias crearon el clima nublado, brumoso y rojo grisáceo haciendo la condenación de la nación.

En los años de preparación los alimentos para los humanos fueron garantizados por las industrias agrícolas; cuya renta principal era la venda de semillas genéticamente modificadas. Nada saludables, pero tornan la sangra más rica.

Con la luz que ahora llega al territorio nacional es ineficiente para controlar a los vampiros unos mil vampiros, cincuenta y ocho millones de semivampiros (eses son los Parias); y Brasilia el Escatológico firmando documentos y nunca dando pie con bola descarrilla la atención.

El ataque empezó así:

En el correr del día trece de febrero de 2021 el cielo fue cubierto por una pabellón a empanar el Sol.

A las 3:33 de la madrugada del día catorce, Guino hizo el grito de guerra que despertó a los Parias. Ellos salieron de su zona de falsa consciencia para su naturaleza de inconsecuente inconsciencia.

Atacaron, destrozaron sus padres, abuelos, hijos, nietos, maridos, esposas… Después a los vecinos. En un rato, doscientos mil muertos. Cuatro meses después ya eran quinientos mil muertos y el número a crecer exponencialmente.

El eco del grito vampírico despertó el gene malo; enrojeció la pupilas, las iris amarillaron y la esclerótica se quedaron moradas. Los colmillos doblaron de tamaño, arquearon como dientes de serpientes y afilaron como agujas de donde salían los venenos.

El primer veneno es paralizante, anestésico y provoca sensibilización y excitación de los genitales. Así el Paria chupa la sangre y come la carne sin la presa reaccionar.

Tras un par de víctimas el Paria consigue controlarse el suficiente para inmovilizar la presa, alimentarse sin destrozarla e inocular el segundo veneno.

Para producir el según veneno el Paria necesita de sangre y carne para sus glándulas digestivas produjeren una especie de vómito que va para la boca y diluyéndose se forma la saliva. Las encías absorben el veneno y a través de los dientes modificados convierte a la víctima en otro Paria. Una vez lanzado el veneno cambiante el hambre retorna para destrozar nuevas presas. Así es formado el ciclo.

No Brasil hay otros grupo no humanos. La mayoría nos es de parásitos; como los brujos, los sacís, los curupiras…

Curupira.

Porque son inteligentes los vampiros no los enfrentan. Y por instinto los Parias también no los enfrentan. Y los demás no humanos no se involucran en los asuntos de los vampiros. Sin embargo, ahora el clima interviene en sus reinos.

La primera medida que tomaron fue la creación de redomas con consistencia de burbujas con la capacidad de limpiar la polución y virus.

La segunda medida tomada fue no entrar en guerra. El planeta se cuida mismo sin gente humana o no humana. En verdad, el planeta no necesita de personas. Los no humanos saben de eso y dejan la naturaleza fluir. Mientras ella se equilibra los no humanos crean campos urbanos y silvestres para ellos, para los animales, plantas y, si los encuentran, para los humanos.

Meses después del Valentín de la Muerte en un acampamento, humanos y no humanos, festejan la luna en el cielo limpio.

El tiempo no para y no hay más humanos fueran de los acampamentos mágicos. De Brasil no hay mucha cosa más y por eso Guino se traslada de un país a otro en toda Latinoamérica hasta ocupar todo el continente, de Sur a Norte. Los Parias se van muriendo de inanición. Después de América, ¿cuáles países y continentes se han de morir? No sé, pero el mundo no necesita de personas…

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Faire (Amnon K. Oliveira), Jaydson Sousa, Salomão A. Costa, Vilma Zeferino e Feliciana Saldanha.

 

BORGES, Helena (o Globo). Estudo mapeia as dez empresas que dominam o mercado de agrotóxicos no mundo. Disponível: https://actbr.org.br/post/estudo-mapeia-as-dez-empresas-que-dominam-o-mercado-de-agrotoxicos-no-mundo/17568/ . Acesso 22 Fev 2021.

 


Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Saci: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/trick-ou-treat-dizia-o-saci-polarizacao-do-dia-das-bruxas.phtml

Curupira: https://dana.com.br/social/nossos-projetos/lendas-brasileiras/curupira/

Autor: Vinícius Siman.

 

Na madrugada de 14 de fevereiro de 2021 tive o sonho ruim que deu origem a este cronto. No hospital Municipal de Ipatinga, acompanhando minha mãe, escrevi o manuscrito enquanto ela descansava. Dia 16 de fevereiro ela falece por parada cardíaca súbita motivada pelo convid-19. O cronto foi digitado e trabalhado entre os dias 22 de fevereiro e 20 de junho do mesmo ano.

domingo, 13 de junho de 2021

DURA TERRA

 

Santo Antônio de Batalha,

Faz de mim batalhador.

Corre e gira Pomba Gira,

Tranca Rua e Marabô.

Laroyê Exu!¹

 

Quem me abraçava antigamente,

Meu Santo Antônio,

Hoje quer me derrubar.

Saravá, meu Santo Antônio,

Sou filho seu.

Abençoai meus inimigos,

Meu Santo Antônio,

Pelo amor de Deus.²

 

O galo cantou

Tornou a cantar

Santo Antônio amarrador

Ele sabe desamarrar.³

  

 

Para que escrever?

Para que ensinar?

 

Chove há três dias.

– Ninguém ressuscitou  –.

Chuva miúda,

Boa pra terra

– Terra boa pra plantar

Para cultivar meio milhão

E ver se vinga o fim do vilão  –.

Chuva miúda

A esfriar o tempo.

 

Olho

Um estudante

Tento ver seu rosto.

Olho

Uma gente

Tento ver seu rosto.

 

E

 

Desânimo!

Do que está,

Do que virá:

Medo!

As religiões,

As políticas:

Ignorância!

 

Brasil:

 

Alvo

Corpo

Negro

Branco

Corpo

Salvo

 

Santo Antônio,

O que quero

É sair, inexistir

Mas o que tenho

É ser batalhador

 

Ouço do vento

Ou da fantasia

Ou talvez do santo:

Quem te lançou palavras

Lança-te pedras.

Quem te laçou com abraços

E disse: Toma, é teu!

É quem te desenlaça

Dizendo sobre o que te entregou:

Não tomes o que é meu!

 

Para isso escreve

Para isso ensina.

Drummond diz:

“Se você morresse

Mas você não morre,

Você é duro”.

E sou Santo Antônio, o Exu!

Sou terra

Terra da terra

O que está por baixo e por cima

O que se faz por baixo e por cima

Sou terra.

E por isso

Se Tranco Rua

Também abro Caminhos.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Mª Silva Bueno e Alexis Senshi.

Ofereço ao meu mais recente contato no Caralivro e, espero, amigo na vida: Gustavo Drumond.

Ofereço a família Jah a partir pelo mundo: meus filhos Andrés e Erika, meus netos Lion e Kael.

 

Recomendo a leitura de:

“O pássaro e o que sofre”, de Eraldo Maia:

http://eraldomaia.blogspot.com/2021/06/o-passaro-e-o-que-sofre.html

“Nudez infinita”, de António MR Martins:

http://poesia-avulsa.blogspot.com/2021/06/nudez-infinita.html

 

¹ Exu – Santo Antônio de Batalha:

https://www.youtube.com/watch?v=bCPEVQBGiD4

² Ponto de Descarrego – Santo Antônio da Ribeira:

https://www.youtube.com/watch?v=aDP-s0pJ6Gk

³ Pontos para Santo Antônio:

https://www.youtube.com/watch?v=6qLW9d0idB0

Observações:

No sincretismo Santo Antônio é Exu. Marabô é designação do Exu da Terra; entidade muito poderosa. E laroyê é uma das muitas formas de cumprimentar Exu. (Informações a mim repassada pelo músico Rubens Ramalho).

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Santo Antônio, foto tirada pelo autor (a imagem me foi presenteada por Vinícius Siman);

Rubem dando bandeira, foto tirada por Vinícius Siman.

 

Escrito e trabalhado entre 10 de março e 13 de junho de 2021.

domingo, 6 de junho de 2021

MORREU POR IMPUNIDADE

 

Pai meu que está no Céu, santificado é só o meu nome. Venha a mim o meu reino (e para de enrolar, seu va-ga-bun-do). Seja feita a minha vontade assim na terra plana como no Céu. O pão meu de cada dia (pão nada, que isso é coisa de pobre; só comida cara) me dá agora (que não sou obrigado a esperar). Nada tenho que ser perdoado, mas perdoo Jesus, o comunista. E não perdoo quem me ofende. Não me deixeis cair na tentação de amar meu próximo e empurrai aos demais pros infernos.

Armem.

 

Os dias são domingo e depois segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda terça, quarta, quinta, sexta, sábado...

O dia e a noite, o dia e a noite, o dia e a noite... Se fazem madrugada, manhã, tarde, noite, madrugada, manhã, tarde, noite, madrugada, manhã, tarde, noite...

Estamos em junho que se seguirá por julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro...

Milênios antes da Via-Láctea, milênios com Via-Láctea, milênios depois da Via-Láctea... Milênio de formação da Terra, milênios antes dos sapiens, milênios com os sapiens e milênios após.

 

 

Ouvi num vídeo da atriz Denise Fraga que me tirou lágrima. Ela se encontrara com uma amiga de baixa instrução que chorava a morte do irmão morto pelo covid. Essa pessoa comentou com a atriz:

- Meu irmão morreu de covid porque estava com a impunidade baixa.

A atriz, naquele momento de dor da amiga, decidiu não corrigir o erro: não é impunidade; é imunidade. Mas ela teve vontade de dizer:

- O seu irmão não morreu de impunidade baixa. Ele morreu de covid por causa da impunidade alta.

O Pazuello foi castigado com uma pensão vitalícia. – Dou uma triste risada. – E todas essas pessoas que cometem os mais bárbaros crimes contra os mais fracos nada lhes acontecerá porque sua impunidade é altíssima. Nada vai lhes acontecer. Denise Fraga fala da ironia que o problema não foi a baixa imunidade do rapaz e sim a alta impunidade... – não da elite porque isso exigiria elevado teor intelectual entre outras coisas. – Alta impunidade de quem está no poder.

 

Um gemido ou arfar desalentado escapa de meu peito.

 

Não deveríamos permitir que pessoas como os prefeitos de Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo, policiais, militares, empresários, vereadores, deputados, senadores, governadores, presidentes saiam impunes.

- A ética tinha que ser uma realidade. – Diz um inteligente amigo. – Não importa quem deveria ser julgado segundo as leis e comprovado o crime, condenado. O essencial é a educação. Educação é a chave de tudo.

- Não há como dizer que educação... – Não consigo completar a relevância da educação. Há muita amargura em meu corpo para a lógica sair com facilidade. – Temos que educar as crianças, educar os pais, educar os políticos, educar os policiais, educar os sacerdotes de todos os credos, educar os médicos, os advogados, quem varre rua, quem caminha pelas ruas, quem está vendendo, quem está comprando. Sem educação nada funciona. Mas quem educará? Quarta-feira fui a um advogado e vi pela tela de seu computador a página de watzap. Um dos grupos que ele segue é “somos todos Boçalnato”. Precisamos educar sobretudo aos professores. Mas quem seria os educadores? Faz tempos e tempos que digo que os professores deveriam ser a elite intelectual dos municípios. E só a escola onde trabalho grande parte foi eleitora do Boçalnato. Vê-se que eles não têm nenhum intelecto. O que estão ensinando? Se só conseguem dizer “petêêê, Luladrão! Miiiito!”. Mas eu concordo com o senhor, educação é... O que não consigo ver é quem educará.

- Essa CPI – Diz uma amiga igualmente inteligente – só desperta angústia, ódio... Na Praça Primeiro de Maio, no Centro de Ipatinga tem uma barraca buscando filiação para o partido do Boçalnato. Parece que eles existem para despertar empatia. Mas como ter empatia com gente assim? Se eles exterminam os índios; fizeram dois homens perderem um de seus olhos; ameaçaram estuprar uma criança de cinco anos por ser filha de uma importante política da esquerda. Gostaria poder confrontar essa gente, mas me sinto com medo. Não sei o que dizer-lhes.

- Confrontar, comentar como? Dizer o que para eles? Boçalnato, antes de ser eleito, já se declarava corrupto, que sonegava impostos; que ia tirar até o último centímetro de terra dos indígenas; que negro se pesa em arroba. E aí vai... Não há como confrontar uma pessoa que não se importa com nada disso. Não há como discutir. Ouvi uma história:

Um burro e um tigre discutiam sobre a cor da mata. O burro zurrava que era azul e o tigre bramia que era verde. Depois de tanto discutirem decidiram conversar com o rei leão.

O burro azurrou enfaticamente que a mata era azul e que o tigre deveria ser punido por espalhar “fêiqui nius”.

O rei leão declarou:

- Tudo bem, senhor burro. O tigre terá como punição a obrigação de ficar calado por quatro anos.

O burro saiu todo contente a ornejar sua sapiência e o merecido castigo do tigre mentiroso.

- Rei leão, por que vossa majestade concordou com o burro e me castigou se sabe que a mata é verde?

- Puni a vossa alteza porque nunca se discute com burros. Eles são incapazes de compreender a verdade. Espero que o senhor nunca mais perca seu tempo com os imbecis.

E a verdade é que estamos indo para quatro anos sofrendo os males causados pela récua nacional. Eu mesmo discuti com esses imbecis, mas foi em vão. Já foi dito, não me lembro por quem, que os idiotas vencerão o mundo não pela capacidade, mas pela quantidade.

E por que não me calo? Porque sou cigarra a gritar até estourar-me... Esta é minha natureza. Ou talvez até ser devorado pelas formigas milicianas. Essa é a natureza humana.

- Precisamos da Luz de Buda, de Cristo, de Olorum. Precisamos de Luz divina para trilhar sem nos perdemos.

- Precisamos de luz sim. Mas me lembro daquela música:

Diz que Deus dará, diz que Deus dará, mas se Deus não der, ó nega, como é que vai ficar?

- Realmente não podemos transferir a conta para Deus. O problema é nosso. – Uma pausa. – Mas minha esperança é que essas cobras se engulam.

 

Os dias são domingo e depois segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado...

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Adinagruber C. Lima, Éder Rodrigues, Neusa Silva, Luciano A. Maciel, Edney Costa e Claudiane Dias. 



Rubem Leite
é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens: fotos do autor.

 

Escrito entre os dias 04 e 06 de junho de 2021.

domingo, 30 de maio de 2021

CONDENA-SE A QUEM É VISTO, NÃO OS CULPADOS

 

Somos pedra

e carne ardente¹

 

Não são dez horas de vinte e sete de dezembro e o sol está escondido pelas nuvens branco-cinza.

No Feirarte ainda há pouco público e o pessoal das barracas conversam enquanto se organizam. Falam do Natal recém passado:

Natal em família sem briga ou intriga não é Natal.

A ceia só acaba quando chega a polícia. Caso contrário fica até dia 26...

Meu Natal teve gostoso almoço. E teve acusações de furtos, deboches, ameaças de brigas. E assim continuou no dia 26. – Meu primeiro Natal com espírito cristão: intolerância. Espero que nunca mais se repita. Prefiro meu Natal pagão onde se reverencia ao Menino Deus sem as idiocracias cristãs.

Três brigando e eu me sentindo numa sala de aula carregada de alunos do sexto ano em plena algazarra desordenada.

Agonia. Agonia. Uma sala de crianças de onze anos é mais controlável que dois adultos machistas mais a esposa de um deles.

- Me tengo agarrado mis huevos…

- Macho por macho sou mais eu...

Parece que os adultos são imaturos como os meninos.

Para que a vida? Lizardo de Assis diz no livro Opus, na página 74:

Sugamos, predamos, futucamos

Parasitamos

O outro.

E este outro nos faz o mesmo.

É isso? É isso! Não sei viver. Não aprendi a viver e não foi por falta de aulas...

Alguém vê uma foto que postei no Caralivro e me diz “Bom dia!”. Já sei como ele age. Hoje, ou amanhã ou em breve me pedirá algo.

O sol está surgindo e são agora vinte para as onze. As pessoas vão chegando, mas tão aos poucos que Marcelo diz não voltar semana que vem se a tarde continuar rala de pessoas.

Nos últimos cinco dias o Centro de Ipatinga e em todos os outros lugares olho ao redor e vejo apenas pessoas ralas.

Não sei se vivemos num formigueiro ou se numa alcateia. O que sei é que não há sociedade.

 

Dois mil e vinte e um já alcança junho.

- ¡Hola, don Benito! Mañana será cumple de mijo.

- Lo sé. Su nuera e hijo planean ir domingo a una cascada pasar el día. Me invitaron pero soy un bicho que se encanta quedarse en la madriguera.

Ella charla alguna cosa y continúo:

- Mira esa foto: 

- Esa es la más joven flor de anturio. Está en mi ventana. La compré en enero pocos días antes del nacimiento de Rael. Junto al anturio está el ombligo del niñito. Es costumbre brasileño plantar el ombligo en una planta pues es una bendición para el niño crecer bien. Anturio es una planta natural de Colombia que Salió al mundo.

- ¡Ay! Tan hermoso, don Benito. Está hermosa la flor. – Reír alegre. – Me alegra la vida. Me alegra la vida.

 

Sexta-feira, dia 28 de maio, a Prefeitura Municipal de Timóteo resolveu vacinar os professores; mas só os professores. E isso para os docentes retornarem às aulas presenciais na segunda-feira, dia 31.

Vacina! Não para os pedagogos, nem para funcionários da Secretaria ou dos Serviços Gerais. E estes se sentiram irritados. Mas com quem? Com os professores. Não com o poder público, mas com os professores.

Desmotivado pelos comentários contra os professores não mostrei a foto que tiraram quando me vacinaram: 

Já começou a metamorfose. Os cabelos até arrepiaram. Acho que serei o Cuco do Sítio do Picapau Amarelo.

Tomamos a AstraZeneca. A segunda dose é noventa dias depois da primeira. Mas o corpo produzirá imunidade três semanas após a segunda dose. Vacinar é importante, mas para o retorno imediato é inútil. Vacinar é importante para daqui a quatro meses não corrermos riscos de nos infectarmos nem de infectar ninguém. Para não morrermos nem matarmos. E se isso acontecer – e vai acontecer – vão dizer que a culpa é de quem?

- Ah! Vocês poderiam manifestar... fazer greve...

- Fizemos no início do ano. Seguimos a lei e comunicamos a paralização com setenta e duas horas de antecedência. A prefeitura entrou na justiça e conseguiu uma liminar obrigando a não paralização.

 

Maio acaba amanhã e no domingo passado o Feirarte estava mais do que lotado. E a terceira evolução do covid-19 está chegando. O que aprendemos?

Machado de Assis diz em Entre Santos: O ser humano alforria o cadáver da velha escrava para não pagar o enterro. Fala também: As pessoas são usurárias como a vida e avaras como a morte.

- Não entendi. – Um me diz. – Conte a história toda.

- Para entender tem que esquecer, no momento, a história. E há de olhar para as pessoas. Ver o que elas fazem umas com as outras, como elas agem.

- Você diz “as pessoas... elas fazem...” como se fosse melhor.

- Sou uma pessoa? Um ser humano?

- Ah... Sim!

- Então eu me encaixo nessa descrição.

- Não sou assim.

- Se você diz... – Falo com um sorriso debochado; pouco... pouco debochado e muito amargo.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Naja Batistela, Marcio Castro, Eder Rodrigues, Valdiene Gomes, Cyd Ramos, Marcelo S. Marinho e Adinagruber C. Lima.

 

Recomendo a leitura de:

“OPUS: Selecta de poesia em Língua Portuguesa”; um dos autores e Lizardo de Assis. Mais informações: temas.originais@gmail.com

“QUINTAS – livro I das Quintas”; antologia. Maiores informações: www.jornalaldrava.com.br

“Promessas Azuis: haicais”, de Goretti de Freitas. Prefácio deste macróbio que vos fala. Mais informações: +55 31 93426003

 

¹ Miguel Paulista. Poema III. OPUS: Selecta de poesia em Língua Portuguesa. 2018. P. 96.

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Antúrio: foto tirada pelo autor;

Vacina: foto tirada por Matheus Menezes.

 

Escrito entre 27 de dezembro de 2020 e 30 de maio de 2021.

domingo, 23 de maio de 2021

O PERAMBULAR PELAS SOMBRAS


Em português

 

Fui a casa de meu neto segurando o livro que ele me presenteou quase vinte anos atrás. Presente comprado com a grana que nos separou. Ainda hoje não aceito nada do narcotráfico. Mas a morte se aproxima e quero ir em paz.

Nervosa, li o que escrevera no livro:

Para minha avozinha:

Daqui até a eternidade te desejo o melhor em tua vida.

Cuida-te muitíssimo e sempre que necessite da mão de um amigo pense em mim.

Nícolas

22 de setembro de 2000.

Apertei o botão da campainha. Barulho na rua e silêncio na casa. Apertei outra vez a campainha. Silêncio na casa. Pressionei e silêncio. Tentei olhar pela janela, mas a cortina impedia. Toquei a maçaneta e a girei. A porta se abriu. – Nícolas! – Olhei lá dentro, mas estava escura. – Nícolas! – Entrei e caminhei pela sala e cheguei à cozinha um pouco menos escura. – Nícolas! – E só havia um cachorro numa cadeira velha e estragada. 

O cachorro na cadeira olha atrás de mim. Não, na verdade não era mais um cão. Não um vivo. Sua pele cobria só ossos. Enquanto seus vítreos olhos viam o sujeito atrás de mim.

Mas eu percebia nada além do cadáver do animal. Não até a hora que a mão gelada e pétrea do morto tocou meu ombro.

O medo me abraçou fria e pétrea como a do morto. Dois? Não, três segundos e vi sangue escorrer em meu braço. Ia gritar, mas já era tarde. Agora meu corpo anda pelas ruas e minha alma perambula nas sombras pela eternidade; com meu neto.

O medo ataca o Brasil com mão fria e pétrea.

Tendo o Capitão da Morte como bastião, cinquenta e sete milhões de mortos-vivos devoraram meio milhão de brasileiros. Talvez poucos mortos-mortos em comparação com o número de mortos-vivos... Mas esse número pequeno é mérito da ciência tão combatida. Porém, em contrapartida, não se tem ainda a estimativa das almas a virem a penar.

 

 

En español

 

EL DEAMBULAR POR LAS SOMBRAS

 

 

Entré en la casa de mi nieto sustentando el libro que él me regaló a casi veinte años. Regalo comprado con la plata que nos separó. Todavía hoy no acepto nada del narcotráfico. Pero la muerte se acerca y quiero ir en paz.

Nerviosa, leí lo que escribiera en el libro:

Para la abuelita:

De acá hasta la eternizas te deseo lo mejor en tu vida.

Cuídate muchísimo y siempre que necesites la mano de un amigo pensé en mí.

Nícolas

Sep. 22’2000

Presioné el botón de la campanilla. Alboroto en la calle y silencio en la casa. Presioné otra vez la campanilla. Silencio en la casa. Presioné y silencio. Intenté mirar por la ventana, pero la cortina me impedía. Toqué la manzana y la giré. La puerta se abrió. – ¡Nícolas! – Miré a dentro, pero estaba oscura. – ¡Nícolas! – Entre y caminé por la sala y llegué a la cocina un poco menos oscura. – ¡Nícolas! – Y solo había un perro en una cadera vieja y rota. 

El perro en la silla mira tras mí. No, en verdad no era más un perro. No uno vivo. Su piel cubría solo huesos. Todavía sus vítreos ojos veían al tipo tras mí.

Pero yo percibía nada más allá del cadáver del animal. No hasta la hora que la mano helada y pétrea del muerto me tocó el umbro.

El miedo me abrazó fría y pétrea como la del muerto. ¿Dos? No, tres segundos y vi sangre escurrir en mi brazo. Iba a gritar, pero ya era tarde. Ahora mi cuerpo anda por las calles y mi alma deambula en las sombras por la eternidad; con mi nieto.

El miedo ataca a Brasil con mano fría y pétrea.

Con el Capitán de la Muerte como bastión, cincuenta y siete millones de muertos-vivos devoran medio millón de brasileños. Quizás unos pocos muertos-muertos en comparación con el número de muertos vivientes… Pero ese pequeño número es mérito de la ciencia tan combatida. Sin embargo, por otro lado, todavía no hay una estimación de las almas que han de sufrir.

 

 

Ofereço como presente aos aniversariantes:

Varlei Castro, Elisio ElijArts, Herbert Gabriel, Danielle Grego e Joey Garcia.

 

Recomendo a leitura de:

“O Chamado do Monstro”, de Patrick Ness; editora Ática.

“Promessas Azuis”, haicais de Goretti de Freitas: Pix – chave: (31)993426003

“Assassinato no Centro Cultural do Shopping” e “O Melhor Brinde”, ambos de Glaussim:

https://www.recantodasletras.com.br/contos-de-aventura/7238010

https://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/7259399

 

Diquinha de português:

Crase e a palavra “casa”.

Lembrando: crase não é acento grave. O acento é indicador de crase, mas não crase. Crase ocorre quando há o artigo feminino “a” mais a preposição “a”.

A palavra “casa” pode significar muitas coisas diferentes e por isso ela tem regras próprias para o uso ou não de acento grave.

Sem a presença de crase => casa com sentido de lar, residência: Voltarei a casa quando a reforma estiver pronta.

Uma informação pertinente sobre o exemplo acima: verbos “ir” e “voltar” exigem o artigo (quem vai, vai a algum lugar e quem volta, volta a algum lugar), então a impressão que fica deveria crasear. Então, porque não ocorre crase? Porque casa com sentido de lar é um substantivo que não admite artigo porque se pressupõe que já esteja definida. Assim se diz: Volto para casa ou cheguei em casa (sem artigo).

Com a presença de crase => casa com sentido de prédio, construção: Por favor, dirija se à casa ao lado.

Outra informação pertinente: casa associada a adjunto adnominal a crase é obrigatória, mesmo quando casa for sinônimo de lar, residência. Pois a casa estará especificada de algum modo (adjunto adnominal): A proposta é que voltemos à casa de Tiago. [... casa é a residência, mas o adjunto adnominal “de Tiago” exige a crase]. Não é uma casa qualquer, mas foi especificada como de uma pessoa.

 

Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve todo domingo neste seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO. É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. E pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”. Autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Imagens:

Vitório: meu cachorrinho poucas semanas antes de morrer velhinho; foto tirada pela artesã e fotógrafa Erika Aviles;

Do autor pelo autor.


Manuscrito originariamente en español en la tarde de 29 de julio de 2020. Trabajado entre los días 08 de abril y 23 de mayo de 2021.